sexta-feira, 15 de julho de 2011

A Consciência Criativa - Excertos do livro "O homem à procura de si mesmo", Rollo May




A consciência Criativa: conquistando a Liberdade a partir da negação das autoridades constituídas

O homem é um “animal ético” – ético em potencialidade, ainda que, infelizmente, na realidade não o seja. Sua capacidade de juízo ético – como a liberdade, a razão e as outras características exclusivas do ser humano – baseia-se na consciência de si mesmo.  

Há alguns anos, o Dr. Hobart realizou uma notável experiência no laboratório psicológico de Harvard. A finalidade era testar o senso “ético” dos ratos. Poderiam eles avaliar a longo prazo as boas e as más conseqüências de seu comportamento e agir de acordo? Bolinhas de comida foram lançadas num recipiente, diante dos animais esfomeados, mas segundo o plano eles teriam que aprender uma espécie de etiqueta – esperar três segundos antes de agarrar o alimento. Se não esperassem receberiam um castigo na forma de um choque elétrico no fundo da gaiola.



Quando o castigo ocorria imediatamente após terem agarrado com voracidade o alimento, muit breve aprendiam a esperar “delicadamente” para depois saboreá-lo em paz. Isto é, mostraram-se capazes de integrar seu comportamento ao “espere um momento, senão sofrerá as conseqüências”. Mas quando o castigo só ocorria nove ou doze segundos depois que os ratos haviam infringido a regra de etiqueta, eles sentiam dificuldades em aprender com a punição. Tornavam-se “delinqüentes” – isto é, agarravam o alimento de qualquer maneira, sem se importar com o castigo. Ou então tornavam-se “neuróticos”, recusando completamente a comida, ficando esfomeados e frustrados. O essencial é que não conseguiam equilibrar a “futura má conseqüência” de uma ação com o desejo “presente” de comer.

Estas pequena experiência revela a diferença entre ratos e homens. O homem pode “olhar o passado e o futuro”; transcender o momento imediato, recordar o passado e planejar o futuro e assim escolher o maior bem, que só ocorrerá mais tarde, de preferência a um bem menor e imediato. É igualmente capaz de sentir as necessidades e os desejos alheios, imaginar-se no lugar de outro e assim fazer suas opções com vistas ao bem de seus semelhantes, e a seu próprio. Este é o começo da capacidade, por mais rudimentar e imperfeita que se apresente na maioria, do “ame teu semelhante” e da consciência do relacionamento entre os seus atos e o bem-estar da comunidade.

O ser humano não só “pode” fazer tais escolhas de valores e metas como também é o animal que “deve” fazê-la, caso deseje chegar à integração. Pois o valor – a meta em direção à qual caminha – serve-lhe de centro psicológico, uma espécie de força integradora que reúne sua capacidade, como um ímã concentra as suas linhas de força. Observamos em capítulo anterior que saber o que se “quer” é essencial ao aparecimento da capacidade de auto-orientação na criança e no jovem. Saber o que se quer é simplesmente a forma elementar do que, na pessoa madura, é a aptidão para escolher seus próprios valores. A característica do homem amadurecido é ter sua vida integrada às metas por ele mesmo escolhidas: sabe o que quer, não apenas como um criança que deseja um sorvete, mas como um adulto que planeja e trabalha em direção a um relacionamento amoroso criativo, ou uma transação comercial, ou seja o que for. Ama os membros de sua família, não porque foram reunidos pelo acidente do nascimento, mas porque os acha apreciáveis e os ama por escolha; e trabalha não por rotina, mas porque acredita conscientemente no valor do que está fazendo.

Vimos em capítulo anterior que a ansiedade, confusão e vazio – as doenças crônicas psíquicas do homem moderno – ocorrem principalmente porque seus valores são confusos e contraditórios e porque não possui âmago psíquico. Podemos agora acrescentar que o grau de força íntima e integridade do indivíduo dependem da medida de sua crença nos valores que pautam sua vida. Neste capítulo estudamos como alguém pode optar com madureza e criatividade e afirmar tais valores.

