terça-feira, 19 de junho de 2012

A Prática do Zen - Praticando nas relações sociais, conjugais e familiares





A mente do passado é inapreensível;

A mente do futuro é inapreensível;

A mente do presente é inapreensível.

(Sutra Diamante)



O que é tempo? Existe tempo? O que podemos dizer a respeito de nossa vida

cotidiana em relação ao tempo, ao não-tempo, ao não-ser? O que podemos aprender

a respeito dos relacionamentos sobre esse não-tempo, não-ser?



Costumamos pensar que uma dharma palestra, um concerto, ou qualquer

acontecimento da vida tem um começo, um meio e um fim. Mas se, a qualquer

instante desta palestra, por exemplo, eu parar, onde estarão as palavras que acabei

de pronunciar? Elas simplesmente não existem. Se eu parar em algum momento

posterior, onde estarão as palavras que terão sido ditas até aquele minuto? Não

existem. E quando a palestra estiver encerrada, onde estará a palestra? Não há

palestra. Só restam traços de memória em nossos cérebros. E essa memória, seja lá o



que for, é fragmentada e incompleta; só nos recordamos de partes da experiência

concreta. Podemos afirmar o mesmo de um concerto; aliás, podemos afirmar a

respeito de tudo que faz um dia, de tudo que é nossa vida. Neste exato momento,

onde está nosso passado? Ele não existe.



Bem, de que modo isso se aplica aos relacionamentos, a nossas relações com

todas as coisas e pessoas, a nossa relação com a almofada em querelações sob um outro prisma, que não o "Te peguei. E agora você sabe muito bem o

que é para fazer". Portanto, quando costumamos nos preocupar com as relações, não

estamos falando das partes boas. Muitas vezes, estas podem até ser mais presentes.

Porém, aquilo que nos interessa é o lado desagradável. "Não deveria estar aqui."

Quando digo "desagradável", englobo desde um tédio aborrecido até estados mais

intensos que esse.



Bem, como é que tudo está relacionado com o não-tempo, com o não-ser? .

Suponhamos uma discussão no café da manhã. Na hora do almoço ainda estamos

aborrecidos. Não estamos só aborrecidos, mas contamos para todas as pessoas a

esse respeito, para obter consolo, simpatia, endosso, e estamos o tempo todo em

nossa cabeça. "Quando nos encontrarmos hoje à noite vou realmente ter de discutir

isso com ele; de fato precisamos ver isso de novo." Então, houve a discussão do café

da manhã, o aborrecimento da hora do almoço, e o futuro também. O que remos fazer

com relação a toda essa encrenca?



Na verdade o que existe aqui? O que realmente é agora? Enquanto estamos

almoçando, onde está a discussão do café? Onde? "A mente do passado é

inapreensível." Onde está? O jantar, que é o momento em que por fim resolveremos a

questão (para nossa satisfação, é claro), onde está? "A mente do futuro é

inapreensível." Não existe.



O que existe? O que é real? Existe só meu aborrecimento neste instante, que é a

hora do almoço. Minha história descrevendo os acontecimentos da manhã não é o que

aconteceu. É minha história. Real é a dor de cabeça, o incômodo na barriga. Minha

lamúria é uma manifestação dessa energia física. Fora da experiência física não há

mais nada que seja real. Não sei se isso é real, mas é tudo que podemos dizer a

respeito.



Há poucas semanas, uma moça (não praticante de zen) veio conversar comigo e

queria me contar o que seu marido lhe havia feito três semanas antes. Ela estava

muito, muito aborrecida. Estava tão mal que quase não conseguia falar. Então, eu lhe

perguntei: "Onde está seu marido agora?". "Ah, ele está trabalhando." "E onde está o

aborrecimento, onde está a discussão, onde estão?" "Bem, eu estou lhe contando." Eu

disse: "Mas onde está? Mostre-me". "Bem, não posso lhe mostrar, mas estou lhe

contando. Foi isso o que aconteceu." "Mas quando foi isso?" "Há três semanas." "E

onde está?" "Oh..." Ela estava ficando cada vez mais aflita. Finalmente, conseguiu

enxergar que aquela aflição não tinha a menor realidade. Depois comentou: "Se isso é

tudo o que existe, de que maneira consertarei meu marido?".



