domingo, 10 de julho de 2011

Religião: manancial de força ou de fraqueza? Excertos do livro "O homem à procura de si mesmo", Rollo May



Religião: Manancial de força ou de fraqueza? - o divino direito de ser protegido 

Palavras-chave: O divino direito de ser protegido; Filosofia Nietzchena; Psicologia Existencial-humanista Nietzscheana; Crítica de Nietzsche às religiões e à moral; Psicoterapia Existencial-humanista; Auto-conhecimento; Liberdade; O homem à procura de si mesmo; o problema da proteção paterna e das autoridades constituídas

Em qualquer discussão sobre a integração de religião e personalidade , o importante não é saber se a própria religião contribui para a saúde ou a neurose, e sim “que espécie” de religião e como é usada. Freud estava errado ao sustentar que religião é por si uma neurose compulsiva. Algumas são, outras não. Qualquer setor da vida pode ser utilizado como neurose compulsiva: a filosofia pode ser uma fuga da realidade para um “sistema” harmonioso, proteção da ansiedade e das desarmonias do dia-a-dia, ou pode ser um corajoso esforço para compreender melhor a realidade. A ciência pode ser utilizada como fé rígida e dogmática, por meio da qual a pessoa foge à insegurança emocional e às dúvidas, ou pode ser uma busca sincera de novas verdades. Desde que a fé na ciência tem sido mais aceitável nos círculos intelectuais de nossa sociedade e está, portanto, menos apta a ser questionada, é bem possível que em nossos dias esta fé represente com mais freqüência o papel de fuga compulsiva das incertezas do que a própria religião. Freud, contudo, estava tecnicamente certo ao fazer a pergunta correta em relação à religião: ela aumentará a dependência e manterá o indivíduo infantilizado?






Por outro lado, os que afirmam tranqüilamente que a religião contribui para a saúde mental não estão corretos. Alguns sim, outros decididamente não. Todas estas declarações generalizadas nos poupam à questão muito mais difícil de penetrar o significado íntimo das atitudes religiosas e avaliá-las, não como crenças teóricas, mas como aspectos efetivos da relação orgânica da pessoa com sua vida.

As questões que propomos são: a religião de determinado indivíduo serve para quebrar-lhe a vontade, mantê-lo em plano infantil de desenvolvimento, capacitando-o a evitar a ansiedade causada pela liberdade e responsabilidade pessoal? Ou serve de base para a afirmação de seu valor ou dignidade, proporcionando-lhe o fundamento para uma corajosa aceitação de suas limitações e da ansiedade normal, ajudando-o a desenvolver suas aptidões, responsabilidade, força e capacidade de amar aos seus semelhantes? O primeiro ponto a ser considerado, ao responder a estas perguntas, é a relação entre religião e dependência.

Uma senhora e sua filha haviam combinado, quando a última era bem pequena, que a vida desta seria sempre orientada pela vontade de Deus. E a vontade de Deus, na opinião das duas, seria revelada à filha através das preces da mãe. A gente estremece ao pensar até que ponto isso exporia a jovem ao domínio materno, em cada gesto ou pensamento! Sua capacidade de decisão não poderia deixar de ficar abafada, foi o que ela penosamente descobriu quando, perto dos trinta anos, se viu diante de um insolúvel dilema: não conseguia assumir com autonomia a decisão de casar-se. Este exemplo parecerá exagerado, uma vez que mãe e filha pertenciam a uma seita evangélica conservadora e a história não é recoberta de sofisticadas racionalizações. Mas demonstra que, quando uma pessoa se considera porta-voz ou associado de Deus, como fazia a mãe, não há limites para os direitos que se arroga sobre os outros.

Essa maneira de usar da religião manifesta-se com nitidez e freqüência quando a pessoa, durante a análise, está lutando para conquistar alguma liberdade, fugindo ao controle paterno. Os pais, muitas vezes, com diferentes graus de sutileza, afirmam ser dever religioso do jovem permanecer sob sua direção, que é na verdade a “vontade de Deus”. Nas cartas que as pessoas analisadas recebem às vezes dos pais, estes citam, naturalmente, passagens da Bíblia como a que manda “honrar pai mãe”, em lugar do trecho do Novo Testamento, onde Jesus declara que “o inimigo do homem será sua família”.