Em primeiro lugar, seus valores e os meus – e a nossa dificuldade e afirmá-los – muito dependem do período em que vivemos. É sempre assim: numa época de transição, quando o ceticismo e a dúvida acompanham todas as idéias, a tarefa do indivíduo torna-se mais difícil. Goethe, que não teve motivos para rufar tambores pela fé tradicionalista, escreveu: “Todas as épocas dominadas pel fé, seja qual for a sua forma, são gloriosas, exaltantes e frutíferas, trazendo prosperidade. Todas as épocas, por outro lado, em que o ceticismo, fosse qual fosse sua forma, apresentasse um precário triunfo, ainda que de esplendor reflexo, perderam seu significado...” Poruqe ningúem sente prazer em debater “o que é essencialmente estéril”.

Se nestas palavras um tanto grandiloqüentes Goethe por fé entende as convicções que impregnam a sociedade, dando-lhe um significado e imprimindo-lhe nos membros um senso de propósito, sua declaração foi confirmada pela história. Basta recordar a Grécia de Péricles, os tempos de Isaías, Paris do século XIII, a Renascença e o século XVII para verificar como as convicções partilhadas concentraram as forças criativas do período.

Mas nas fases de transição e desintegração, como o final do período helênico e o crepúsculo do medievalismo, a “fé” tende também a emergir. Em geral, duas coisas sucedem então. Primeiro, as crenças e tradições herdadas tendem a cristalizar-se, suprimindo a vitalidade individual. Por exemplo – os símbolos usados com freqüência na fase decadente da idade média tornam-se fórmulas secas, vazias, fáceis de manejar, mas carentes de conteúdo. Segundo, acontece nessas épocas de transição que a vitalidade se divorcia da tradição e torna-se rebeldia difusa, perdendo a força como a água que flui no solo em todas as direções. Foi mais ou menos o que aconteceu na década de 20, nos Estados Unidos.

Não será este o nosso dilema, hoje em dia? Não estaremos presos entre tendências autoritaristas de um lado e uma vitalidade sem diretiva, de outro? Se os leitores interpretassem a história da mesma maneira que eu – e não há dúvida de que ela pode ser interpretada de diferentes ângulos – todo mundo concordaria em que no tempos de instabilidade social, como o nosso, as pessoas sofrem por se sentirem “sem raízes” e tendem a agarrarem-se à autoridade e às instituições estabelecidas como uma fonte de segurança em meio à tempestade. É o que o Dr. E a Sra. Lynd observam em seu estudo de uma cidade americana durante a depressão, em “Middletown em tradição”: “A maioria das pessoas é incapaz de tolerar as tranformações e a incerteza em todos os setores da vida ao mesmo tempo”. Assim, os cidadãos de Middletown voltavam-se para crenças mais conservadoras em economia e política, atitudes morais mais rígidas e procuravam em número cada vez maior as igrejas conservadoras, fundamentalistas, de preferência às liberais. 

O perigo, em pleno século XX, é que as pessoas, tontas, confusas e às vezes até em pânico, sem saber em que devem acreditar (como aconteceu na Europa, na década de 30) adotem valores destrutivos. O comunismo surge para “preencher o vácuo da fé, causado pelo desmoronar da religião estabelecida”, escreve Arthur M. Schlesinger Jr. “Proporciona uma finalidade, curando a agonia interior da ansiedade e da dúvida”. Talvez não temamos que este país se torne comunista – e eu não temo – mas a inclinação para os valores destrutivos manifesta-se de outras maneiras em nossa sociedade. Há nítidos sinais de correntes diretivas, reacionárias, em crescimento – na religião, na política, na educação, na filosofia e em tendências para o dogmatismo na ciência. Quando as pessoas se sentem ameaçadas e ansiosas tornam-se mais rígidas, e quando em dúvida tendem a tornar-se dogmáticas, perdendo assim sua vitalidade. Usam dos remanescentes dos valores tradicionais para construir uma carapaça protetora e depois encolhem-se por detrás dela; ou então fazem uma retirada estratégica em direção ao passado.

