quinta-feira, 9 de junho de 2011

Da Virtude Amesquinhadora


I

Quando Zaratustra chegou à terra firme não foi logo direto à sua montanha e à sua caverna, mas deu muitas voltas e fez muitas perguntas para se informar duma porção de coisas; e dizia de si para consigo, gracejando: “Eis aqui um rio que, por mil voltas, retrocede à sua nascente!” Que ele queria saber o que fora feito do homem durante a sua ausência: se se tornara maior ou mais pequeno. E um dia divisou uma fileira de casas novas; admirado, disse:





“Que significam aquelas casas? Em verdade, nenhuma alma grande as edificou como símbolo de si mesma.


Tirá-las-ia da sua caixa de brinquedos algum rapazinho idiota?


Pois torne-as a meter na caixa outro rapazinho!


E aqueles aposentos e desvãos! Poderão ali entrar e sair homens? Parecem-me feitos para bichos de sedas ou para gatos gulosos, que talvez se deixam também comer”.


E Zaratustra ficou-se a refletir. Por fim disse com tristeza: “Tudo se tornou pequeno!”


Por toda a parte vejo portas mais baixas; aquele que é da minha espécie ainda poderá talvez passar por elas, mas tem que se agachar!


Ó! quando tornarei para a minha pátria onde já não terei que me curvar... ante os pequenos?


E Zaratustra suspirou e olhou ao longe.


Nesse mesmo dia pronunciou o seu discurso sobre a virtude amesquinhadora.




II


“Passo pelo meio deste povo e abro os olhos; esta gente não me perdoa que eu lhe não inveje as virtudes.


Querem morder-me por eu lhes dizer que as pessoas pequenas necessitam pequenas virtudes, e porque me é difícil conceber que sejam, necessárias as pessoas pequenas.


Estou aqui como galo em terreiro estranho, que até as galinhas lhe querem picar; mas eu nem por isso conservo rancor a tais galinhas.


Sou indulgente com elas como com a pequena moléstia; ser espinhosos para com os pequenos parece-me um proceder digno de ouriços.


Todos falam de mim quando estão sentados à noite à roda do lar; falam de mim, mas ninguém pensa em mim.


Eis o novo silêncio que aprendi a conhecer; o rumor que fazem à minha roda, estende-me um manto sobre os pensamentos.


Eles vociferam: “Que nos quer esta sombria nuvem? Andemos com cautela, não nos traga alguma epidemia!”


E ultimamente uma mulher puxou pelo filho que se queria aproximar de mim, e gritou: “Afastai as crianças! Olhos daqueles queimam as almas das crianças!”


Quando eu falo, fogem, julgam que a tosse é uma objeção contra os ventos rijos: nada conjecturam do sussurro da minha felicidade.


“Ainda não temos tempo para Zaratustra”. — Tal é a sua objeção. — Mas, que importa um tempo que “não tem tempo” para Zaratustra?


Ainda que me glorificassem, como poderia adormecer aos seus louvores? O seu elogio é para mim um cinturão de espinhos: mortifica-me mesmo depois de o tirar.


E também aprendi isto entre eles: o que elogia como que entrega, mas em rigor quer que se lhe dê mais.


Perguntai ao meu pé se lhe agrada essa maneira de elogiar e de atrair! Verdadeiramente não quer bailar nem estar quieto a esse som e compasso.


Procuram elogiar-me a sua modesta virtude e atrair-me para ela; quiseram arrastar o meu pé ao som da modesta felicidade.


Eu passo pelo meio do povo e abro os olhos: amesquinharam-me e continuam a amesquinhar-se. Deve-se isto à sua doutrina da felicidade e da virtude.


É que também são modestos na sua virtude, porque querem ter as suas conveniências, e só uma virtude modesta se conforma com as conveniências.


Aprendem também a andar a seu modo e andar para adiante: a isto chamo eu ir coxeando. São assim um obstáculo a todos que andam depressa.


E há quem caminhe para a frente, a olhar para trás e com o pescoço estendido; de boa vontade disputaria com semelhantes corpos.


Os pés, os olhos não devem mentir nem desmentir; mas entre as pessoas pequenas há muitas mentiras.


Alguns deles querem, mas na maioria apenas são queridos. Alguns são sinceros, mas o mais deles são maus cômicos.


Há entre eles cômicos sem o saber e cômicos sem querer; os sinceros são sempre raros, principalmente os cômicos sinceros.


Escasseia o varonil: por isso as mulheres se masculinizam. Que só o que for homem bastante emancipará na mulher... a mulher.


Eis a pior das hipocrisias que tenho encontrado entre os homens: até os que mandam fingem as virtudes dos que obedecem.


“Eu sirvo, tu serves, nós servimos” — assim salmodeia também aqui a hipocrisia dos governantes.


— E ai quando o primeiro amo não é mais do que o primeiro servidor!


O meu olhar curioso deteve-se também na sua hipocrisia, e adivinhou a sua felicidade de moscas e seu zumbido à roda das vidraças assoalhadas.


Toda a bondade que vejo é pura fraqueza, toda a justiça e piedade, fraqueza pura.


São corretos, leais e benévolos uns para com os outros, como são corretos, leais e benévolos entre si os grãos da areia.


