sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Os Invólucros do Atman - Prática da Filosofia Advaita-vedanta


 
 
 
 

1- O Invólucro físico (o corpo)



Este corpo é um "invólucro físico". O alimento possibilita o seu nascimento; com alimento ele vive; sem alimento, ele morre. Esse corpo consiste em epiderme, pele, carne, sangue, ossos e água. Não pode ser o Atman, o eternamente puro, o que existe por si só.

Ele não existia antes do nascimento e não existirá depois da morte. Existe apenas por um breve lapso de

tempo, no intervalo entre ambos. Sua natureza é transitória e sujeita a mudança. Ele é um composto, e não

um elemento. Sua vitalidade é um simples reflexo. É um objeto sensorial, que pode ser percebido como um

jarro. Como há de ser ele o Atman, o experimentador de todas as experiências?

O corpo consiste em braços, pernas e outros membros. Ele não é o Atman - pois quando um desses

membros é amputado, o homem pode continuar vivendo e funcionando por meio de órgãos remanescentes.

O corpo é controlado por outrem. Não pode ser o Atman, o controlador.

O Atman observa o corpo, com suas variadas características, ações e estágios de desenvolvimento. Que

esse Atman, que é a realidade permanente, tem uma natureza distinta da do corpo é um fato que se

evidencia por si mesmo.

O corpo é um feixe de ossos ligados pela carne. É sujo e cheio de imundícies. O corpo nunca pode ser

identificado com o Atman, o conhecedor, o que existe por si só. A natureza do Atman é absolutamente

distinta da do corpo.

Só o homem ignorante se identifica com o corpo, que é um composto de pele, carne, gordura, ossos e

imundícies. O homem que possui o discernimento espiritual sabe que o Atman, seu verdadeiro ser, a única

realidade suprema, é diferente do corpo.

O tolo pensa: "Eu sou o corpo.- O homem inteligente pensa: Eu sou uma alma individual unida ao corpo."

Mas o sábio, na grandeza do seu conhecimento e discernimento espiritual, vê o Atman como a realidade e

pensa: "Eu sou o Brahman."

Ó tolos, parai de identificar-vos com essa massa de pele, carne, gordura, ossos e imundícies. Identificai-vos

com Brahman, o Absoluto, o Atman imanente a todos os seres. Só assim podereis atingir a paz suprema.

O homem inteligente pode ser versado no Vedanta e nas leis morais. Mas não tem a mínima possibilidade

de libertar-se enquanto não deixar de se identificar com o corpo e os órgãos sensoriais. Essa identificação é

produzida pela ilusão.

Nunca vos identificais com a sombra projetada pelo vosso corpo, nem com o seu reflexo, nem com o corpo

que vedes num sonho ou em vossa imaginação. Por isso não deveis identificar-vos com esse corpo vivo.

Aqueles que vivem na ignorância identificam o corpo com o Atman. Essa ignorância é a causa e a origem

do nascimento, da morte e do renascimento. Por isso deveis empenhar-vos diligentemente para destruí-la.

Quando vosso coração estiver livre dessa ignorância, já não haverá nenhuma possibilidade de

renascimento. Tereis alcançado a imortalidade.
2- O Invólucro vital

O invólucro do Atman chamado de "invólucro vital" é composto pela força vital e pelos cinco órgãos da

ação. O corpo é chamado "invólucro físico" e começa a existir quando é recoberto pelo invólucro vital. É

assim que o corpo se envolve na ação.



Esse invólucro vital não é o Atman - pois que se compõe meramente dos ares vitais. Semelhante ao ar, ele




entra e sai do corpo. Não sabe o que é bom ou ruim para si mesmo ou para os outros. É sempre

dependente do Atman.






3- O Invólucro mental






A mente, ao lado dos órgãos da percepção, forma o "invólucro mental". É ela que produz a consciência do

eu e do "meu". É ela, também, que nos permite discernir os objetos. É dotada do poder e da faculdade de

diferenciar os objetos nomeando-os. É manifesta, envolvendo o "invólucro vital".

O invólucro mental pode ser comparado ao fogo sacrificial. É alimentado pelo combustível de muitos

desejos. Os cinco órgãos da percepção atuam como sacerdotes. Os objetos do desejo se derramam sobre

ele como um fluxo continuo de oblações. É assim que este universo fenomenal começa a existir.

