quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Ilusão das Cidades Espirituais



Por Monstrinho

Um mundo à imagem e semelhança da razão


Durante muitos séculos, desde os matemáticos gregos, houve um enaltecimento da matemática, e particularmente da Geometria como a “ciência dos deuses”, no sentido de que, o mundo celeste para os pitagóricos e seus sucedâneos, era composto de figuras geométricas perfeitas. De Platão a Galileu, acreditou-se no dogma do círculo perfeito, até Johannes Kepler demonstrar que os planetas descrevem órbitas elípticas e não circulares, em torno do Sol.


Assim, durante séculos acreditou-se que a “natureza é o livro de Deus”, e que ele está escrito em caracteres matemáticos. Hoje, contudo, sabemos que, mesmo a Terra não é uma esfera perfeita, ela é achatada nos polos, e no mundo celeste não foi encontrado até hoje um único objeto que tenha uma forma geométrica perfeita.


Então, fica fácil compreender o raciocínio elaborado sobre tal lógica: “Deus criou o universo matematicamente perfeito; ao filósofo natural – argumentavam – cabe ler o “livro de Deus”, que está escrito em caracteres matemáticos.





Torna-se evidente e notório, assim, que o que se passa é justamente o inverso: a matemática é uma criação única do homem, e quem sabe se não podemos dizer que somos os únicos seres no universo a utilizá-la como instrumental simbólico para compreender o mundo físico? Sei que, para os que lêem isto, parece que estou indo longe de mais. Reparem, contudo que, dentro do nosso próprio planeta há outras culturas com outros entendimentos sobre o mundo físico.



Mito e razão


Muitos gostam de comparar o mito, por exemplo, com o dogma, mas esta comparação não é justa e nem verossímel. Muitos mitos são alegorias sobre nossa condição humana e nossa relação com o mundo. Assim como as parábolas, os mitos têm o poder de nos fazer enxergar mais além, logo, eles podem ser mais poderosos do que proposições filosóficas e fatos científicos. Os espíritas sabem que o Livro dos Espíritos deixa bem claro que os diversos mundos materiais em nada se assemelham, e portanto, qual a razão de acharmos que, as nossas ciências naturais, físicas e humanas são iguais em toda parte do universo?




As Cidades Espirituais


O debate sobre as chamadas cidades espirituais é infindo entre contendores de toda espécie, devido a esta falta de compreensão da natureza humana. Sendo o homem um animal simbólico ele constrói e reconstrói, a partir de lógicas, significados e símbolos o próprio mundo físico que o cerca. Vemos, portanto, que o “mundo objetivo”, o que “existe de verdade”, não é este que estamos vendo, interpretando e vivendo. E aqui, não quero me deter na questão da percepção dos sentidos que, sem dúvida alguma, nos levaria às compreensões atuais da Física Quântica e saberes correlacionados. Gostaria de me deter apenas na questão simbólica.


Para que “enxerguemos” uma cidade, antes temos que ter ideias e significados sobre o que é uma cidade. Uma cidade é um certo espaço físico, organizado politicamente, onde se vivem pessoas agrupadas em famílias, perante certas regras e normas. E, reparem, que esta é apenas a nossa concepção de “cidade”, que remonta, evidentemente, à concepção da polis grega.


Pois que, o Espírito desencarna e se depara com uma cidade. Não é que seja ilusão a cidade que ele está vendo, mas é que, assim como no mundo físico, em que a realidade externa é projetada pela mente, assim também no “mundo espiritual”, todas as realidades externas são projetadas pela mente. Tudo o que existe, existe dentro da mente, mas não como algo já dado, mas criado cultural e historicamente. O mundo que vemos lá fora é uma projeção daquilo que existe dentro de nós. Se olho para o mundo e vejo o mal, esse mal está antes dentro de mim; se vejo discórdias, injustiças, e vivo emocionalmente aquilo que para mim é uma tragédia social, essa realidade está viva dentro de mim, como produto social que sou, construído cultural e historicamente (Isto sem falarmos do inatismo, ou seja, das ideias e tendências adquiridas em outras vidas).