A maioria dos pais insiste verbalmente, é claro, em que deseja somente que o filho realize as suas potencialidades. Muitas vezes não percebem a necessidade inconsciente de continuar agarrados aos mais jovens. Mas o fato de comportarem-se como se a realização do filho ou da filha só pudesse ser alcançada caso permanecesse sob seu controle revela algo muito diferente de suas intenções conscientes. A libertação dos filhos provoca às vezes uma profunda ansiedade, que revela o quanto é difícil para eles, em nossa sociedade, acreditar de fato nas potencialidades da criança (talvez por ser tão difícil crerem em suas próprias potencialidades), e também como é forte a tendência de toda autoridade constituída a manter seu poder, mesmo ao preço da submissão de outrem.

Os conflitos tornam-se mais complexos porque o jovem em luta pela autonomia fica muitas vezes imbuído de um profundo sentimento culposo, caso não obedeça aos preceitos paternos. E, em geral, já está combatendo no íntimo considerável ansiedade e sentimento de culpa nos esforços para libertar-se. É muitas vezes nesse estágio que as pessoas têm sonhos nos quais, como Orestes, se sentem ao mesmo tempo culpadas e inocentes e, no entanto, são forçadas a continuar. Uma pessoa nestas circunstâncias sonhou que fora condenada pelo Senador McCarthy, embora soubesse que na verdade era inocente.

O problema da sujeição ao poder de outrem é reforçado, naturalmente, por desejos infantis no sentido de que “alguém cuide dele”. Assim, existem tendências para entregar-se a quem o domina. Cerca de metade do meu trabalho psicoterapêutico, nos últimos dez anos, tem sido feito com pessoas de background especificamente religioso, ou de profissão religiosa, e cerca de metade com pessoas sem qualquer formação ou interesse religioso. Anotei algumas impressões que, embora devam ser recebidas com cautela, podem talvez ser de ajuda para o esclarecimento de algum efeito psicológico da educação religiosa em nossa sociedade. Cito-a por duas razões. Primeiro, porque podem ser úteis aos leitores de tradição religiosa, preocupados em evitar o ângulo da religião (assim como de qualquer outro aspecto cultural) que conduza a armadilhas neuróticas. Segundo, porque tais impressões podem ser úteis aos leitores sem qualquer tradição religiosa, mas que, como um número crescente de pessoas de sensibilidade, se preocupam hoje em distinguir quais os aspectos da religião que são de ajuda na descoberta dos valores pessoais e quais os que para isso não contribuem.

Minhas impressões são as seguintes: as pessoas de formação religiosa demonstram, a princípio, zelo maior que o das outras para reformar a si mesmas e a sua vida. Mas, em seguida, inclinam-se a uma atitude que eu chamaria “o direito divino de ser cuidado”. As duas atitutes são naturalmente contraditórias e paralelas aos efeitos também contraditórios da religião que já discutimos e discutiremos ainda neste capítulo. A primeira atitude – o vivo interesse por resolver os próprios problemas – não necessita comentários; é uma função da fé no significado e no valor da vida, é contribuição construtiva de uma religião amadurecida e, conforme apontaremos adiante, tem em geral influência dinâmica sobre a terapia.

Mas a atitude do “direito divino de ser cuidado” é totalmente diferente. Constitui um dos maiores bloqueios à evolução para a maturidade, tanto em terapia, como na vida em geral. Dificilmente tais pessoas percebem que essa exigência em cuidade delas é um problema a ser analisado e vencido, e muitas vezes reagem com hostilidade e a sensação de terem sido “defraudadas” quando esse “direito” não é atendido. É claro que ouviram “Deus cuidará de você”, desde que eram pequenos e cantavam hinos na escola dominical, até encontrarem a forma vulgarizada da mesma idéia em diferentes filmes. Mas, em nível mais profundo, a exigência de que se cuide deles – sobretudo porque a hostilidade surge tão rapidamente quando há frustração – é uma função de algo mais íntimo e creio que sua dinâmica advém do fato de que essas pessoas tiveram tanto a que renunciar. Cederam aos pais a capacidade e o direito de fazer julgamentos morais e naturalmente a outra parte do contrato tácito é terem então o direito de depender das forças e do juízo paternos, como o escravo depende do senhor. De maneira que se sentem defraudadas caso os pais – ou mais provalvelmente um substituto dos pais, como o analista ou Deus – não lhes dispense atenções especiais.