Bem, a questão é que construímos um elaborado sistema de emoções e dramas,

por crermos no tempo que tem passado, presente e futuro. Todos fazem ou fizeram

isso. E, creiam, não é nada fácil. As pessoas colocam-se num tal estado -eu também

passei por essa situação –que mal conseguem agir; não conseguem tomar conta--de

suas obrigações e precisam ficar doentes, física e mentalmente.

Bem, isso quer dizer que não faremos nada se ficarmos aflitos? Não, fazemos o

que fazemos. Fazemos o que fazemos de modo definitivo e, a cada momento,

estamos fazendo o melhor que nos é possível.



Porém, a ação com base na confusão e na ignorância leva diretamente a mais

confusões, aflições e ignorância. Não é nem bom, nem mau, e todos nós procedemos

assim, sem exceção. Portanto, em nossa ignorância, em nossa crença de que a vida é

linear -"Isso aconteceu ontem" e "Olha só, vai continuar do mesmo jeito por muito

tempo" -vivemos num mundo de queixas como vítimas ou agressores, no que parece

ser um mundo hostil.



Entretanto, apenas uma coisa, uma única coisa cria esse mundo hostil: nossos

pensamentos, nossas imagens e fantasias. Elas criam um mundo de tempo, espaço e

sofrimento. No entanto, se tentarmos encontrar o passado e o futuro que nossos

pensamentos alimentam, descobriremos que é impossível, pois são inapreensíveis.

Um certo aluno me disse que vem subindo as paredes desde que me ouviu falar

sobre a questão do tempo, porque está em busca de seu passado. Comentou: "Se não existe passado e futuro e não consigo nem apreender o presente -quer dizer, tento apreendê-lo e ele já se foi então quem sou?". Boa pergunta. Todos podem se fazeressa questão. "Quem sou eu?"



Tomemos um pensamento típico, daquele que todos têm: "Bill me dá nos nervos".

Já existe Bill e eu, e essa sensação nos nervos, essa emoção. Bill, eu e a raiva. Está

tudo exposto. Neste preciso momento criei Bill, criei eu e, de algum jeito, a partir disso,

existe esse incômodo.



Bem, vamos, porém, dizê-lo de outro jeito. "Eu/Bill/raiva." Tudo junto. "EuBillraiva."

Só a experiência, como é, justamente agora. E sempre descobriremos que, se somos

apenas a experiência, a solução está contida nela. E nem sequer contida nela; a

experiência em si e a solução não são duas coisas separadas: Porém, no minuto em

que dizemos: "Ela me dá nos nervos"; "Ele me enche"; "Ele fez isso"; "Ela fez aquilo",

"Isso me deixa nervosa, aborrecida, me magoa realmente", então existe você, a outra

pessoa, e aquilo que você está remoendo. Ao invés disso: não existe coisa alguma,

exceto este momento agora, perfeitamente inapreensível, euvoceraiva. Ser apenas

isso: a solução aquiagora torna-se óbvia.



Mas, enquanto ficarmos girando em nossos pensamentos, por exemplo, "Bill me dá

nos nervos", estamos diante de um problema. Vocês notam que a sentença tem um

começo, um meio e um fim e, dela, vem esse mundo hostil, ameaçador e separado de

mim.



Vejam, não há nada errado com nossas sentenças. Todos precisamos viver num

mundo relativo; parece que tem café da manhã, almoço e jantar. Não há nada de

errado com o mundo conceitual relativo. O que é "errado" é não o enxergarmos tal

como é. Quando isso acontece, pegamos nossos amigos e parceiros de maneira muito

parecida com o modo como sintonizamos um canal de TV.



Por exemplo, encontramos uma bela moça e dizemos: "Hum, ela se parece com o

Canal X e sempre fico calmo e tranqüilo quando assisto a esse canal. Sei o que

esperar dele, um pouco deste tipo de coisa e daquele, alguns noticiários, posso ficar

bastante à vontade com essa pessoa tipo Canal X". Então, ficamos juntos e, durante

um certo tempo, tudo corre bem. Há muita facilidade e acordo. Parece que é uma

ótima relação.



Mas, oh espanto, o que sucede depois de algum tempo? De certa maneira, o Canal

X mudou para o Canal Y, commuita irritação e raiva; às vezes, para o Z, com sonhos e fantasias. o que estou fazendo durante esse tempo todo? Vejam, eu estava fingindo que era apenas uma pessoa Canal X, mas não, parece que passo muito tempo no Canal A, onde vejo desenhos animados para crianças, principalmente sobre o príncipe e a princesa dos meus sonhos.



