quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Eu ou Ego




O EU

A palavra eu foi definida diferentemente por diversas religiões e filosofias do passado até nossos dias. O bön/budhismo insiste muito na doutrina do não-eu, ou vacuidade (shunyata), que é a verdade última de todos os fenômenos. Se não compreendermos a vacuidade, será difícil cortar a raiz do eu egoísta e libertar-nos dos seus limites.

Porém, nossas leituras sobre o tema da caminhada espiritual nos informam também sobre a auto-liberação
e a auto-realização do eu. Parecemos certamente ter um eu. Precisamos argumentar bastante para convencer alguém que não possuímos um eu, se nossa vida é ameaçada ou qualquer coisa nos é tomada, o eu do qual proclamamos a inexistência pode ficar verdadeiramente apavorado ou transtornado.
Para o bön/budhismo, o eu convencional existe verdadeiramente. Senão, não haveria alguém para criar
carma, para sofrer e para encontrar a liberação. É o eu inerentemente existente que não tem existência. A
ausência do eu inerente significa que não existe uma entidade central distinta e imutável. Embora a natureza
da mente não mude, ela não deve ser confundida com uma entidade distinta, um ego, uma pequena parcela de consciência indestrutível que seria o eu . A natureza da mente não é uma possessão individual, não é um
indivíduo. É a natureza da sensação em si mesma; ela é a mesma para todos os seres dotados de sensibilidade.

Retomemos o exemplo do reflexo no espelho. Se observarmos os reflexos, podemos dizer que existe tal
reflexo, depois outro, mostrando dois reflexos diferentes. Eles aumentam e diminuem, vão e vem, e podemos
segui-los no espelho como se tratassem de entidades independentes. Eles são como a imagens do eu
convencional. Os reflexos não são entidades distintas, eles são um jogo de luz, de ilusões despidas de
substância na luminosidade vazia do espelho. Eles não têm existências independentes exceto se os
concebermos como tais. Os reflexos são manifestações da natureza do espelho, como o eu convencional é uma manifestação que nasce da limpidez vazia da base da existência, kunshi, na qual reside e nela se dissolve
novamente.

O eu convencional com o qual nos identificamos habitualmente e a mente em movimento que lhe dá
nascimento são ambos fluidos, dinâmicos, provisórios, despidos de substância, mutáveis, impermanentes e desprovidos de existência própria, como o reflexo no espelho. Podemos constatar isso em nossas vidas, se as examinarmos. Imaginem que preenchemos formulários dando informações nossas. Anotaríamos nosso nome, sexo, idade, endereço, atividade profissional, relações, descrição física. Faríamos testes que descreveriam nossa personalidade e nosso cotidiano intelectual. Escreveríamos nossos objetivos, sonhos, crenças, pensamentos, valores, e medos.

Suponhamos agora que anotamos tudo isso. O que é que faltou? Acrescentemos mais ainda nossos
amigos, a casa, nosso país e tudo o que possuímos. Se perdermos o uso da linguagem para falar ou pensar? Se perdermos nossas lembranças? Se perdermos nossos sentidos? Onde estará nosso eu? Esse é o nosso corpo?
Quem é ele se perdermos braços e pernas, vivermos com um coração artificial e um aparelho respiratório,
sofrermos lesões e perdermos nossas funções cerebrais? Em que momento cessará de ser um eu? Mesmo se continuarmos a nos despojar das camadas de identidades e os atributos sucessivos, de certo ponto de vista nada é perdido.

Não somos aqueles que éramos há um ano, ou dez anos. Não somos nem mesmo aqueles que éramos há
uma hora. Não existe nada que não mude. No momento da morte, os últimos restos daquilo que parece um eu imutável desaparecem. Poderemos renascer como um ser completamente diferente, com um corpo diferente, um gênero diferente, uma capacidade mental diferente. Isso não significa que não somos um indivíduo somos um, é evidente mas isso não quer dizer que algum indivíduo tenha existência inerente, independente. O eu convencional é radicalmente contingente. Como a maré dos pensamentos que se eleva sem fim na claridade da mente, ou as imagens que surgem indefinidamente no espelho, ele é uma sucessão de produções instantâneas.

Os pensamentos existem enquanto tais, mas quando os examinamos durante a meditação, eles se dissolvem
na vacuidade da qual surgiram. É semelhante com o eu convencional: seu exame aprofundado revela que ele
não é senão uma denominação atribuída a um conjunto vagamente definido de eventos mudando
constantemente. Nossas identidades provisórias mudam como os pensamentos que não cessam de surgir.
Identificarmo-nos falsamente com um eu convencional e prendermo-nos a um sujeito cercado de objetos
fundamenta a visão dualista e forma a dicotomia fundamental na qual repousa o sofrimento sem fim do
samsara.

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