segunda-feira, 4 de junho de 2012

Fundamentos Epistemológicos da Filosofia Vedanta - Shankara





A meta suprema

pode-se objetar que a filosofia Vedanta, a exemplo de qualquer outro sistema de pensamento religioso, assenta numa hipótese central.


Certamente, a meta suprema da vida é conhecer Brahman - se é que Brahman existe. Mas podemos ter certeza disso? Não é possível que não exista nenhuma realidade subjacente no universo? Não é possível que esta vida não passe de um fluxo desprovido de significação, que morre e se transforma, em perpétua mudança?


O que mais nos atrai no Vedanta é sua abordagem não-dogmática, seu enfoque experimental da verdade. Shankara não nos diz que devemos aceitar a existência de Brahman como um dogma antes de podermos ingressar na vida espiritual. Não - ele nos convida a descobrirmos por nós mesmos.

Nada - nenhum mestre, nenhuma escritura - pode fazer esse trabalho por nós. Mestres e escrituras são apenas estímulos para o esforço pessoal. Mas, como tais, eles podem ser admiráveis. Imagine que esta é uma ação judicial e que você é o juiz. Procure ouvir imparcialmente as testemunhas de ambos os lados.

Considere as testemunhas a favor de Brahman - os videntes e os santos que afirmam ter conhecido a Realidade eterna. Examine suas personalidades, suas palavras, as circunstâncias de suas vidas. Pergunte a si mesmo: esses homens são mentirosos, hipócritas ou insanos, ou estão falando a verdade? Compare as grandes escrituras do mundo e pergunte: elas se contradizem umas às outras ou estão de acordo?

Então dê o seu veredicto. Mas o mero assentimento, como insiste Shankara, não basta. Ele é apenas um passo preliminar em direção à participação ativa na busca. A experiência pessoal direta é a única prova satisfatória da existência de Brahman, e cada um de nós deve tê-la.

A ciência moderna está muito perto de confirmar a visão de mundo Vedanta. Ela admite que a consciência, em variados graus, pode estar presente em toda parte. As diferenças entre objetos e criaturas são meras diferenças de superfície, variadas disposições de átomos. Os elementos podem transformar-se em outros elementos. A identidade é apenas provisória. A ciência ainda não aceita a concepção da Realidade absoluta, mas certamente não a exclui. Shankara nada sabia a respeito da ciência moderna, mas seu método é fundamentalmente científico. Ele se baseia na prática do discernimento - discernimento que deve ser aplicado a nós mesmos e a cada circunstância e objeto de nossa experiência, em cada instante de nossas vidas. Com a maior freqüência possível - milhares e milhares de vezes por dia - devemos perguntar a nós mesmos: "Isto é real ou irreal, isto é fato ou fantasia, isto é natureza ou mera aparência? Desse modo nos aprofundaremos cada vez mais na busca da verdade.


Todos nós sabemos que existimos. Todos temos a percepção da nossa própria consciência. Mas qual é a natureza dessa consciência, dessa existência? O discernimento logo nos provará que a idéia do ego não é a realidade fundamental. Existe algo que está além dele. Podemos chamar esse algo de Brahman , mas Brahman é apenas mais uma palavra, que não nos revela a natureza daquilo que estamos procurando.


Brahman pode ser conhecido como uma substância ou como algo que existe? Não no sentido comum do verbo. Saber alguma coisa é obter o conhecimento objetivo dela, e esse conhecimento é relativo, dependendo do espaço, do tempo e da causação. Não podemos conhecer a consciência absoluta desse modo, porque a consciência absoluta é o próprio conhecimento. Brahman é a fonte de todos os demais conhecimentos, abrangendo o conhecedor, o conhecimento e a coisa conhecida. É independente do espaço, do tempo e da causa.


Nesse sentido, a prática do discernimento difere do método da pesquisa científica. O cientista se concentra num determinado objeto de conhecimento e examina-o num nível que ultrapassa o campo da percepção sensorial, com a ajuda de aparelhos, da análise química, da matemática e assim por diante. Sua pesquisa se amplia como uma viagem, aprofundando-se cada vez mais no tempo e no espaço. O filósofo religioso procura aniquilar o tempo e o espaço, as dimensões da idéia do ego, a fim de revelar a Realidade que está mais próxima e é mais imediata do que o ego, o corpo ou a mente.


O filósofo religioso procura perceber aquilo que ele é agora e sempre - e essa percepção não é um aspecto da própria consciência. O vidente iluminado não se limita a conhecer Brahman; ele é Brahman; ele é a Existência, ele é o Conhecimento. A liberdade absoluta não é algo que deva ser atingido, o conhecimento absoluto não é algo a ser conquistado, Brahman não é algo que deva ser encontrado. Só Maya deve ser penetrada, só a ignorância deve ser vencida. O processo do discernimento é um processo negativo. O fato positivo, nossa natureza real, existe eternamente. Nós somos Brahman - e só a ignorância nos separa desse conhecimento.


