terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sobre a coragem

Nas brincadeiras de crianças, não é exatamente a competitividade que está em jogo, mas sim a "coragem", ou seja, a ideia de que, quem chega por último é fraco, perde. Pois não há nenhum prêmio para quem pula o muro e chega primeiro; não há nenhum prêmio - combinado de antemão - para aqueles que sobem até o último galho da mangueira. 

O que se ganha então chegando primeiro ao pular o muro e subindo a mangueira? 

Só ganha, porque há um perdedor lá atrás, entendeu a lógica? 
Qual é o prêmio? O "prêmio" é na verdade fornecido pelo contraste entre vencedor e perdedor. 

Nesse sentido, o que faz você ganhar? O que é que você ganha? Você ganha porque outro "perdeu" - chegou em último lugar. 

Ele não ganha nada. Ganha somente porque outro perde. Imagine que há 10 moleques e 9 se recusam a pular o muro? O primeiro, o metidão a corajoso que havia proposto a brincadeira não seria humilhado e tido como bobo e louco? É claro que ele se sentiria assim, pois é como se os outros 9 estivessem dizendo "Vai lá você seu bobo, nós não estamos ganhando nada para pular o muro e sequer estamos com vontade de fazer isso". Quer dizer, o único perdedor seria ele! 

E além do mais, não haveria ninguém para aplaudir a "coragem" dele. Esse é outro aspecto. 

Então, há um "ato de coragem", quando há alguém para aplaudir esse ato, para dizer "Nossa, você é demais, desafiou a todos". 

Mas e se ninguém aplaude? Existe alguma coragem?

Com quem as crianças aprenderam as brincadeiras que elas fazem e a lógica das mesmas? 

Então, "pular muros para chegar primeiro" e "subir até o último galho da mangueira" resume a finalidade e a lógica da vida humana.


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