As cidades espirituais como produto sócio-cultural do Espírito humanizado


Portanto, não podemos conceber que haja no dito “mundo espiritual” uma cidade como algo já dado, já “eterno, preexistente e sobrevivente a tudo”, como encontramos no item 6 da introdução de O Livro dos Espíritos. Lembremos que, no próprio planeta, comunidades – extensas por vezes – vivem sem ter a necessidade de estarem sob a égide de uma cidade, como os hippies.


Então a cidade espiritual existe. Os seus objetos, construções, são tangíveis, assim como do ponto de vista da sua estruturação política, há sem dúvida alguma essa “tangibilidade cultural”. Ela é produto de uma cultura e, de uma cultura específica. Isso significa que na “erraticidade” de outros orbes, poderão ser construídas outros tipos de cidades ou edificações que sequer imaginamos a forma e a sua estrutura de organização sócio-política.




A visão como sentido criado culturalmente


A cidade espiritual existe, portanto, para egos que estão criando a ideia de estar vivendo em uma cidade. Aí surge um questionamento que já havia sido colocado a Berkeley: como se explica então que todos estão vendo as mesmas coisas? A visão é antes de tudo um sentido cultural: enxergamos aquilo que aprendemos socialmente a enxergar. Quando as naus de Colombo estavam em alto mar, já visíveis a olho nu, os índios não a enxergavam, porque não tinham o conhecimento cultural da sua existência. O xamã é que, durante várias semanas ao perceber movimentos nas águas do oceano, começa a observar, e então avista as naus em alto mar; mostra-as ao seu povo, mas estes, apesar de as verem, acreditam porque creem na palavra e no poder do xamã. Só enxergamos aquilo que existe cultural e simbolicamente para nós, aquilo que tem significado, mesmo que seja imaginário.


Nossos sentidos, portanto, são construídos social e culturalmente: ouvimos, vemos, cheiramos e sentimos o gosto daquilo que nos é ensinado a perceber. As pessoas que não têm conhecimento sobre Astronomia, e que não se interessam pela mesma, dificilmente enxergam as constelações no céu, os planetas, as nebulosas e os aglomerados de estrelas. Os que enxergam, é porque foram ensinados a enxergar. Ademais, não vemos com os olhos. O olho capta a imagem invertida dos objetos – como nos telescópios newtonianos ou refletores – e o cérebro é que inverte a imagem e interpreta aquilo que está sendo visto.


Em Antropologia, há o célebre experimento mental, de como seria, se deixassem um bebê recém nascido no meio de uma floresta. Caso ele sobrevivesse, aprenderia uma língua? Se fosse criado entre lobos aprenderia a uivar e ter hábitos carnívoros? Ele desenvolveria a inteligência?




Conclusão


Como produto da cultura em que vive, o Espírito humanizado está revestido de um invólucro (ego) sócio-ético-cultural que o impede de reconhecer a sua verdadeira essência. No item 6 da introdução de O Livro dos Espíritos, aqui já citado, Allan Kardec diz que “o mundo espiritual é o mundo normal, primitivo, eterno e sobrevivente a tudo. O mundo material é secundário, poderia deixar de existir sem que com isso afetasse a essência do mundo espiritual”.


Enfim, esse “mundo espiritual” descrito em Nosso Lar e em um sem-número de livros e romances espiritualistas, o que é senão um “mundo material” que “poderia deixar de existir ou nunca ter existido sem que com isso afetasse a existência do MUNDO ESPIRITUAL”? Então ele é ilusório, não só no sentido da aparência, mas, principalmente na sua condição de impermanência.

2 comentários:

  1. Como terapeuta e numeróloga que sou tenho de dizer que tudo no Universo tem um código, uma frequência energética, que nos permite distinguir uns dos outros e isso já foi explicado pela física quântica.

    Relativamente ao Ego, concordo que ele nos afasta da nossa essência, mas por experiência própria posso dizer que o podemos "dominar" e passarmos a Ser. Até porque sem ego era impossível conseguirmos sobreviver aqui na Terra.

    Beijinhos

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  2. "Distingüir uns dos outros". Não concordo, amiga, já que todos somos "iguais perante a lei. ;)

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