Porém, tenho outros canais como o B, com desastres iminentes,

depressão, fugas. Às vezes, justo quando estou soturno, depressivo e retraído, ela

está fantasiando, toda leve. Não combina muito bem. Outras vezes, parece que todos

os canais estão no ar ao mesmo tempo. Temos uma grande confusão, muito barulho,

e um ou os dois parceiros fogem ou recuam.



O que fazer? Estamos agora em meio a nossa habitual confusão, nosso cenário

costumeiro. Temos de tentar dar um jeito nisso, não é? De algum modo, antes tudo

era feliz, por isso, o que temos a fazer, evidentemente, é levar-nos ambos de volta ao

Canal X. E dizemos para ela: "Você tem de ser deste jeito; você deve fazer isso; essa

é a pessoa por quem me apaixonei". Por um certo tempo, os dois fazem um esforço,

porque no Canal X reina uma paz artificial (e muito tédio). Na realidade, a maioria dos

casamentos parece assim depois de algum tempo. Alguém comentou que é possível

distinguir quem é casado até num restaurante: é o casal que não conversa.

É interessante que a pergunta que ninguém faz, quando as estações ficam

cruzadas, seja: "Quem ligou os canais? Quem é a fonte de toda essa algazarra?". Em

certo sentido, não há nada de errado com os canais, mas nunca perguntamos quem

os ligou. Quem aciona nossas ações? Qual é a fonte? Essa é a pergunta-chave a ser

feita.



Se não fizermos essa indagação e o sofrimento piorar de maneira considerável,

pode ser que simplesmente abandonemos a relação e passemos a buscar uma outra, para as que temos no escritório, durante as férias, em qualquer lugar. É isto que

fazemos.



Após vários episódios infelizes como esses, talvez comecemos a considerar a

totalidade de nossa vida. Uma vez ou outra, uma pessoa realmente rara e afortunada

começa a examinar toda essa questão do que está fazendo com a própria vida e a

formular as questões essenciais: "Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?".

Pode ocorrer que descubramos, para nossa grande tristeza, que depois de termos

vivido com alguém por muito tempo nunca a conhecemos de fato, sequer a

encontramos. Isso aconteceu comigo por quinze anos. Há quem viva uma existência

inteira sem jamais ter encontrado o parceiro. De vez em quando seus canais

encontram-se, mas essas pessoas nunca.



Pode ser que tenhamos sorte e encontremos um bom professor. Na tradição

budista o ensinamento de Buda diz: "Elimina completamente toda dor. Essa é a

verdade, não é mentira". Talvez não tenhamos a menor noção do que significa, mas,

se estivermos entre os afortunados, poderemos começar uma prática inteligente no

esforço de entender o ensinamento.



Um zazen inteligente significa trocas sutis constantes, graduais, primeiro nos níveis

mais grosseiros, depois para os mais sutis, e para mais sutis ainda, e assim por

diante. Inicia-se enxergando através do que denominamos personalidade, a respeito

da qual estivemos falando. Começamos a olhar de fato nossas mentes, nossos

corpos, nossos pensamentos, as percepções sensoriais, tudo que acreditávamos ser

nossa pessoa.



A primeira parte de nossa prática é como se estivéssemos no meio de uma rua

apinhada e confusa; mal conseguimos localizar um espaço vazio e já todo o trânsito

está se dirigindo para aquele local. Confunde e assusta. É assim que a vida se parece

para a maioria. Estamos tão ocupados em sair dos apertos que estão vindo em nossa

direção, que não conseguimos compreender como estamos presos naquele trânsito.

Mas, se observarmos durante um certo tempo, começaremos a ver que existem

espaços aqui e ali no trânsito. Pode ser até que consigamos chegar na calçada para

ter uma visão mais objetiva. E, independente do quão fechado for esse

engarrafamento, começaremos anotar algumas áreas abertas.



O terceiro passo, então, pode ser entrar em um edifício e subir até o 3• andar, para

olhar o tráfego lá embaixo. Agora ele realmente parece outro. Podemos enxergar suas

direções, para onde está se encaminhando. Notamos que, de certo modo, não tem

nada que ver conosco, apenas está acontecendo.