Muitos estão percebendo, porém, que a fuga para o passado é inútil. Felizmente, livros como “Return to religion” (Volta à religião), de Henry Link, têm influência tão curta como popularidade temporária. Tais esforços são fundamentalmente autodestrutivos: nunca se pode buscar uma “força exterior”. O ressurgimento do interesse religioso provocado, como nos conturbados tempos helênicos, por “falta de coragem”, como disse Gilbert Murray, não fará bem algum à sociedade ou aos indivíduos. Por mais difícil que seja a tarefa, devemo-nos aceitar a nós mesmos e à sociedade em que vivemos, e buscar uma ética através da compreensão mais profunda de nós mesmos e de uma corajosa confrontação de nossa situação histórica.  

Nos últimos anos surgiu um novo movimento diferente da “volta à religião”. Vários intelectuais e pessoas de sensibilidade vêm tomando consciência cada vez mais nítida de sua perda por estarem desligados das tradições ético-religiosas da nossa cultura; e julgam que os que não conhecem o pensamento de Isaías, Jó, Jesus, Buda, Lao-tzu estão perdendo algo de crucial importância numa época em que o homem precisava redescobrir seus valores. Voltaram-se então, com renovado interesse, para a sabedoria religiosa do passado. Indicações desta tendência pode ser encontradas nos artigos de David Riesman, tais como “Freud, ciência e religião”, publicados no “The American Scholar”, e nos escritos de Hobart Mowrer. Quatro números consecutivos das “Partisan Review” de 1950 foram inteiramente dedicados a artigos de autoria de uma série de romancistas, poetas e filósofos, sob o tópico “A religião e o intelectual”.

Na medida em que esta tendência deixa de ser um simples produto da ansiedade dos nossos tempos – como de fato não é, nos melhores casos – mostr-se realmente salutar. Mas o perigo reside no fato  de que alguns intelectuais, novos neste âmbito e portanto menos capazes de diferenciação imediata, são inclinados a adotar os aspectos mais óbvios e menos sólidos da tradição religiosa. Se seu interesse pela religião contribui principalmente para a amplicação do autoritarismo e das reação ficaremos mais perdidos ainda.

O verdadeiro problema é, portanto, distinguir o que há de sadio na ética e na religião, proporcionando segurança que amplie em vez de diminuir o valor pessoal, a responsabilidade e a liberdade. Comecemos, como nos capítulos anteriores, por perguntar como nasce e evolui uma sadia consciência ética no ser humano.

“Adão e Prometeu”

O homem é um animal ético, mas chegar à percepção ética não é fácil. Ele não evolui para o juízo ético como a flor para o Sol. Na verdade, como a liberdade e os outros aspectos da auto-consciência, a percepção ética só é conquistada ao preço de conflitos íntimos e ansiedade.

Esse conflito é expresso naquele fascinante mito do primeiro homem, a história bíblica de Adão. Conto da antiga Babilônia, reescrito e levado para o Antigo Testamento em cerca de 850 a.C., demonstra como o “insight” ético e a autoconsciência nasceram ao mesmo tempo. Como a lenda de Prometeu e outros mitos, a história de Adão e fala a verdade clássica de geração a geração, não porque se refira a um determinado acontecimento histórico, mas porque representa uma profunda experiência interior, partilhada por todos os homens.

Adão e Eva, diz a narrativa, vivem no jardim do Éden, onde Deus “colocou todas as espécies de plantas agradáveis à vista e boas para o alimento”. Nesta terra deliciosa os dois não conhecem nem trabalho, nem necessidades. Mais importante ainda, não sofrem nem ansiedade, nem remorsos: “não sabem que estão nus”. Não precisam lutar para ganhar seu sustento, nem conhecem conflitos psicológicos no seu íntimo, ou espirituais em relação a Deus.

Mas Deus ordenou a Adão que não comesse da árvore da ciência do bem e do mal, e das árvore da vida, “pois se tornaria como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Quando Adão e Eva comeram do fruto da primeira árvore “seus olhos se abriram”; e a primeira evidência do seu novo conhecimento foi a ansiedade e o remorso. “Perceberam que estavam nus”, e quando o senhor surgiu no paraíso para seu passeio diário, como diz o autor em seu estilo ingênuo e encantador, Adão e Eva esconderam-se entre as árvores.

