terça-feira, 22 de maio de 2012

História da Filosofia Oriental - A História de Buddha e os Fundamentos do Budismo






O fundamento histórico



A história de Buddha, pode-se dizer, não é um mito. Na verdade é possível

desemaranhar da lenda de Buddha, assim como da história de Cristo, um núcleo de fato

histórico. Fazer isso e demonstrar claramente seu preceito tem sido uma grande

realização do ensino oriental durante o último meio século. Aqui, entretanto, iremos nos

preocupar com toda a história mítica de Buddha, tal como esta é relatada em vários

trabalhos que não são, estritamente falando, históricos mas têm um inquestionável valor

literário e espiritual. Antes, porém, de começarmos a expor o mito de Buddha

sintetizaremos seu núcleo histórico, até onde é possível determiná-lo, e explicaremos

uma parte de suas doutrinas.






A vida de Buddha


No século V antes de Cristo os arianos invasores da Índia tinham já penetrado

para além de Panjab, nos longes da planície, e estavam instalados em vilarejos e

pequenos reinos ao longo do vale do Ganges. Uma das tribos arianas, os Shakyas,

estava estabelecida em Kapilavastu, cerca de cem milhas a nordeste da cidade de

Benares e trinta ou quarenta milhas ao sul do Himalaia. Era um povo dedicado à

agricultura cujo meio de subsistência dependia principalmente do arroz e do gado. O

rajá dos Shakyas, Suddhodana, era casado com as duas filhas do rajá de uma tribo

vizinha, os Koli. Nenhuma de suas esposas havia tido filhos, mas quando estava com

quarenta e cinco anos (cerca de 563 a.C.) a mais velha tornou-se mãe de um menino,

tendo morrido sete dias depois. O nome de família do menino era Gautama. Mais tarde

foi-lhe dado o nome de Siddhartha. Gautama casou-se cedo com sua prima Yashodhara,

filha do rajá de Koli, e viveu feliz com ela, livre de cuidados ou necessidades. Aos vinte

e nove anos, tendo-se deparado com quatro pessoas que lhe expuseram a velhice, a

doença, a morte e, por último, o digno afastamento do mundo, o problema do

sofrimento apresentou-se-lhe de modo repentino e impressivo. Tomado pelo

pensamento da incerteza de toda felicidade e condoído com o sofrimento dos outros, ele

sentiu uma crescente inquietação e insatisfação com a vaidade da vida; e quando, dez

anos depois de seu casamento, nasceu-lhe um filho, Gautama apenas sentiu que mais

uma ligação precisava ser rompida antes que ele pudesse deixar seu mundo protegido a

fim de buscar uma solução para os profundos problemas da vida e um meio de escapar

ao sofrimento que parecia inevitavelmente associado a ela.

Naquela mesma noite, quando todos estavam dormindo, ele deixou o palácio,

levando consigo apenas seu cavalo e servido unicamente por seu cocheiro, Channa. Ele

havia desejado carregar o filho nos braços uma última vez, mas, encontrando-o

adormecido ao lado de Yashodhara, temeu acordar a mãe, e então se afastou para

sempre de tudo o que ele mais amava para tornar-se um caminhante sem lar. Na verdade

o que conduz os homens aos grandes feitos é o perigo e a vida difícil, e não a segurança

e a felicidade.

Gautama ligou-se sucessivamente a vários brâmanes eremitas em Rajagriha, nas

colinas Vindhyan; então, insatisfeito com o que eles ensinavam, esforçou-se, por

penitências solitárias na floresta, à maneira dos ascetas brâmanes, para obter poder

sobre-humano e discernimento. Mas depois de ter suportado as mais severas privações e

de ter praticado por um longo período a autoflagelação com toda a determinação, ele

não se via próximo da iluminação, embora tivesse adquirido uma grande reputação de

santo. Então ele abandonou aquela vida e voltou a alimentar-se normalmente; com isso

sacrificou sua reputação, e seus discípulos o desertaram.






A tentação


Nesse tempo de solidão e malogro veio-lhe a grande tentação, simbolicamente

referida como tendo sido apresentada por Mara, o demônio, na forma de tentação

material e agressão. Invicto, entretanto, Gautama caminhou ao longo da margem do rio

Nairanjara e sentou-se à sombra de um pipal (Ficus religiosa), e lá recebeu uma refeição

simples das mãos de Sujata, filha de um aldeão das vizinhanças, que a princípio tomouo

por uma divindade da floresta. Durante o dia ele ficou sentado ali, assaltado pela

dúvida e pela tentação de voltar para casa. Mas com o passar do dia sua mente pareceu

tornar-se cada vez mais clara, suas dúvidas foram se desfazendo, uma grande paz

desceu sobre ele, enquanto o significado de todas as coisas se tornava aparente. Assim

se passou o dia e a noite, até que, pela madrugada, veio a perfeita sabedoria e Gautama

tornou-se Buddha, o iluminado.

Com a perfeita sabedoria veio para Buddha uma sensação de grande isolamento.