Se continuarmos subindo cada vez mais alto, termina remos vendo que o trânsito é

apenas padrões, e isso é lindo, em vez de assustador. É só o que é, e começamos a

observá-lo como um magnífico panorama. Começamos a ver que as áreas de

dificuldade fazem parte do todo e que não são, necessariamente, boas ou más; são só

parte da vida. Após muitos anos de prática, atingiremos uma posição de onde

poderemos apenas desfrutar aquilo que vemos, de nós mesmos e de tudo que existe

tal e qual é. Podemos desfrutar tudo sem sermos capturados por esse movimento;

assistimos e desfrutamos sua impermanência, seu fluir.



Avançamos mais ainda, depois, e atingimos o estágio de testemunhas de nossas

vidas. Tudo está acontecendo, tudo é desfrutável e não estamos presos a nada. No

estágio final de nossa prática, estamos de volta à rua, ao mercado e ao burburinho.

Uma vez, porém, que vemos a confusão como ela é, estamos livres dela. Podemos

amá-la, desfrutá-la, servi-la, e nossa vida é vista como aquilo que sempre foi: livre e

liberta.



Aquele primeiro lugar, onde estamos presos bem no meio do trânsito e da

confusão, é o ponto de partida para a maioria que se dispõe a uma prática. É desse

ponto de vista que muitos enxergam as próprias relações como confusas,

desconcertantes, amargas, pois estamos esperando que elas sejam aquele lugar de

podemos descansar do tráfego.



Contudo, ao tentarmos a prática com nossas relações, começaremos a observar

que são nosso melhor caminho de crescimento. É nelas que podemos enxergar o que

na realidade são nossa mente, nosso corpo, nossos sentidos, nossos pensamentos.

Por que os relacionamentos constituem uma prática tão excelente? Por que nos

ajudam a entrar naquilo que chamamos a lenta morte do ego? Porque, além de nossa

prática formal de sentar, não há nada que supere os relacionamentos em termos de

capacidade de demonstrar-nos onde estamos parados e ao que estamos nos

apegando. Enquanto nossos botões estiverem sendo pressionados, temos grandes

oportunidades de aprender e de crescer. Por isso, o relacionamento é uma grande

dádiva, não porque nos torne felizes -com freqüência isso não acontece -mas porque

qualquer relacionamento íntimo, se o virmos como prática, é o espelho mais nítido que

podemos encontrar.



Podemos afirmar que eles são a porta aberta para nosso verdadeiro eu, o não-eu.

Presas do medo, estamos sempre batendo a uma porta pintada, composta de nossos

sonhos, nossas esperanças e ambições; e evitamos a dor do portão sem portão, a

porta aberta de sermos e estarmos com o que é, seja o que for, aqui e agora.

Para mim é interessante constatar que as pessoas não enxergam qualquer

conexão entre sua infelicidade e suas queixas, sua sensação de vítimas, a sensação

de que todo mundo está fazendo alguma coisa contra elas. É incrível. Quantas vezes

essa ligação foi indicada nas dharma palestras? Quantas vezes? E, não obstante,

nosso medo nos impede de enxergar.



Só as pessoas inteligentes, vigorosas e pacientes acabarão descobrindo aquele

posto fixo em torno do qual o universo gira. Infelizmente, a vida para quem não

consegue ver de frente o momento presente é sempre violenta e punitiva; não é

agradável, e não se liga a mínima para ela. A verdade, porém, é que não é a vida e,

sim, nós mesmos que criamos essa infelicidade. Se de fato recusarmo-nos a

considerar aquilo que estamos fazendo -e lamento como é reduzido o número de

pessoas que farão isso -então seremos punidos por nossas vidas. Ficaremos nos

perguntando por que ela é tão dura conosco. Para quem, no entanto, praticar com

paciência, sentar, sentar, sentar, e instalar a prática com firmeza em sua vida diária,

para ele haverá, cada vez mais, um sabor de alegria numa relação em que o não-eu

se encontra com o não-eu. Em outras palavras, a abertura encontra a abertura. É

muito raro, mas acontece. E quando ocorre, não sei sequer se podemos aplicar o

termo "relacionamento". Quem está ali para se relacionar com quem? Não se pode

dizer que o não-eu se relaciona com o não-eu. Para esse estado, portanto, não há

palavras. Nesse amor e compaixão atemporais, como disse o Terceiro Patriarca: "Não

existe ontem, não existe amanhã, não existe hoje".

In: Sempre Zen, Charlotte Joko Beck


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