A ignorância não está em parte alguma a não ser na mente. A mente está repleta de ignorância, e esta

produz a servidão do nascimento e da morte. Quando, no conhecimento do Atman, o homem transcende a

mente, o universo fenomenal desaparece de sua consciência. Quando o homem vive no domínio da

ignorância mental, o universo fenomenal existe para ele.

No sonho, a mente está desprovida do universo objetivo, mas cria por seu próprio poder um universo

completo de sujeito e objeto. O estado de vigília não passa de um sonho prolongado. O universo fenomenal

existe na mente.

No sono sem sonhos, quando a mente não está funcionando, nada existe. Esta é nossa experiência

universal. O homem parece estar submetido ao nascimento e à morte. Isso é uma criação fictícia da mente,

e não uma realidade.

O vento acumula as nuvens, e o vento torna a dispersá-las. A mente cria a servidão, e a mente também

remove a servidão.

A mente cria o apego ao corpo e às coisas deste mundo. Com isso ela amarra o homem, tal como um

animal é amarrado por uma corda. Mas é também a mente que cria no homem uma profunda repugnância

pelos objetos dos sentidos, como por um veneno. Desse modo, ela o liberta de sua servidão.

A mente, portanto, é a causa da servidão do homem e também da sua libertação. Ela produz a servidão

quando é obscurecida por rajas, mas produz a libertação quando se desembaraça de rajas e tamas e se

purifica.

Quando se pratica o discernimento e a impassibilidade, com exclusão de tudo o mais, a mente se purifica e

caminha para a libertação. Assim, o homem sábio que busca a libertação deve desenvolver essas duas

qualidades em seu íntimo.

O terrível tigre chamado "mente impura" ronda a floresta dos objetos dos sentidos. O homem sábio que

busca a libertação não deve ir lá.

A mente do experimentador cria todos os objetos que ele experimenta no estado de vigília ou de sonho.

Incessantemente, ela cria diferenças nos corpos, na cor, na condição social e na raça dos homens. Cria as

variações dos gunas. Cria desejos, ações e os frutos das ações.

O homem é puro espírito, livre de qualquer apego. A mente o ilude. Acorrenta-o com os grilhões do corpo,

dos órgãos sensoriais e da respiração vital. Cria nele a consciência do "eu" e do "meu" . Faz com que

perambule, interminavelmente, entre os frutos das ações que ele produziu.

O erro de identificar Atman com não-Atman é a causa da roda do nascimento, morte e renascimento do

homem. Essa falsa identificação é produzida pela mente. Portanto, é a mente que causa a miséria da roda

do nascimento, morte e renascimento para o homem desprovido de discernimento e maculado por rajas e

tamas.



Por isso o sábio, que conhece a Realidade, declarou estar a mente repleta de ignorância. Devido a essa




ignorância, todas as criaturas do universo são irremediavelmente impelidas de lá para cá, como nuvens

fustigadas pelo vento.

Por isso, aquele que busca a libertação deve trabalhar arduamente para purificar a mente. Quando a mente

se purificou, a libertação é tão fácil de colher quanto o fruto que jaz a um palmo da nossa mão.

Procura sinceramente a libertação, e tua cobiça dos objetos sensoriais será arrancada pela raiz. Pratica o

desapego em relação a todas as ações. Crê na Realidade. Devota-te à prática das disciplinas espirituais,

tais como ouvir a palavra de Brahman, refletir e meditar sobre ela. Desse modo a mente se libertará do mal

de rajas.

O "invólucro mental não pode, pois, ser o Atman. Ele tem princípio e fim, e está sujeito à mudança. É a

morada da dor. É um objeto da experiência. Aquele que vê não pode ser a coisa que é vista.







4- O invólucro do intelecto







A faculdade do discernimento com seus poderes de inteligência, junto com os órgãos da percepção, é

conhecida como o "invólucro do intelecto" . Sua qualidade característica é a de ser o agente da ação. É ele

que causa o nascimento, a morte e o renascimento do homem.

O poder de inteligência inerente ao "invólucro do intelecto" é um reflexo do Atman, a pura consciência. O

"invólucro do intelecto" é um efeito de Maya. Ele possui a faculdade de conhecer e de agir e identifica-se

inteiramente com o corpo, os órgãos sensoriais, etc.

Não tem começo, caracteriza-se pela sua consciência do ego e constitui o homem individual. É o indicador

de todas as ações e empreendimentos. Impelido pelas tendências e impressões formadas em nascimentos

anteriores, ele pratica ações virtuosas ou pecaminosas e sofre suas conseqüências.

