sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Mas para quê me comparar com uma flor?



Mas para quê me comparar com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma; olhemos

Deixemos analogias, metáforas, símiles
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é
Separa-a de todas as outras o abismo de ser ela
( e as outras não serem ela)
Tudo é nada sem outra coisa que não é

O quê? Valho mais que uma flor

Porque ela não sabe que tem cor e eu sei
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?

Mas o que tem uma coisa com a outra

Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim, tenho consciência da planta e ela não a tem de mim
Mas se a forma de ter consciência é ter consciência, que há nisso?

A planta se falasse, podia dizer-me: e o teu perfume?

Podia dizer-me: tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana

E eu não tenho consciência porque sou flor, não sou homem.

Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...


Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) 




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente esse texto