Aprenderam que felicidade e sucesso resultariam de seu “bom comportamento”, o último em geral interpretado pela obediência. Mas ser simplesmente obediente, conforme demonstramos acima, compromete o desenvolvimento da percepção ética do indivíduo e sua força interior. Obedecendo às exigências externas durante um longo período de tempo, perde sua verdadeira capacidade para fazer uma opção responsável, segundo a ética. Por estranho que pareça, fica diminuída a sua aptidão para fazer o bem e alcançar a alegria resultante. E uma vez que a felicidade não é uma recompensa pela virtude, conforme observou Spinoza, e sim a própria virtude, a pessoa que renuncia à sua autonomia ética renuncia também, no mesmo grau, à capacidade de alcançar a virtude e a felicidade. Não é surpreendente que se sinta ressentida.

Examinaremos mas concretamente aquilo que a que foram forçados a renunciar ao verificarmos de que modo a “moral da obediência” e a ênfase em “ser bom submetendo-se” conquistou seu lugar na cultura moderna. Assume sua forma atual graças sobretudo aos padrões copiados ao desenvolvimento do industrialismo e capitalismo nos últimos quatro séculos. A subordinação à uniformidade mecânica, a organização da vida segundo as exigências do trabalho e da economia, trouxeram, de fato, resultado financeiro e, portanto, social na maior parte do período moderno. É possível argumentar, e convencer, que a salvação é resultado da obediência, pois se a pessoa obedecer às exigências de trabalho da sociedade industrial geralmente acumula riqueza. Quem leu sobre o talento para negócios dos primeiros quakers e puritanos, por exemplo, sabe o quanto as atitudes em relação ao dinheiro e à moral andaram juntas. O “dólar quaker” era um consolo concreto pelo grande ressentimento das classes médias decorrente das privações emocionais sofridas através do sistema da obediência.

Mas, conforme observamos em capítulo anterior, os tempos mudam e em nossos dias “deitar cedo e cedo levantar-se” pode tornar uma pessoa saudável, mas não lhe dá garantia de riqueza e sabedoria. Os preceitos de Benjamin Franklin, diligência e fidelidade diária à rotina de trabalho, não mais garantem o sucesso.

Além do mais, a pessoa religiosa, especialmente quando ministro, ou de qualquer modo dedicada a um trabalho religioso, precisa renunciar a uma atitude realista com referência ao dinheiro. Não se espera que exija tal ou qual salário. Em diversos círculos é considerado “pouco elegante” falar de dinheiro, como se ser remunerado, à semelhança das atividades excretoras, fosse uma parte necessária da vida, embora o ideal seja agir como se não existissem. Grupos trabalhistas, adaptando-se às mudanças econômicas da indústria em massa, reconheceram que Deus não manda o cheque de pagamento pela boca do corvo, como o alimento enviado a Elias, e aprenderam por intermédio dos seus sindicatos a fazer pressão para conseguir salários adequados. Mas as pessoas que trabalham em cargos religiosos não podem fazer greve para conseguir salários mais altos. Supõe-se que a Igreja, em compensação, cuide financeiramente, e em outros sentidos, dos seus ministros, que recebem descontos em lojas e passagens. O ensino nos seminários é inferior ao de outras instituições, o que não aumenta, em nossa cultura, o respeito do ministro por si mesmo e o dos outros pela sua pessoa. O fato de não se esperar que o religioso tome medidas para garantir sua segurança financeira é outra prova da suposição tácita de que a segurança material virá automaticamente se a pessoa for “correta”, suposição ligada de perto à crença de que Deus toma conta de seus fiéis.

Assim é fácil ver por que a pessoa que aprendeu a submeter-se e descobre, mais cedo ou mais tarde, que não obtém recompensa nem sequer econômica pelo sacrifício, e muito menos felicidade, sente tanto ressentimento e ira. É este ressentimento recalcado que constitui a dinâmica da exigência de ser bem cuidado. É como se a pessoa dissesse: “Prometeram cuidar de mim se eu fosse obediente. Eu fui. Então, por que não me protegem?”