O "invólucro do intelecto" acumula experiências passando por muitos ventres de grau superior ou inferior.

Pertencem-lhe os estados de vigília e de sonho. É objeto de dores e alegrias.

Devido à sua consciência do "eu" e do "meu", ele se identifica constantemente com o corpo e os estados

físicos, assim como com os deveres inerentes aos diferentes estágios e ordens da vida. Esse "invólucro do

intelecto" brilha com luz intensa devido à sua proximidade do Atman resplandecente. É urna roupagem do

Atman, mas o homem se identifica com ele e vagueia ao redor do círculo de nascimento, morte e

renascimento devido à sua ilusão.

O Atman, que é pura consciência, é a luz que brilha no santuário do coração, o centro de toda força vital. É

imutável, mas torna-se o ator e o experimentador quando é erroneamente identificado com o "invólucro do

intelecto".

O Atman assume as limitações do "invólucro do intelecto" porque é erroneamente identificado com esse

invólucro, que dele se distingue por completo. Esse homem, que é o Atman, considera-se separado dele e

de Brahman, que é o único Atman de todas as criaturas. Do mesmo modo, o homem ignorante pode

considerar um jarro como algo diferente da argila de que este é feito.

Pela sua natureza, o Atman é eternamente imutável e perfeito, mas assume o caráter e a natureza de seus

invólucros por ser erroneamente identificado com eles. Embora desprovido de forma, o fogo assumirá a

forma do ferro incandescente.






Ilusão







O Discípulo:



Ou por causa da ilusão, ou por alguma outra razão, o Atman parece ser o eu individual. Essa errônea




identificação não tem começo; e o que não tem começo também não pode ter fim.



Portanto, esse equívoco sobre a identidade da alma individual deve ser eterno, e sua perambulação através




da roda do nascimento, morte e renascimento há de continuar por todo o sempre. Como, pois, pode haver

libertação? Mestre, tende a bondade de explicar-me isso.






O Mestre



Tua pergunta é oportuna, ó homem prudente. Ouve-me com atenção. Uma coisa que foi produzida pela




ilusão e só existe na tua imaginação jamais poderá ser aceita como um fato.

Pela sua natureza, o Atman é eternamente livre, sem forma e está além de qualquer ação. Sua identidade

com os objetos é imaginária, irreal. Dizemos o céu é azul , mas o céu tem alguma cor?

O Atman é a testemunha, está além de qualquer atributo, de qualquer ação. Pode ser diretamente

percebido como pura consciência e infinita bem-aventurança. Sua aparência de alma individual decorre da

ilusão de nosso entendimento e carece de realidade. Por sua própria natureza, essa aparência é irreal.

Quando nossa ilusão é removida, ela deixa de existir.

Sua aparência de alma individual só dura enquanto dura a nossa ilusão, uma vez que esse equívoco resulta

de uma ilusão do nosso entendimento. Enquanto perdurar a ilusão, a corda parecerá ser uma cobra. Finda

a ilusão, a cobra deixa de existir.

É fato que a ignorância e seus efeitos existem desde sempre. Mas a ignorância, embora não tenha tido

princípio, chega ao fim com o despontar do conhecimento. Ela é completamente destruída, com suas raízes

e tudo o mais, tal como os sonhos, que se desvanecem por inteiro ao acordarmos. Quando uma coisa que

antes não existia começa a existir, isso implica que ela era inexistente desde sempre. Mas essa

inexistência, embora não tenha tido princípio, cessa assim que tal coisa começa a existir. Fica claro, pois,

que a ignorância, embora não tenha tido princípio, não é eterna.

Vemos que um estado anterior de não-existência pode chegar ao fim, muito embora não tenha princípio. O

mesmo sucede com a aparência de um eu individual. Essa aparência se deve a uma falsa identificação do

Atman com o intelecto e os demais invólucros. O Atman, por sua própria natureza, é essencialmente distinto

e separado deles. A identificação do Atman com o intelecto, etc., é causada pela ignorância.

Essa falsa identificação só pode ser dissipada pelo perfeito conhecimento. O perfeito conhecimento,

segundo as escrituras reveladas, é a compreensão do Atman como uno com Brahman.

Ela é alcançada por meio de um absoluto discernimento entre o Atman e o não-Atman. Por isso deve o

homem praticar o discernimento entre o Atman e o eu individual.