Como seria possível compartilhar essa sabedoria com homens menos sábios, menos

sérios? Era provável que ele pudesse persuadir alguém da verdade de uma doutrina de

auto-salvação pelo autocontrole e pelo amor, sem se valer dos rituais e das teologias nos

quais os homens, por toda parte e durante todo o tempo, se apóiam? Tal isolamento

ocorre a todos os que comandam; mas o amor e a compaixão pela humanidade levaram

Buddha a se decidir, apesar do risco de incompreensão ou fracasso, a pregar a verdade

que havia visto. Assim, Buddha partiu para Benares a fim de "Girar a roda da lei", ou

seja, fazer mover a roda do carro de um império universal de verdade e retidão. Ele se

instalou no "Parque do Cervo", perto de Benares. A princípio sua doutrina não foi bem

recebida, mas dentro de pouco tempo ela já era aceita por seus antigos discípulos e

muitas outras pessoas. Alguns se tomaram seus seguidores pessoais; outros — os que

não queriam deixar a vida familiar — eram discípulos leigos. Entre aqueles que

aceitaram a doutrina de Buddha estavam seus pais, a esposa e o filho. Depois de um

sacerdócio que durou quarenta e cinco anos, dedicados à pregação das novas doutrinas

em Kapilavastu e nos estados vizinhos, ele estabeleceu uma ordem de monges budistas

e também, embora com relutância, uma ordem de monjas. Por volta de 483 a.C. Buddha

morreu, ou entrou no nirvana, cercado de seus desolados discípulos
.




A doutrina de Buddha


Se sabemos relativamente pouco sobre a vida de Buddha, por outro lado temos

um conhecimento confiável de sua doutrina. Na verdade, as concepções da

personalidade de Buddha mudaram, mas a substância da sua doutrina tem sido

preservada intacta desde cerca de 250 a.C. e há todas as razões para acreditar que as

obras que então foram formalmente aceitas como canônicas incluem a parte essencial de

sua doutrina.

Em primeiro lugar é necessário compreender que, embora fosse um reformador e

talvez, do ponto de vista sacerdotal, um herege (se tal palavra pode ser usada em

conexão com um sistema que permite absoluta liberdade de especulação), ele foi

educado, viveu e morreu como um hindu. Uma parte relativamente pequena de seu

sistema de doutrina e de ética é original ou foi calculada para privá-lo do apoio e da

simpatia dos melhores entre os brâmanes, muitos dos quais se tornaram seus discípulos.

O sucesso de seu sistema deveu-se a várias causas: a personalidade maravilhosa e a

suave moderação do homem, sua corajosa e constante insistência sobre uns poucos

princípios fundamentais e, finalmente, o meio que ele usou para tornar seu ensino

acessível a todos, sem relevar a aristocracia de nascimento ou o intelecto.

A idéia da não-permanência, da inevitável ligação entre tristeza e vida e entre

vida e desejo, a doutrina do renascimento, do karma (todo homem deve colher o que ele

próprio semeou), e uma complexa filosofia formal — tudo isso pertence à atmosfera

intelectual da época de Buddha. A questão em que ele diferia mais profundamente dos

brâmanes era a sua negação da alma, de qualquer entidade permanente no homem, a não

ser associações temporárias que produzem a ilusão de uma pessoa, um ego.

Mesmo essa diferença, entretanto, é mais aparente do que real, e em épocas mais

recentes descobrimos que se tornou quase impossível distinguir entre o "Vazio" budista

e o "Eu" dos brâmanes. Pois a característica que distingue ambos é a ausência de

quaisquer características: ambos são algo diferente de Ser e algo diferente de não-Ser.

Até mesmo a palavra "nirvana" é comum ao budismo e ao hinduísmo, e o que se discute

é se nirvana equivale ou não a extinção. Na verdade a questão é realmente imprópria,

pois nirvana não significa outra coisa senão libertar-se dos grilhões da individualidade

— como o espaço fechado em um pote de barro é libertado de sua limitação e se torna

um espaço infinito quando o pote se quebra. Chamarmos esse espaço infinito de um

Vazio ou de um Todo é mais uma questão de temperamento do que de fato; o

importante é compreender que a aparente separação de qualquer porção dele é irreal e

temporária, e é a causa de toda dor.

Assim, a heresia da individualidade é o grande engano a ser abandonado por

aquele que se inicia na estrada budista da salvação. O desejo de manter essa

personalidade ilusória é a fonte de todas as infelicidades e de todos os males de nossa

experiência. A idéia de alma ou de personalidade é ilusória, porque não há, de fato,

nenhum ser, somente um perene vir a ser. Aqueles que se livram dessas ilusões podem

entrar no caminho que leva à paz de espírito, à sabedoria, ao nirvana (libertação). Muito

sumariamente, esse caminho é resumido no celebrado verso:





Cessar todo pecado

Alcançar a virtude

Limpar o coração

— Essa é a religião dos Buddhas.

IN: Mitos Hindus e Budistas, A. K. Coomaraswamy e Irmã Niveditaak

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