Irado com a desobediência, Deus castigou-os. A mulher foi condenada a desejar sexualmente seu marido e a sofrer dores no parto e ao homem Deus castigou com o trabalho.

“Com o suor do teu rosto
Ganharás a vida,

Até voltares ao pó...”
Pois tu és pó

E em pó te hás de tornar”.

Esta história notável descreve, na verdade, à maneira primitiva do povo da Mesopotâmia, o que acontece na evolução de todo ser humano entre a idade de um e três anos, isto é, a emergência da auto-percepção.

Antes disso o indivíduo vive no jardim do Éden, símbolo da existência no ventre materno e da primeira infância, quando se encontra totalmente aos cuidados dos pais e tem vida cercada de carinho e conforto. O paraíso representa aquele estado reservado aos bebês, animais e anjos, onde não existem a responsabilidade e os conflitos éticos; é o período da inocência, no qual “não se conhece nem vergonha, nem remorso”. Esse quadro do paraíso sem atividades produtiva surge em diferentes formas na literatura e é um típico anseio romântico pelo estado que precede a autoconsciência, ou outro, mais extremo, com o qual o período da inocência tem muito em comum do ponto de vista psicológico, isto é, a vida no seio materno.

Com a perda da “inocência” e os primeiros rudimentos da sensitividade ética, o mito prossegue indicando que a pessoa herda determinados encargos de autoconsciência, ansiedade e sentimentos de culpa. Além disso possui uma percepção – embora só surja talvez mais tarde – de que “é pó”, isto é, compreende que algum dia morrerá, torna-se cônscio de ser finito.

Do lado positivo, ofato de ter comido do fruto que lhe proporciona conhecimento do certo e do errado representa o nascer da pessoa psicológica e espiritual. Na verdade, Hegel falou desse mito da “queda” do homem como uma “queda para cima”. Os primeiros hebreus que colocaram o mito no livro do Gênesis poderiam tê-lo transformado numa ocasião para cantos celestiais de regozijo, pois foi neste dia – e não no da criação de Adão – que o ser humano nasceu. Mas o surpreendente é que tudo isto é representado como se estivesse acontecido “contra” a vontade e os mandamentos de Deus. O Senhor surge irado porque “o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal; e suponhamos agora que que estendesse a mão e tomasse o fruto também da árvore da vida e, ao comê-lo, vivesse para sempre!”

Devemos crer que este Deus não desejava que o homem tivesse conhecimento e sensitividade ética – esse Deus que, conforme aprendemos no capítulo anterior do Gênesis, criou o homem à sua imagem, isto é, semelhança em relação à liberdade, criatividade e opção ética? Devemos supor que Deus desejava consevar o homem num estado de inocência e cegueira psicológica e ética?

Tais implicações estão em tal desacordo com o “insight” psicológico do mito que precisamos encontrar outras explicações. Não há dúvida de que a história, vindo como vem daquele obscuro período de 3.000 a 1.000 a.C., apresenta um ponto de vista primitivo. É compreensível que os primeiros contadores de histórias não soubessem distinguir entre rebelião e autoconsciência construtiva, considerando que muita gente, mesmo hoje em dia, acha difícil fazer essa distinção. Além do mais, o deus do mito é Javé, a mais antiga entidade tribal hebraica, conhecida como ciumenta e vingativa. Foi contra os modos cruéis e sem ética de Javé que os últimos profetas hebreus protestaram.

Podemos esclarecer esta estranha contradição do mito de Adão se observarmos os mitos gregos paralelos de Zeus e dos outros deuses do Olimpo, surgidos na mesma época. O mito grego mais próximo à história de Adão é o de Prometeu, que roubou fogo dos deuses e deu-o aos seres humanos para que se aquecessem e produzissem. O enraivecido Zeus, observando, um noite, um brilho na Terra, verificou que os mortais possuíam fogo e, agarrando Prometeu, arrastou-o ao Cáucaso, acorrentando-o ao pico de uma montanha. A tortura imaginada pela fértil imaginação de Zeus foi mandar que um abutre se banqueteasse durante o dia com o fígado de Prometeu e que a víscera crescesse durante a noite, para que a ave novamente o atacasse, atormentando-o eternamente.