Abraçar modestamente uma pequena felicidade é o que chamam “resignação”! e ao mesmo tempo olham de soslaio modestamente para outra pequena felicidade.


No fundo da sua simplicidade só têm um desejo: que ninguém os prejudique. Por isso são amáveis com todos e praticam o bem.


Isto, porém, é covardia, conquanto se chame “virtude”.


E quando a esses mesquinhos lhes sucede falar com rudeza, eu na sua voz só ouço a farfalheira, porque toda a rajada de vento os enrouquece!


São hábeis; as suas virtudes têm dedos hábeis; mas faltam-lhes os pulsos; os seus dedos não sabem desaparecer por detrás dos pulsos.


Para eles, o que modera e domestica é a virtude; assim fizeram do lobo um cão e do próprio homem o melhor animal doméstico do homem.


“Nós colocamos a nossa caldeira mesmo no meio, — assim me confessa o seu sorriso — a igual distância dos gladiadores moribundos e dos imundos suínos”.


Isto, porém, é mediocridade, embora lhe chamem moderação.




III


Passo por entre este povo e deixo cair muitas palavras; mas não sabem receber nem aprender.


Assombram-se de eu não vir anatematizar os apetites e os vícios, e na verdade, também não vim para pôr de sobre-aviso contra os ladrões.


Admiram-se de eu não estar pronto a afinar e aguçar-lhe a sutileza: como se não tivessem ainda bastante sábios sutis, cujas vozes chiam aos meus ouvidos como rodas a que falta óleo.


E quando grito: “Maldizei todos os demônios covardes que há em vós e quereriam gemer, cruzar as mãos e adorar”, então eles clamam: “Zaratustra é ímpio”.


E os seus pregadores de resignação são os que mais vociferam, mas é justamente a esses que me apraz gritar ao ouvido: “Sim! Eu sou Zaratustra o ímpio!”


Os pregadores de resignação! Onde quer que haja ruindade, enfermidade e tinha, arrastam-se como piolhos e só por nojo os não esmago!


Pois bem! Eis o sermão que lhes prego ao ouvido: eu sou Zaratustra, o ímpio que diz: “Quem há mais ímpio de que eu, para me regozijar com a sua ensinança?”


Eu sou Zaratustra, o ímpio: aonde encontrarei semelhantes meus? Semelhantes meus são todos os que se dão a si próprios, à sua vontade se desprendem de toda a resignação.


Eu sou Zaratustra, o ímpio; no meu caldeirão cozo todos os sucessos; e só quando estão em ponto é que lhes dou as boas-vindas como sustento meu.


E mais de um acidente se me aproximou com ares de senhor; mas a minha vontade falou-lhe de uma maneira ainda mais dominante, e logo se me ajoelhou aos pés, suplicando-me lhe desse asilo e acolhesse cordialmente, dizendo em tom adulador: “Olha Zaratustra: só um amigo pode aproximar-se assim de um amigo!”


A quem falar, porém, quando ninguém tem os meus ouvidos? Por isso quero gritar a todos os ventos:


Gente mesquinha, cada vez vos amesquinhais mais! Gente acomodaticia, estai-vos esmigalhando! E acabareis por irdes a pique com a vossa infinidade de minguadas virtudes, minguadas comissões e de minguada resignação.


O vosso solo é demasiado fofo e mole! E para uma árvore se tornar grande tem que se abraçar a duras rochas com duras raízes.


Até o que omitís a tecer a teia do futuro dos homens, até o vosso nada é uma teia de aranha e uma aranha que vive o sangue do futuro.


E quando recebeis é como se furtásseis, mesquinhos e virtuosos; até entre ladrões, contudo, diz a honra: “Só se deve furtar onde não se pode saquear”.


Isto dá-se: tal é também uma doutrina de resignação; mas eu vos digo, a vós que amais as vossas comodidades: isto toma-se e tomar-se-á sempre ainda mais de vós.


Ai! se não acabardes de uma vez com essa vontade a meias! Não saberdes ser decididos tanto para a preguiça como para a ação!


Ai! se não compreenderdes estas palavras minhas: “Fazei sempre o que quiserdes; mas sede desde logo daqueles que podem querer!”


“Amais sempre o vosso próximo como a vós mesmos: mas sede desde logo dos que se amam a si mesmos — dos que se amam com grande desdém”.


Assim falava Zaratustra, o ímpio.


“Mas, para que falar, quando ninguém tem os meus ouvidos? Ainda é hora demasiada matutina para mim.


Eu sou entre esta gente o meu próprio precursor, o meu próprio canto de galo nas ruas escuras.


Chega, porém, a sua hora! Chega também a minha! A cada hora se tornam mais pequenos, mais pobres, mais estéreis: pobre erva! pobre terra!


Breve estarão na minha frente como erva seca, como uma estepe, e verdadeiramente fatigados de si mesmos, e mais sedentos de fogo que de água!


Ó! bendita a hora do raio! Ó! mistério dantes do meio-dia! Há de chegar a vez de eu os converter em corrente de fogo e em profetas de línguas de chamas.


Até profetizarão com línguas de chamas: já vem, já se aproxima o Grande Meio-dia!”


Assim falava Zaratustra.




IN: Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém, Friedrich Nietzsche

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