A consciência transcendental, ou a união com Brahman, nunca poderá ser investigada pelos métodos da pesquisa científica, uma vez que tal pesquisa depende, em última análise, da percepção sensorial, e Brahman está além da percepção dos sentidos. Mas isso não quer dizer que estamos condenados à dúvida - ou a confiar cegamente na experiência dos videntes - enquanto não tivermos atingido pessoalmente a Meta Suprema. Mesmo um pequeno esforço na meditação e na vida espiritual haverá de recompensar-nos com o conhecimento e a convicção de que este é realmente o caminho que leva à verdade e à paz - de que não estamos simplesmente nos enganando ou hipnotizando a nós mesmos -, de que a Realidade está ao nosso alcance. Teremos naturalmente nossos altos e baixos, nossos momentos de incerteza, mas sempre retornaremos a essa convicção. Nenhuma conquista espiritual, por menor que seja, será perdida ou desperdiçada.


Métodos e meios

Existem muitos caminhos conducentes à consciência transcendental. Em sânscrito, esses caminhos são chamados de iogas, ou métodos de união com Brahman. As iogas variam de acordo com o tipo de pessoas.

Com efeito, cada indivíduo abordará a Realidade de um modo ligeiramente diferente.

Quatro iogas principais são geralmente reconhecidas na literatura religiosa hindu: Karma, Bhakti, Jnana e Raja. Eis um resumo muito sucinto de suas características:


A Karma Ioga, como o próprio nome indica, está voltada para o trabalho e a ação. Trabalhando
altruisticamente pelo nosso próximo, considerando cada ação como uma oferenda sacramental a Deus, cumprindo nosso dever sem ansiedade ou preocupação com o sucesso ou o fracasso, o elogio ou a censura, podemos aniquilar gradualmente a idéia do ego. Através do Karma podemos transcender o Karma e vivenciar a Realidade que está além de qualquer ação.


Bhakti é a Ioga da devoção - devoção a lswara, o Deus pessoal, ou a um grande mestre: Cristo, Buda, Ramakrishna. Graças a essa devoção pessoal, a esse serviço amoroso consagrado a um ideal personificado, o devoto acabará transcendendo completamente sua personalidade. Esta é a ioga do ritual, da adoração, dos sacramentos religiosos. O ritual desempenha aqui um papel importante, o de uma ajuda física, para a concentração - pois os atos do ritual, como os atos da Karma Ioga, evitam que a mente se disperse em suas distrações e ajudam a reconduzi-la firmemente ao seu objeto. Para muitos, este é o caminho más fácil de trilhar.


A Jnana Ioga, por outro lado, é mais adequada para as pessoas cujos intelectos vigorosos e austeros desconfiam do fervor emocional da adoração. Esta é a ioga do puro discernimento. Não requer nenhum Iswara, nenhum altar, nenhuma imagem, nenhum ritual. Visa uma aproximação mais imediata do Brahman Impessoal. Esse caminho pode ser talvez mais direto, mas é também árduo e íngreme e só pode ser palmilhado por poucos.

A Raja Ioga - a ioga da meditação - combina, até certo ponto, as três outras. Não exclui a Karma Ioga e utiliza tanto o método Bhakti quanto o Mana - já que a meditação é uma mistura de devoção e discernimento.

Por temperamento, Shankara propendia para a Jnana Ioga, o caminho do puro discernimento - embora, como este livro irá mostrar, também fosse capaz de grande devoção. Renúncia, discernimento, autocontrole - tais são as suas palavras-chaves. Alguns poderão achar sua austeridade demasiado severa, especialmente na primeira parte do diálogo; mas é precisamente essa austeridade que fornece um valioso corretivo para os perigos de um sentimentalismo fácil, um excesso de otimismo despreocupado, uma confusão da verdadeira devoção com a mera autoconiplacência emocional. Shankara não tinha ilusões quanto a este mundo de Maya; ele condena seus prazeres e deleites aparentes com brutal franqueza. Por isso mesmo era capaz de descrever tão expressivamente a completa transformação do universo que ocorre diante dos olhos do vidente iluminado. Quando se experimenta Brahman, quando todas as criaturas e objetos são vistos na sua verdadeira relação com o Absoluto, então este mundo é realmente um paraíso; ele nada mais é senão Brahman, senão consciência superior, conhecimento e paz. Depois de árduos esforços, o discípulo alcança essa realização no Supremo Discernimento", e o livro de Shankara se fecha com a magnificente explosão de sua alegria.


In: A Jóia Suprema do Discernimento - Shankara



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