Assim como uma água barrenta reluz cristalinamente quando o barro é removido, assim o Atman reluz com

puro brilho quando se lhe removem as impurezas.

Quando as trevas da irrealidade se desvanecem, o eterno Atman é claramente revelado. Por isso o homem

deve empenhar-se em libertar o Atman das irrealidades do egotismo e da ilusão.

O invólucro do intelecto, que estivemos discutindo, não pode ser o Atman pelas seguintes razões: ele está

sujeito a mudanças; a inteligência não é sua natureza inerente; ele é finito; é um objeto da experiência; é

transitório. O não-eterno não pode, pois, ser o eterno Atman.
 

5- O invólucro da bem-aventurança







O "invólucro da bem-aventurança" (A idéia do ego no homem) é o invólucro do Atman que recebe um reflexo do próprio Atman bem-aventurado.




No entanto, esse invólucro é uma criação da nossa ignorância. Sua natureza consiste nos

vários graus de felicidade que são experienciados quando um objeto desejado é conquistado. Sua natureza

bem-aventurada é sentida espontaneamente pelos homens retos quando eles colhem os frutos de suas

boas ações. Ele expressa a alegria que todos os seres vivos podem experimentar sem fazer esforço algum

nesse sentido.

O "invólucro da bem-aventurança" nos é plenamente revelado no estado de sono profundo. É parcialmente

revelado nos estados de vigília e de sonho, quando um objeto desejável está sendo desfrutado.

Esse "invólucro da bem-aventurança" não pode ser o Atman pelas seguintes razões: ele tem limitações; é

um efeito de Maya; sua natureza aprazível é sentida como o resultado de boas ações; ele é do mesmo tipo

dos demais invólucros, que são produtos de Maya.

Se refletirmos e meditarmos sobre a verdade das escrituras, transcendendo todos os cinco invólucros da

ignorância, compreenderemos a Existência fundamental - que é o Atman, a testemunha, a consciência

infinita.

O Atman brilha por si mesmo, é distinto dos cinco invólucros. É a testemunha dos três estados de

consciência. Ele é existência, imutável, puro, eternamente bem-aventurado. Deve ser compreendido pelo
homem de discernimento como o Atman que habita em seu íntimo.



Atman é Brahman
O Discípulo:
Mestre, se rejeitarmos esses cinco invólucros corno irreais, parece-me que nada más resta senão o vazio.
Como, então, pode haver uma existência que o sábio pode compreender como sendo una com o seu
Atman?
O Mestre:
Eis uma boa pergunta, ó homem prudente. Teu argumento é hábil. No entanto, deve haver uma existência,
uma realidade, que perceba a consciência do ego e os invólucros e também esteja cônscia do vácuo que é
a ausência deles. Essa realidade que existe por si mesma permanece despercebida. Aguça a percepção de
que podes conhecer o Atman, que é o conhecedor.
Aquele que experimenta está cônscio de si mesmo. Sem um experimentador, não pode haver
autoconsciência.
O Atman é a sua própria testemunha, já que está cônscio de si mesmo. O Atman não é outro senão
Brahman.




O Atman é pura consciência, claramente manifesta como subjacente aos estados de vigília, de sonho e de
sono sem sonhos. É experimentada interiormente como consciência ininterrupta, a consciência de que eu
sou eu. É a imutável testemunha que experimenta o ego, o intelecto e tudo o mais, com suas várias formas
e mudanças. É compreendido no fundo do nosso coração como existência, conhecimento e bemaventurança
absolutos. Realiza esse Atman no santuário do teu próprio coração.
O tolo vê o reflexo do sol na água de um jarro e pensa que ele é o sol. Enredado na ignorância de sua
ilusão, o homem vê o reflexo da Pura Consciência nos invólucros e o confunde com o Eu verdadeiro.
Para olhar o sol, deves afastar-te do jarro, da água e dos reflexos do sol na água. O sábio sabe que estes
só são revelados pelo reflexo do sol, que brilha por si mesmo. Não são o próprio sol.