Do ponto de vista do castigo, Zeus ganhava de Javé em crueldade, pois o deus grego, irado porque o homem possuía fogo, amontoou todas as doenças, tristezas e vícios numa caixa dando-lhes a forma de criaturas aladas e mandou que Mercúrio a levasse para o paraíso terreno (que lembra o Jardim do Éden) onde Pandora e Epitemeu viviam em tranqüila felicidade. Quando a mulher, curiosa, abriu a caixa, os males escaparam e a a humanidade passou  a ser afligida por infindáveis tormentos. Esses elementos demoníacos nas atitudes dos deuses em relação ao homem não representam, com certeza, um bonito quadro.

Como a história de Adão é o mito da autoconsciência, o de Prometeu é o símbolo da criatividade – a maneira de levar novos métodos de vida à humanidade. Na verdade, o nome Prometeu significa “previsão” e, conforme observamos, a capacidade para ver o futuro e planejar é simplesmente um aspecto da autoconsciência. A tortura de Prometeu representa o conflito íntimo que surge com a criatividade – simboliza a ansiedade e o remorso aos quais está sujeito o homem que ousa trazer à humanidade novas formas de vida, como atestaram as figuras criativas de Miguel Ângelo, Thomas Mann, Dostoievski e inúmeros outros. Mas, como no mito de Adão, Zeus tem ciúmes dos esforços do homem e é vingativo no castigo. De modo que nos encontramos diante do mesmo problema: qual o significado dos deuses combatendo a criatividade do homem?

Não há dúvida de que existe rebelião contra a divindade, tanto nas ações de Adão, como nas de Ptolomeu. Este é o ângulo que dá sentido aos mitos. Pois gregos e hebreus sabiam que quando o homem tenta saltar sobre suas humanas limitações, quandom comete o pecado de ultrapassar-se (como fez Davi ao tomar a mulher de Urias) ou comete “hubris” (como o orgulhoso Agaménon ao consquistar Tróia), ou se arroga o poderio universal (como na moderna ideologia fascista), ou sustenta que seu conhecimento limitado é a verdade definitiva (como a pessoa dogmática, seja religiosa ou cientista), então ele se torna perigoso. Sócrates tinha “razão”: o início da sabedoria é a admissão da própria ignorância, e o homem pode utilizar criativamente suas forças e até certo ponto transcender de suas limitações somente quando com humildade e franqueza admite essas limitações. Os mitos são sadios em sua advertência contra o falso orgulho.

Mas a rebeldia que contém é, ao mesmo tempo, claramente construtiva: daí não podermos classificá-los como simples quadros da luta do homem contra seu próprio orgulho e condição de ser finito. Eles retraíam a verdade psicológica, segundo a qual o “abrir do olhos” da criança e a conquista da autopercepção envolvem sempre um conflito em potencial com os que estão no poder, sejam deuses ou pais. Mas por que deveria ser condenada esta revolta em potencial, sem a qual a criança jamais estaria apta para a liberdade, a responsabilidade, a opção ética e as mais preciosas características do homem permaneceriam adormecidas?