A crença no “divino direito de ser cuidado” acarreta muitas vezes o sentimento de que se pode mandar nos outros; isto é, se alguém acredita que se possa estar sujeito a outros, não só se submeterá a uma pessoa mais poderosa para ser cuidado, como se sentirá na obrigação de cuidar e mandar em alguém inferior a si mesmo. Esta tendência manifestou-se, em sua forma mais sadista, na declaração de um homem que, ao ser interrogado sobre sua habilidade em controlar o rapaz mais jovem com quem vivia, a ponto de receber seu pagamento aos sábados e forçá-lo a viver de mesada, respondeu: “Não sou acaso guarda de meu irmão”?

Não tentaremos explicar as razões pelas quais as tendências dominadoras e submissivas andam de mãos dadas e o masoquismo é sempre o reverso do sadismo. Erich Fromm debateu de maneira clássica tais pontos em seu livro “Escape from freedom” (Fuga à liberdade). Desejamos apenas observar que a pessoa que exige cuidados tenta, de modo geral, por métodos sutis, exercer ao mesmo tempo seu poderio sobre outras. Goethe expressa muito bem esta verdade psicológica:

[...] pois que é incompetente para governar seu ser interior é bem capaz de abalar a vontade de um semelhante, mesmo enquanto a própria mente orgulha inclina.

Outra tendência alimentada pela dependência religiosa é a de auferir sentimentos de dignidade, prestígio e poder pela identificação com outra pessoa. Em geral, o processo toma a forma de identificação com a figura idealizada de um ministro, padre, rabino, bispo, ou qualquer pessoa de poder e prestígio que lhe seja superior hierárquico. Esta tendência, repetimos, não está confinada à religião; encontra-se presente nos negócios, na política e em outros aspectos da vida comunitária. É um fenômeno freqüente em psicoterapia, chamado transferência, e manifesta-se, entre outras maneiras, na necessidade do paciente de prestigiar o analista, a fim de adquirir prestígio pelo fato de a ele estar associado. Mas, em análise, isto é considerado um problema a ser eventualmente resolvido, e de maneira que o terapeuta seja visto com realismo pelo paciente e que este obtenha seus sentimentos de valor e prestígio de suas próprias ações e não das do analista. Esta tendência, na religião, parece repousar em nível mais profundo que em outras áreas de convívio social, e é reforçada por interpretações adulteradas de “sofrimento pelo próximo” e “expiação”. É como se cada qual tentasse viver por intermédio de outra pessoa, a ponto de ninguém saber onde de fato se encontra. Supreende com facilidade com que o ensinamento do amor cristão pode deteriorar-se, transformando-se no acordo generalizado: “Se você se responsabilizar por mim, eu me responsabilizarei por você”.

As maneiras neuróticas de se usar a religião têm algo em comum: por seu intermédio o indivíduo evita enfrentar a própria solidão e ansiedade. Deus é transformado num “papa cósmico”, segundo a expressão de Auden. Quando assume esta forma, a religião é uma racionalização para disfarçar a compreensão – que contém uma boa dose de terror para os que a levam a sério – de que o ser humano, em suas profundezas, está basicamente só e que é inevitável, em última análise, fazer sozinho suas opções.

[...] é absoluto
Terror e solidão
Que impelem o homem
A chamar de “Vós” o vazio (Edna St. Vincent Millay. “Conversation at midnight”) Harper & Brothers, 1937).

Assim fala um personagem de “Conversation at midnight” (Conversa à meia-noite), de Edna St. Vincent Millay. Mas se a necessidade de fugir ao terror e à solidão são os principais motivos de a pessoa voltar-se para Deus, sua religião não a tornará forte e amadurecida; e nem sequer lhe dará segurança futura. Paul Tillich, escrevendo do ponto de vista teológico, observa que a pessoa os enfrente em sua crua e total realidade. Esta verdade é igualmente válida do ponto de vista psicológico. A maturidade e eventual domínio da solidão só se tornam possíveis quando a pessoa corajosamente aceita, de início, sua própria solidão.