O corpo, o invólucro do intelecto, o reflexo da consciência sobre ele - nada disso é o Atman. O Atman é a
testemunha, a consciência infinita, o revelador de todas as coisas, mas difere de todas elas, quer sejam
grosseiras ou sutis. É a realidade eterna, onipresente, que a tudo permeia, a mais sutil das sutilezas. Não
tem interior nem exterior. É o Eu verdadeiro, oculto no santuário do coração. Compreende plenamente a
verdade do Atman. Sê livre do mal e da impureza, e passarás além da morte.
Conhece o Atman, transcende os infortúnios e atinge a fonte da alegria. Sê iluminado por esse
conhecimento, e nada terás a temer. Se queres encontrar a libertação, não há outro meio de romper os
grilhões do renascimento.
O que pode destruir a servidão e a miséria deste mundo? O conhecimento de que o Atman é Brahman. É
então que compreendes Aquele que é o um sem um segundo, a suprema bem-aventurança.
Compreende Brahman e não haverá mais retomo a este mundo - a morada de todos os infortúnios. Deves
compreender absolutamente que o Atman é Brahman.
Então alcançarás Brahman para sempre. Ele é a verdade. É existência e conhecimento. É absoluto. É puro
e existe por si mesmo. É alegria eterna, alegria sem fim. Não é outro senão o Atman.
O Atman é uno com Brahman: tal é a verdade suprema. SÓ Brahman é real. Nada existe senão Ele.
Quando O conhecemos como a realidade suprema, não há outra existência senão Brahman.
O universo
Brahman é a realidade - a existência única, absolutamente independente do pensamento ou da idéia
humana. Devido à ignorância de nossa mente humana, o universo parece compor-se de diversas formas.
Ele é unicamente Brahman.
Um jarro feito de argila nada mais é do que argila. É essencialmente argila. A forma do jarro não tem
existência própria. Que é, pois, o jarro? Mero nome inventado!
A forma do jarro nunca poderá ser percebida separada da argila. Que é, então, o jarro? Uma aparência! A
realidade é a própria argila.
Este universo é um efeito de Brahman. Nunca será outra coisa senão Brahman. Separado de Brahman, ele
não existe. Fora d'Ele nada existe. Quem diz que este universo tem uma existência independente continua
sendo vítima da ilusão. É como um homem que fala durante o sono.
O universo é Brahman - assim diz o grande vidente do Atharva Veda. O universo, pois, nada mais é do
que Brahman. Sobrepõe-se a Ele. Não tem existência própria, fora da sua base.
Se o universo, tal como o percebemos, fosse real, o conhecimento de Atman. não poria termo à nossa
ilusão. As escrituras seriam falsas. As revelações das Encarnações Divinas não teriam sentido. Essas
alternativas não podem ser consideradas nem desejáveis nem benéficas por nenhum indivíduo pensante.
Sri Krishna, o Senhor Encarnado, que conhece o segredo de todas as verdades, diz no Gita: Embora eu
não esteja em nenhuma criatura, todas as criaturas existem em mim. Não quero dizer que elas existam em
mim fisicamente. Esse é o meu divino mistério. Meu Ser sustenta todas as criaturas e lhes, dá existência,
mas não tem nenhum contato físico com elas.
Se este universo fosse real, continuaríamos a percebê-lo no sono profundo. Mas nada percebemos nesse
estado. Portanto ele é irreal, a exemplo de nossos sonhos.
O universo não existe fora do Atman. A percepção que temos dele como dotado de existência independente
é falsa, tal como a nossa percepção do azul no céu. Como pode um atributo sobreposto ter uma existência
qualquer, fora de seu substrato? SÓ a nossa ilusão pode produzir essa falsa concepção da realidade
subjacente.
Não importa o que o homem iludido pense estar percebendo; na verdade, ele está vendo Brahman, e nada
mais que Brahman. Ele vê uma madrepérola e imagina que está vendo prata. Vê Brahman e imagina que
Ele é o universo. Porém esse universo, que é sobreposto a Brahman, não passa de um nome.
Eu sou Brahman
Brahman é supremo. É a realidade - o um sem um segundo. É pura consciência, livre de qualquer mácula.
É a própria serenidade. Não tem começo nem fim. Não conhece mudanças. É alegria eterna.
Brahman transcende a aparência do múltiplo, criado por Maya. É eterno, perpetuamente fora do alcance da
dor; é indiviso, imensurável, sem forma, sem nome, indiferenciado, imutável. Ele brilha com a Sua própria
luz. Está em todas as coisas que podem ser conhecidas neste universo.