Supomos que nesses mitos fala o velho conflito entre a autoridade entrincheirada, representada pelos deuses enciumados, e o surgimento da criatividade e de uma nova vida. A emergência de uma nova vitalidade quebra sempre, até certo ponto, os costumes e as crenças em vigor, ameaçando assim e provocando ansiedade tanto nos que detêm o poder, como na pessoa em crescimento. E os que representam o “novo” talvez se encontrem num conflito mortal com os poderes vigentes como sucedeu com Orestes e Édipo. A ansiedade de Adão e a tortura de Prometeu dizem-nos também, psicologicamente, que dentro da própria pessoa criativa existe o medo de progredir. Nesse mito fala não só o lado corajoso do homem, como o lado servil, que prefere o conforto à liberdade, a segurança ao próprio crescimento. O fato de que no mito de Adão e Eva os castigos são o “desejo sexual” e o “trabalho prova o que dizemos. Pois não é a ânsia para estar perpetuamente cercado de cuidados que nos conduz a conceber do trabalho – oportunidade para cultivar o solo, produzir alimento, criar pela força manual – a idéia de “castigo”? Não seria o lado ansioso da pessoa que conceberia o desejo sexual em si mesmo como um castigo – e decidisse castrar-se como Orígenes o fez na verdade, para evitar conflitar-se com o desejo? Não há dúvida de que a ansiedade e a culpa que acompanham o fato de ter que produzir o próprio sustento e os problemas envolvidos no desejo sexual, assim como em outros aspectos da autopercepção, são sempre penosos. Há ocasiões em que trazem em seu encalço grande conflito e sofrimento. Mas quem diria que – exceto em casos extremos como a psicose – a ansiedade e os sentimentos de culpa são preços altos demais pela ventura do auto-conhecimento, da criatividade – em suma, um preço excessivo pela capacidade de ser uma pessoa humana, e não um bebê inocente?


Tais mitos demonstram o lado dogmático de todas as tradições religiosas – gregas, hebraicas ou cristãs – que lutam contra novos “insights” éticos. É a voz de Javé, o deus ciumento e vingativo; é a voz do rei que, ciumento de sua posição de poder, abandonou seu filho aos lobos, como o pai de Édipo; é o chefe ou o sacerdote da tribo, que tende anular o jovem, o novo, o que evolui; são as crenças dogmáticas e os rígidos costumes que resistem à nova criatividade.

Não há dúvida de que toda sociedade deve conhecer ambos os aspectos – as influências que trazem à luz novas idéias e “insights” éticos, e as instituições que conservam os valores do passado. Nenhuma sociedade sobreviveria muito tempo sem vitalidade, ou sem as antigas formas, sem mudanças e estabilidade, sem religião profética qu ataca as instituições existentes e aquela que as protege.

Mas o nosso problema em particular, no dia de hoje, conforme vimos, é uma forte tendência para a conformidade. A pessoa orientada pelo radar, tentando desesperadamente viver segundo o que o grupo já espera, evidentemente considera a moral um “ajuste” aos padrões de seu grupo. Num tempo assim a ética tende cada vez mais a identificar-se com a “obediência”. A pessoa é “boa” até o ponto em que obedece aos ditames da sociedade e da Igreja. Uma visão não-crítica do mito de Adão torna-se uma boa racionalização de tais tendências – pode-se observar que se Adão não houvesse desobedecido jamais teria sido expulso do Paraíso. Isto é muito mais atraente do que se pensa para as pessoas que vivem em nossos tempos conturbados, pois o estado simbolizado pelo paraíso, onde não há cuidados, faltas, ansiedades, conflitos ou exigências de responsabilidade pessoal, é muito desejável nesta época de ansiedade.

Assim, coloca-se implicitamente um prêmio em “não” desenvoler a auto-consciência. É como se a mais completa obediência, e a menos pessoal responsabilidade, fosse o melhor.

Mas que há de ético na obediência? Se a meta de alguém for a simples obediência, poderia um cão ser treinado para preencher os mesmos requisitos. Na verdade, o cão teria mais ética que seus senhores humanos, uma vez que não pode carregar consigo a sempre presente possibilidade de um explosão neurótica, naforma de um acidente de desobediência, ou um protesto de liberdade reprimida e negada. E, ao nível sociológico, que existe de ético em conformar-se com normas aceitas? A pessoa que preenchesse esse ideal em 1900 teria que ser recalcada sexualmente, como quase todo mundo naquele período; em 1925 teria que ser levemente revoltada, segundo a moda então em voga; em 1945 orientaria suas ações pela média, conforme revelou o Relatório Kinsey. Embora se procure dignificar os padrões chamados de “culturais”, de regras morais, ou doutrinas religiosas absolutas,que existe de ético em tal conformidade? Evidentemente esse comportamento exclui a essência da ética humana – a percepção sensitiva do relacionamento único com a outra pessoa, e a elaboração, em certo grau de liberdade e responsabilidade pessoal, do relacionamento criativo.  

