quinta-feira, 5 de março de 2015

Como manter o foco em um mundo cheio de distrações



Essa é uma pergunta que eu recebo frequentemente. Contudo, minha resposta às vezes surpreende o interlocutor. As pessoas geralmente esperam ouvir um amontoado de dicas, técnicas e práticas recomendadas para aumentar a produtividade e potencializar o foco. Essas ideias ajudam, mas na raiz da distração, existe uma coisinha muito mais ordinária: sua própria vontade.
Nós somos livres para fazermos o que quisermos. Se escolhemos a distração ao invés da responsabilidade, a culpa é nossa!
Ninguém sofre de “falta de foco” como se isso fosse ser uma doença. Distração não é um vírus que infecta sorrateiramente o hospedeiro e o torna incapaz de lutar contra sua força. É claro que todo mundo sabe disso, mas então porque as pessoas se comportam como se não tivessem forças para lutar contra as distrações que as “atrapalham tanto”? Por que as pessoas se fazem de bobas quando tentam explicar porque tiveram tanto tempo e não fizeram nada com ele?

É tudo uma questão de perspectiva. Nós vivemos em um mundo muito acostumado a terceirizar a responsabilidade por seus erros e omissões. A culpa é sempre de alguém, quando não é possível culpar o outro, reclamamos então da sociedade, da tecnologia, da correria, da economia. Esse mundo é muito louco, eu não tenho tempo para fazer nada!
Todos nós temos a mesma quantidade de tempo evidentemente, por que então algumas pessoas conseguem ser super produtivas enquanto outras mal conseguem (ou não conseguem) dar conta de suas próprias responsabilidades? O que fazemos com o nosso tempo é uma questão de prioridades. Como nenhum de nós é escravo, nós não somos obrigados a fazer nada que não queremos. Mas aí o cabra escolhe assistir novela, postar fotos e vídeos de gatinhos e cachorrinhos no Facebook, encaminhar correntes e alertas (falsos) de crianças desaparecidas para seus todos os seus amigos, muitos dos quais se irritam profundamente com tal prática, e por aí vai. Depois vem reclamar que não tem tempo pra nada e quer umas dicas? Humm… o que é que eu digo?! Eu poderia lhe dar as melhores técnicas, ferramentas, planilhas e truques para administrar o tempo e ser ultra produtivo, mas na hora H o cara escolhe fazer outras coisas ao invés de fazer o que ele tinha se proposto…
Quando o problema é distração, a única arma que temos para superá-la é nossa própria vontade. É uma situação diferente de quando temos muitos compromissos, todos importantes e não temos tempo para atender a todos eles. Essa problemática pode ser tema para outro artigo. Contudo, no final das contas, tudo o que diz respeito ao uso do tempo é uma questão de priorização e organização. Por que nós nos deixamos levar por distração e tendemos à desorganização que nos leva a perder o fio da meada com nossos compromissos e planos?
Basicamente, nossa tendência para a distração é ditada pelo grau de mentalidade hedonista. O hedonismo é aquela vontade de obter prazer acima de tudo e evitar ao máximo tudo o que causa desconforto, mesmo que seja algo extremamente importante. Estudantes hedonistas, por exemplo, têm muita dificuldade para estudar, fazer lição de casa ou mesmo prestar atenção na aula. Aprendizado requer esforço, empenho e até mesmo um eventual sacrifício, como trocar uma atividade ou evento “legal” pela necessidade de estudar para uma prova no dia seguinte.
A sociedade ocidental como um todo é hedonista. Há uma ultravalorização do prazer, do entretenimento e tudo o que não fornece bem-estar para os cinco sentidos é visto como “chato”, males necessários como o estudo, o trabalho ou a dedicação. A própria busca da felicidade tão engrenada no inconsciente coletivo evidencia o vício da sociedade no ópio das sensações. O hedonista vê obrigações como necessárias para que ele possa obter mais prazer no futuro, ou evitar situações ainda mais desconfortáveis. Estudo é necessário para obter um bom emprego que remunerará uma quantia suficiente para ter uma vida prazerosa. O desprazer do trabalho é suportado com má vontade pois sem ele o desconforto é maior. E por aí vai. O cidadão comum vive para financiar seu próprio prazer. O fim de ano com a família na praia, o churrasquinho no Domingo, carro do ano, quem sabe uma casa com piscina…
O hedonista pode até se educar para se tornar uma pessoa mais disciplinada, mas eu acredito que no vetor da evolução pessoal, a tendência seja a pessoa ir abandonando esse tipo de mentalidade. Percebo que é comum em pessoas altamente bem sucedidas, principalmente em áreas que exigem total domínio da disciplina como as artes ou os esportes, um predomínio menor do hedonismo e em seu lugar, um senso de propósito. O pianista virtuoso não estuda arduamente por horas a fio “de saco cheio” porque ele precisa daquilo para tocar bem e receber aplausos. Ele se dedica porque aquela arte faz parte de sua identidade e é seu propósito.
Também não é o caso de procurar prazer nas atividades que outrora seriam maçantes, pois aí também o foco continua no hedonismo, mas simplesmente deixar de precisar tanto de prazer e estar disposto a fazer o que for preciso para viver uma vida com propósito. Não digo que seja necessário se tornar uma pessoa apática que não vê prazer em nada, mas é importante precisar menos de “sensações”. Quanto mais mimados são os seus cinco sentidos, mais difícil será evitar distrações e se focar no que quer que seja. Quando lutamos contra as vontades do próprio corpo, geralmente ele vence, seja dormir até mais tarde, comer além da conta ou simplesmente não prestar atenção em algo importante, porém “chato”.
Essa mudança, contudo, parece ser a coisa mais difícil para um cidadão moderno que cresceu aprendendo que a finalidade da vida é sentir prazer e tudo o que se faz tem o fim de propiciar meios de agradar os sentidos. Até mesmo o amor é hedonista, os entes queridos “servem” para propiciar sensações de alegria e felicidade.
O contraponto do hedonismo parece ser o pragmatismo. A pessoa pragmática não deixa de sentir prazer, mas ela não o valoriza como o próprio sentido da vida. Para ela, o esforço, seja estudo, dedicação, trabalho, é visto como o caminho necessário para se chegar a um fim. Mas é aí que mora a diferença: enquanto o fim para o hedonista é obtenção de prazer físico ou psicológico – a elusiva “felicidade” – o pragmatista não vê lógica em tal mentalidade. O fim é um objetivo, algo que faz sentido, não a obtenção de uma “sensação”. Por não estar buscando prazer, ele não enxerga o caminho como um estorvo, sendo assim, se torna muito mais resistente às tentações oferecidas pelas distrações. Tem que fazer? Ele faz. Sem reclamar, sem achar que está sendo chato, difícil, penoso. Ele simplesmente faz o que precisa ser feito para que atinja seu objetivo. Na hora de descontrair, ele sente prazer, o objetivo daquele momento é curtir. Na hora de se dedicar, ele se dedica, sem ver aquilo como algo que está lhe roubando uma oportunidade de aproveitar a vida.
Eu vejo que essa mudança de mentalidade é muito mais poderosa do que qualquer dica ou técnica para administrar melhor o tempo quando o assunto é evitar distrações. O pulo do gato é ser capaz de dominar a própria vontade, deixando de desejar somente o que é gostoso e passando a conseguir se dedicar a algo complexo sem deixar com que as emoções lutem contra o esforço e a atenção.
FONTE: http://www.excellencestudio.com.br/pragmatismo/como-manter-o-foco-em-um-mundo-cheio-de-distracoes.htm

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