Ocorreu-me muitas vezes que a razão pela qual Freud podia trabalhar com tanta coragem e propósito inabalável durante os últimos quarenta anos de sua vida foi ter vencido a luta para evoluir e trabalhar sozinho naqueles primeiros anos em que, após se ter separado de Breuer, fez suas pesquisas em psicanálise sem colegas ou colaboradores. Parece-me, além disso, que esta é a luta que figuras criativas como Jesus venceram no deserto, e que o verdadeiro significado das tentações não foi o desejo de pão ou de poder e sim, conforme as palavras do demônio, lançar-se do alto da montanha para provar que Deus o protegia:

“Ele entregará aos anjos o seu cuidado;
Nas mãos o levarão,
Para quer nas pedras não tropece.

Quando a pessoa consegue dizer “não” ao impulso para ser “cuidada”, quando, em outras palavras, tem a coragem de ficar sozinha, pode então falar com autoridade. A recusa de Spinoza em fugir à excomunhão de sua igreja e comunidade não significaria que vencera a mesma luta interior pela integridade, pela capacidade de não temer a solidão, sem as quais a “Ética”, certamente uma das maiores obras de todos os tempos, não teria sido escrita?

Contudo, Spinoza faz uma declaração que irrompe como uma aragem fresca no pântano mórbido e nevoento da dependência religiosa: “Quem ama a Deus não deve esperar por ele ser amado”. Nessa expressiva frase fala o homem corajoso, que sabe que a virtude é felicidade, e não um recibo para obtê-la; que o amor de Deus é a sua própria recompensa; que a beleza e a verdade devem ser amadas porque são boas, e não porque redundarão em crédito do artista, cientista, ou filósfo que as ama.

Spinoza, naturalmente, não sugeria de modo algum a atividade de mártir, masoquista, que sua frase poderia assumir aos olhos de alguns. Ele a enuncia de maneira mais inequívoca, a característica fundamental de uma pessoa objetiva, amadurecida, criativa (em suas palavras, a pessoa abençoada e alegre), que tem a capacidade de amar algo por si mesmo e não pelos benefícios que poderá obter, ou pela sensação de prestígio e poder que lhe adviriam de empréstimo.

Não há dúvida de que a solidão e a ansiedade podem ser enfrentadas de maneira construtiva. Embora isto não possa ser feito por intermédio do “deus ex machina” de um “papa cósmico”, será conseguido se o indivíduo enfrentar diretamente as várias crises do seu desenvolvimento, passando da dependência à maior liberdade e integração, desenvolvendo e utilizando suas aptidões e relacionando-se com os seus semelhantes através de trabalho criativo e de amor.

Isto não quer dizer que não haja autoridade na religião ou em qualquer outro setor. Quer isto sim dizer que a questão da autoridade deve ser encarada em sentido contrário, ou por outra, como uma questão de responsabilidade pessoal. Pois o autoritarismo (a forma neurótica da autoridade) aumenta na proporção direta em que o indivíduo tenta evitar a responsabilidade dos próprios problemas. É precisamente em análise, por exemplo, que o paciente sente alguma ansiedade particular e procura a autoridade do analista. E o fato de que em tais ocasiões tende a identificar-se com o terapeuta, com Deus e com seus pais constitui outra prova desta afirmação: está em busca de alguém a cujo cuidado possa se entregar. Felizmente não é difícil demonstrar que o analista não é Deus – e é um dia importante para o paciente aquele em que descobre tal fato e não fica assustado. Emm vez de tentar discutir consigo mesmo e com os outros sobre os méritos de diferentes atitudes, portanto, é melhor inicialmente enfrentar a si mesmo, perscrutar-se com a indagação: “Qual a ansiedade que me faz desejar voar para as asas de uma autoridade, e qual o problema a que estou procurando fugir?”

O resultado desta discussão é que a religião é construtiva quando fortalece na pessoa seu senso de dignidade e valor, ajuda-a a confiar no uso e desenvolvimento de sua consciência ética, liberdade e responsabilidade pessoal. Assim a fé ou as práticas religiosas não poder ser chamadas “boas” ou “más” em si mesmas. A questão é: até que ponto a crença ou prática, para determinada pessoa, é uma fuga á liberdade, um modo de se tornar “menos” pessoa? Até que ponto é um modo de fortalecê-la no exercício de sua responsabilidade e capacidade ética? A pessoa louvada na parábola de Jesus não foi a que estava temerosa e “enterrada” seu talento, e sim a que corajosamente o usou; sendo “boa e fiel”, recebeu maior poder.

Do livro "O Homem à Procura de Si Mesmo, Rollo May.


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