Um dos quadros mais notáveis do conflito entre a sensitividade ética e as instituições existentes, e da ansiedade acarretada pela liberdade, encontra-se no conto de Dostoievski: “O Grande Inquisidor”. Cristo voltou à Terra um dia, curando tranqüilamente as pessoas nas ruas, e por todos reconhecido. Isto aconteceu durante a Inquisição Espanhola, e o velho cardeal, o Grande Inquisidor, encontrando Cristo na rua, mandou prendê-lo.

Na calada da noite, o Inquisidor vai explicar ao Cristo silencioso porque jamais deveria ter voltado à Terra. Durante quinze séculos a Igreja vinha lutando para corrigir o erro inicial de Cristo ao conceder ao homem a liberdade e não lhe permitirá que desfaça seu trabalho.O erro de Cristo, diz o Inquisidor, foi que, “em lugar da rígida lei antiga”, ao homem deu um encargo: “de coração livre decidir por si mesmo o que é bom e o que é mau”, e “essa temível responsabilidade do livre-arbítrio” é demasiada para o homem. Cristo respeitava demasiado o homem, argumentava o Inquisidor, esquecendo que na verdade as pessoas querem ser tratadas como crianças  e ser levadas pela “autoridade” e o “milagre”. Deus deveria apenas ter-lhes dado o pão, como o demônio sugeriu na tentação, “mas não quisestes livrar o homem da liberdade e rejeitastes o oferecimento, pensando: “de que vale a liberdade se a obediência é comprada com o pão?... Mas, no final, eles colocarão a liberdade aos nossos pés, dizendo: ‘Façam de nós “escravos”, mas dêem-nos pão’... Esquecestes que o homem prefere a paz até a morte ao livre-arbítrio, com conhecimento do bem e do mal?  

Há pessoas fortes, heróicas, que poderiam seguir a liberdade de Cristo, continua o Inquisidor, mas o que a maioria procura é estar unida “num só unânime e harmonioso formigueiro... Digo-vos que o homem não vive atormentado por ansiedade maior do que encontrar alguém a quel possa rapidamente entregar o dom da liberdade, com o qual toda malfadada criatura nasceu”. A Igreja aceita o dom: “Nós lhes permitiremos ou proibiremos viver com suas mulhres e amantes, ter ou não ter filhos – segundo sejam obedientes ou desobedientes – e se submeterão alegremente a nós... pois isto os salvará da grande ansiedade e terrível agonia que sofrem ao tomar uma livre decisão”. O velho Inquisidor, fazendo a pergunta retórica meio triste “Por que voltastes para perturbar nossa obra?”, acrescenta que no dia seguinte Cristo será queimado.

Dostoievski não quer dizer, naturalmente, que o Inquisidor fale de todas as religiões, católica ou protestantes. Quer antes retratar o lado coercitivo da religião que procura “o unânime... formigueiro”, o elemento que escraviza a pessoa, tentando-a a ceder, como fez Esaú por um prato de lentilhas, suas mais valiosas posses – a liberdade e a responsabilidade.


Hoje em dia, portanto, a pessoa que procura valores ao redor deos quais possa integrar sua vida precisa encarar o fato de que não existe fácil nem simples saída. Não pode simplesmente “voltar à religião”, assim como não pode voltar aos pais quando a liberdade e a responsabilidade de escolha tornam-se demasiadamente pesadas. Pois há uma dupla relação entre ética e religião, a mesma que encontramos entre pais e filhos. De um lado, os profetas, através da história, nasceram e foram nutridos da tradição religiosa – basta recordar Amós, Isaías, Jesus, São Francisco, Lao-tzu, Sócrates,Spinoza e inúmeros outros. Mas, por outro lado, existe uma acirrada luta entre as pessoas de sensibilidade ética e as instituições religiosas. “Insights” éticos surgem de ataques à conformidade com os costumes vigentes. No Sermão da Montanha, Jesus sempre precede cada novo preceito com o refrão: “Foi lhes dito antigamente, mas eu lhes digo...” Este é o refrão constante do homem dotado de sensibilidade ética: novo vinho “não pode ser colocado em velhos cântaros, ou o cântaro se rompe e o vinho se derrama”. É o que sempre acontece: as pessoas criativas, como Sócrates, Kierkegaard e Spinoza, dedicam-se a descobrir um novo “espírito” oposto “lei” formalizada do sistema tradicional.

