terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Como sair da Roda do Samsara...




Excerto do Cap. III do livro Advaita Bodha Deepika, recém publicado



Embora sendo Pura Sabedoria Imutável por natureza, o Supremo Ser, quando associado à mente que muda conforme as qualidades operantes no momento, identifica-se com ela.
 
D: Como isso pode ocorrer?
 
M: Você vê como a água, em si, é fria e insípida. No entanto, por associação, pode ser quente, doce, amarga, azeda, etc. Da mesma forma, o Eu Real, que por natureza é Ser-Consciência-Beatitude, aparece como ego quando associado ao modo-“eu”. Assim como a água fria associada ao calor fica quente, também o Bem-aventurado Ser, unido ao modo-“eu”, torna-se o ego carregado de sofrimentos. Assim como a água, originalmente insípida, fica doce, amarga ou azeda conforme as suas associações, também o Ser de Pura Sabedoria parece imparcial, pacífico e bondoso [sattva] ou impetuoso, raivoso e ambicioso [rajas], ou ainda torpe e indolente [tamas], segundo a qualidade do modo-“isto” no momento.
A escritura diz que o Ser, associado ao prana, etc., aparece respectivamente como prana, mente, intelecto, terra e outros elementos, desejo, raiva, desapaixonamento, etc. Consequentemente, associado à mente, o Ser parece ter-se transformado na alma individual, afundado no sofrimento do infindável samsara, e sendo enganado por inúmeras ilusões, como eu, tu, isto, meu, teu, etc.
D: Agora que o samsara chegou ao Ser, como se pode afastá-lo?
 
M: Com a total quietude mental, o samsara desaparecerá, causa e efeito. Do contrário, não haverá fim para o samsara, mesmo em milhões de éons.
 
D: Não será possível livrar-se do samsara por algum outro meio além da aquietação da mente?
 
M: Absolutamente não; nem os Vedas, nem os shastras [comentários], nem as práticas austeras, nem o karma, nem votos, nem dons, nem o recitar de escrituras de fórmulas místicas (mantras), nem cultos, nem qualquer outra coisa pode desfazer o samsara. Somente a aquietação da mente pode atingir este fim, e nada mais.
 
D: As escrituras declaram que só a Sabedoria pode conseguir isso. Então, como o senhor diz que a tranquilidade mental põe fim ao samsara?
 
M: O que é descrito nas escrituras de diversas formas como Sabedoria, Libertação, etc., nada mais é do que o silenciar da mente.
 
D: Alguma outra pessoa já disse isto antes?
 
M: Sri Vasishta disse: Quando, pela prática, a mente fica imóvel, todas as ilusões do samsara desaparecem, causa e efeito. Assim como quando o oceano de leite encrespado foi batido para obter o néctar e tornou-se calmo e límpido depois que o batedor foi retirado (a saber: monte Mandara), também ocorre que, ao silenciar a mente, o samsara cai em descanso eterno.
 
D: Como levar a mente ao silêncio?
 
M: Pelo desapaixonamento e pelo abandono de tudo que nos é caro, pode-se, por esforço próprio, realizar facilmente essa tarefa. Sem essa paz mental, a Libertação é impossível. Apenas quando todo o mundo objetivo é extinto pela mente desiludida, em consequência do conhecimento que discerne que tudo que não é Brahman é objetivo e irreal, é que resultará a Suprema Beatitude. Do contrário, se não há paz mental, por mais que um homem ignorante se esforce e se arraste pelo abismo profundo dos textos espirituais (shastras), não conseguirá obter a Libertação.
 
Só pode ser considerada morta a mente que, pela prática do yoga, perdeu todas as suas tendências e tornou-se pura e imóvel como uma lâmpada bem protegida do vento por uma redoma. Essa morte da mente é a realização mais elevada. A conclusão final de todos os Vedas é que a Libertação nada mais é do que a mente silenciada.
 
Para a Libertação apenas uma mente silenciosa tem valor; riqueza, parentes, amigos, karma resultante de movimentos dos membros, peregrinação a lugares santos, banhar-se em águas sagradas, vida em regiões celestiais, práticas austeras, por mais severas que sejam, ou qualquer outra coisa – nada disso serve. Da mesma forma, muitos livros sagrados ensinam que a Libertação consiste em abandonar a mente. Em várias passagens do Yoga Vasishta a mesma ideia se repete, de que a Bem-aventurança da Libertação só pode ser alcançada pela extinção da mente, que é a causa principal do samsara e, portanto, de todo sofrimento.
 
Assim, matar a mente pelo conhecimento dos ensinamentos sagrados, pelo raciocínio e pela experiência pessoal é desfazer o samsara. De que outra maneira pode ser parada a miserável roda de nascimentos e mortes? E como pode a liberdade resultar disso? Nunca. A não ser que o sonhador desperte, o sonho não termina, como não acaba o pavor de estar diante de um tigre, no sonho. Igualmente, se a mente não estiver desiludida, a agonia do samsara não cessará. A única coisa é que a mente precisa ser silenciada. Esta é a realização da vida.
 
 
 

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