Os videntes iluminados O percebem como a realidade suprema, infinita, absoluta, sem partes - a pura
consciência. E n'Ele descobrem que o conhecedor, o conhecimento e a coisa conhecida se tornam unos.
Eles O conhecem como a realidade que não pode ser rejeitada (já que Ele está sempre presente na alma
humana) nem apreendida (já que ele está além do poder da mente e da palavra). Sabem que
Ele é imensurável, sem princípio, sem fim, supremo em Sua glória. Eles compreendem a verdade: Eu sou
Brahman.
Isso és Tu
As escrituras estabelecem a absoluta identidade de Atman e Brahman ao declarar repetidamente: "Isso és
Tu. Os termos Brahman e Atman , no seu verdadeiro significado, se referem respectivamente a Isso e
TU .
No seu sentido literal, superficial, Brahman e Atman têm atributos opostos, como o sol e o vaga-lume, o
rei e seu servo, o oceano e o poço, ou o monte Meru e o átomo. A identidade de ambos só é estabelecida
quando os compreendemos no seu verdadeiro significado, e não num sentido superficial.
Brahman pode referir-se a Deus, o soberano de Maya e criador do universo. O "Atman" pode referir-se à
alma individual, associada com os cinco invólucros que são efeitos de Maya. Desse ponto de vista, ele
possui atributos opostos. Mas essa aparente oposição é causada por Maya e pelos seus efeitos. Portanto,
ela não é real, mas sobreposta.
Esses atributos produzidos por Maya e seus efeitos são sobrepostos a Deus e à alma individual. Quando
são completamente eliminados, nem a alma nem Deus permanecem. Se tomarmos o reino de um rei e as
armas de um soldado, não existem nem soldado nem rei.
As escrituras repudiam qualquer idéia de uma dualidade em Brahman. Que o homem busque a iluminação
no conhecimento de Brahman, como mandam as escrituras. Então aqueles atributos, que nossa ignorância
sobrepôs a Brahman, desaparecerão.
"Brahman não é nem o universo denso nem o universo sutil. O mundo aparente é produzido pela nossa
imaginação na sua ignorância. Ele não é real. É como ver na corda a serpente. É como um sonho
passageiro- - assim o homem deve praticar o discernimento espiritual e libertar-se da consciência que tem
do mundo objetivo.
Então, que ele medite sobre a identidade de Brahman e de Atman e compreenda a verdade.
Pelo discernimento espiritual, que ele perceba o verdadeiro sentido profundo dos termos Brahman e
Atman , compreendendo assim a absoluta identidade de ambos. Vê a realidade em ambos, e verás que
não há senão um.
Quando dizemos: Esse homem é o mesmo Devadatta que encontrei antes, estabelecemos uma
identidade pessoal desconsiderando os atributos que lhe foram sobrepostos pelas circunstâncias do nosso
encontro anterior. De modo exatamente idêntico, quando consideramos o ensinamento espiritual expresso
nas palavras Isso és Tu , devemos desprezar os atributos que foram sobrepostos a Isso e "Tu".
O homem sábio dotado de verdadeiro discernimento compreende que a essência de Brahman e Atman é a
Pura Consciência e assim percebe sua identidade absoluta. A identidade de Brahman e Atman é declarada
em centenas de textos sagrados.
Abandona a falsa noção de que o Atman é esse corpo, esse fantasma. Medita sobre a verdade de que
Atman não é nem denso nem sutil, nem baixo nem alto , de que ele existe por si mesmo, livre como o céu,
fora do alcance do pensamento. Purifica teu coração até chegares ao conhecimento de que Eu sou
Brahman . Realiza teu próprio Atman, a consciência pura e infinita.
Assim como um jarro ou um vaso de argila nada mais é do que argila, assim este universo, nascido de
Brahman, essencialmente Brahman, é apenas Brahman - pois nada existe fora de Brahman, nada existe
além disso. Isso é a realidade. Isso é o nosso Atman. Portanto, Isso és Tu - puro, bem-aventurado,
supremo Brahman, o primeiro sem um segundo.
Podes sonhar com lugares, tempos, objetos, indivíduos e assim por diante. Mas eles são irreais. No estado
de vigília experimentas este mundo, mas essa experiência brota da tua ignorância. Ela é um sonho
prolongado e, portanto, irreal. Como irreais são esse corpo, esses órgãos, essa respiração vital, essa
consciência do ego. Logo, Isso és Tu - o puro, o bem-aventurado, o supremo Brahman, o primeiro sem um
segundo.


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