Há sempre tensão e às vezes até mesmo luta entre esses líderes da ética e as instituições religiosas e sociais existentes. Nessas lutas o líder muitas vezes ataca a Igreja e a Igreja freqüentemente o chama de inimigo. Spinoza, “filósofo intoxicado de Deus”, foi excomungado; um dos livros de Kierkegaard intitula-se “Ataque ao cristianismo”; Jesus e Sócrates são executados como “ameaças” à moral e à estabilidade social. É surpreendente notar quantas vezes o santos de um período foram chamados – fato histórico – ateus no período anterior.

Em nosso tempo, o exemplo dos que atacam as instituições religiosas, chamando-as de obstáculo à evolução ética, incluem Nietzsche, em seu protesto de que a moral cristã é motivada pelo ressentimento, e Freud, em sua crítica da religião, que reduz as pessoas a uma dependência infantil. Apesar de suas crenças teóricas, representam a preocupação ética pelo bem-estar e a realização do homem. Embora em alguns círculos seus ensinamentos sejam considerados contrários aos da religião, creio que nas futuras gerações os principais “insights”, tanto de Freud como de Nietzsche, serão absorvidos pela tradição ético-religiosa, e a religião se tornará mais rica e mais eficaz por causa desta contribuição.

John Stuart Mill observa, por exemplo, que seu pai, James Mill, considerava a religião “inimiga da moral”. Fora educado num seminário presbiteriano da Escócia, porém mais tarde retirou-se da igreja porque se recusava a crer que Deus teria criado o inferno com o conhecimento, implícito na predestinação, de que alguém para lá fosse sem ser de própria escolha. Afirmava que a religião “viciava radicalmente os padrões” de moral, fazendo-os consistir no cumprimento da vontade de um ser ao qual prodigaliza todas as frases adulatórias, mas a quem na verdade imagina eminentemente odioso”. Mill acrescenta, referindo-se a esse tipo de “descrente” de meados do século XIX: “Os melhores... são mais genuinamente religiosos no melhor sentido da palavra religião, do que os que se arrogam com exclusividade o direito ao título”.

Nicolai Berdyaev, o teólogo russo ortodoxo e filósofo, protesta contra as mesmas doutrinas sadistas a que se referiu o pai de John Stuart Mill e também contra o fato de que “os cristãos têm expressado sua piedade em inclinações, lisonjas e protestos – gestos simbólicos de servilismo e humilhação”. Como todos os profetas da história, Berdyaev observa que “combateria contra Deus em nome de Deus”, e acrescenta que é “impossível revoltar-se, exceto em relação e em nome de algum valor supremo, segundo o qual julgo aquilo que decidi combater, isto é, em nome de Deus...”

Existe um motivo comum nessas lutas entre novos “insights” e as autoridades estabelecidas, como no conflito de Adão e Javé, Prometeu e Zeus, Édipo e seu pai, Orestes e os poderes do matriarcado, ou os profetas da atual história ética do homem. Não será o mesmo motivo psicológico, em plano diferente, que descobrimos no conflito entre filho e pai? “Ou mais exatamente, o conflito entre a necessidade de cada ser humano lutar por um maior conhecimento de si mesmo, maturidade, liberdade e responsabilidade, e sua tendência a permanecer criança e agarrar-se à proteção dos pais ou de seus substitutos?

In: O Homem À Procura de Si Mesmo, Rollo May

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