sexta-feira, 5 de abril de 2013

"Dos Virtuosos"



Dos Virtuosos

 “É com grande reforço de trovões e de celestes pirotécnicas que é preciso falar aos sentidos sonolentos e adormecidos.

Mas a beleza fala em voz baixa; ela só penetra nas almas mais despertas.


Meu arco tremeu mansamente, e me sorriu: era o riso sarado, o estremecimento sagrado da beleza. 

E de vós, homens virtuosos, que ria hoje a minha beleza. E ouço sua voz dizer-me: ‘Eles querem ser bem pagos!’


Quereis ser bem pagos, homens virtuosos! Quereis uma recompensa para a vossa virtude, e o céu em troca da terra, a eternidade em troca do dia presente!  

E contudo me exprobais por ensinar que não há um celeste distribuidor de recompensas e retribuições? E, na verdade, ensino que nem a virtude é para si mesma a própria recompensa.


Ah! É a minha dor; desde o âmago das coisas penetrou a mentira da recompensa e do castigo, e até o fundo de vossas almas também, ó virtuosos.  

Mas a minha palavra, igual ao focinho do javali, voltará ao solo de vossas almas; eu quero ser para vós como a charrua.

Será preciso esclarecer todos os mistérios de vossas almas; e só quando as tiverdes revolvido até o fundo e exibido à luz do sol, que vossa mentira poderá ser separada de vossa verdade.  

Pois eis aqui a vossa verdade: vós sois demasiadamente limpos para o pântano destas palavras: vingança, castigo, recompensa, retribuição.

Vós amais a vossa virtude como a mãe ama o filho; ouvimos alguma vez dizer que a mãe queria ser paga de sua ternura?

Nada vos é mais caro que a vossa virtude; vós aspirais ao círculo das metamorfoses; todo ciclo rola e se enrola sobre si para voltar finalmente a si.

E tudo isso que realiza vossa virtude é semelhante a uma estrela já extinta, cuja luz ainda está a caminho, e em migração. Até quando viajará ela ainda?

Da mesma forma, a luz de vossa virtude se propaga ainda depois que o ato esteja realizado. Se a obra for esquecida e morta, seu raio luminoso continuará a viver e a percorrer o espaço.

Que seja o vosso próprio Eu a vossa virtude, e não um corpo estranho, uma epiderme, uma vestimenta! Que seja a verdade profunda de vossas almas, ó virtuosos!

Mas há outros, é verdade, para quem a virtude consiste em torcer-se sob golpes, e não devereis dar ouvidos aos seus urros.

E há ainda outros que chama virtude a preguiça de seus vícios; e logo que a sua inveja e seu ódio se preparam para o sono, sua ‘justiça’ se reanima e esfrega os olhos sonolentos.

E há ainda outros que são arrastados para o abismo: é o seu demônio que os levará até lá. Mas, por mais que nele penetrem, mais brilham os olhos, mais ardentemente aspiram a seu Deus.

Ah! O grito daqueles também chegou aos vossos ouvidos, ó virtuosos! ‘Tudo o que eu não sou, eu chamo Deus e virtude’.

E ainda há outros que caminham pesadamente, ringindo como carretas que descem num terreno pedregoso; têm sempre na boca palavras de dignidade e de virtude; o que eles chamam virtude é a trave que lhes serve de freio.

E há ainda outros que são semelhantes a simples relógios bem construídos; eles fazem ouvir seu tique-taque, e pedem chamem de virtude a esse tique-taque.
 
Na verdade, aqueles me agradam; onde encontro desses relógios, eu os instigo com minha zombaria, e espero que eles aumentem o ramerrão.

E outros são orgulhosos de sua parcela de justiça, e cometem, sob seu nome, todos os abusos, embora seja o mundo submergido sob sua injustiça. 

Ah, como a palavra virtude soa mal em suas bocas! E quando dizem: ‘Eu sou justo’, crê-se ouvir dizer: ‘Eu estou vingado’.

Eles quereriam que sua virtude furassem os olhos aos inimigos: eles não se elevam senão para abaixar os outros.

E ainda há outros que se chafurdam em seu charco, e que do meio dos caniços se fazem ouvir, dizendo: ‘A virtude consiste em chafurdar aprazivelmente no charco’.


‘Não mordemos ninguém, evitamos os que querem morder, e em tudo partilhamos o aviso que nos dão’.  

E ainda há outros gostam dos gestos e pensam: ‘A virtude é apenas um gesto’.

Seus joelhos estão sempre dobrados, mãos juntas para o louvor da virtude, mas o coração não a conhece.

E há ainda outros que pensam que para ser virtuosos basta dizer: ‘A virtude é necessária’. Mas, no fundo, só crêem na necessidade da polícia.

E alguns, impotentes para discernir a grandeza do homem, declaram que a virtude se reduz a perceber de perto as baixezas; sua malevolência, eis o que chamam virtude.

E alguns desejam ser edificados e reeducados; é o que chamam sua virtude. E outros pedem para ser resolvidos; é o que chamam sua virtude.

Assim, quase todos pensam participar da virtude, ou ao menos crêem ser conhecedores em matéria de bem e de mal.

Mas Zaratustra não veio para dizer a todos esses mentirosos e a esses loucos: ‘Que sabeis da virtude? Que podereis saber da virtude?’

Ele veio para que vós, meus amigos, vos desgosteis das velhas fórmulas que haveis aprendido dos mentirosos e dos loucos; para vós vos canseis de palavras como ‘recompensa’, de ‘retribuição’, de ‘castigo’, e de ‘justa vingança’; para que vós vos canseis de dizer: ‘Uma ação é boa quando ela é desinteressada’.

Ah meus amigos, quando vos puserdes integralmente em vosso ato, como a mãe se põe totalmente em seu filho, eu direi que essa é a melhor definição de virtude.

Na verdade, eu vos chamo por centenas de palavras e também os brinquedos favoritos de vossa virtude; e eis que vos zangais contra mim como crianças zangadas?

Elas brincam à beira-mar, e vem a vaga e leva os seus brinquedos: e agora elas choram.

Mas a mesma vaga lhes trará novos brinquedos e espalhará a seus pés novas conchas de variadas cores; elas se consolarão e, como elas, vós tereis também, meus amigos, consolações, e novas conchas de variadas cores”.


Assim falava Zaratustra.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente esse texto