sábado, 23 de abril de 2011

A Psicologia dos Evangelhos Segundo Friedrich Nietzsche




           Em toda a psicologia dos Evangelhos os conceitos de culpa e punição estão ausentes, e o mesmo vale para o de recompensa. O “pecado”, que significa tudo aquilo que distancia o homem de Deus, é abolido – essa é precisamente a “boa-nova”. A felicidade eterna não está meramente prometida, nem vinculada a condições: é concebida como a única realidade – todo o restante não são mais que sinais úteis para falar dela.


          Os resultados de tal ponto de vista projetam-se em um novo estilo de vida, um estilo de vida especialmente evangélico. Não é a “fé” que o distingue do cristão; a distinção se estabelece através da maneira de agir; ele age diferentemente. Não oferece resistência, nem em palavras, nem em seu coração, àqueles que lhe são opositores. Não vê diferença entre estrangeiros e conterrâneos, judeus e pagãos (“próximo”, é claro, significa correligionário, judeu). Não se irrita com ninguém, não despreza ninguém. Não apela às cortes de justiça nem se submete às suas decisões (“não prestar juramento”). Nunca, quaisquer sejam as circunstâncias, se divorcia de sua esposa, mesmo que possua provas de sua infidelidade. – No fundo, tudo isso é um princípio; tudo surge de um instinto.

          A vida do salvador foi simplesmente professar essa prática – e também em sua morte... Não precisava mais de qualquer formula ou ritual em suas relações com Deus – nem sequer da oração. Rejeitou toda a doutrina judaica do arrependimento e recompensa; sabia que apenas através da vivência, de um estilo de vida alguém poderia se sentir “divino”, “bem-aventurado”, “evangélico”, “filho de Deus”. Não é o “arrependimento”, não são a “oração e o perdão” o caminho para Deus: apenas o modo de viver evangélico conduz a Deus – isso é justamente o próprio o “Deus”! – O que os Evangelhos aboliram foi o judaísmo presente nas idéias de “pecado”, “remissão dos pecados”, “salvação através da fé” – toda a dogmática eclesiástica dos judeus foi negada pela “boa-nova”.

          O profundo instinto que leva o cristão a viver de modo que se sinta “no céu” e “imortal”, apesar das muitas razões para sentir que não está “no céu”: essa é a única realidade psicológica na “salvação”. – Uma nova vida, não uma nova fé.


          Se compreendo alguma coisa sobre esse grande simbolista, é isto: que considerava apenas realidades subjetivas como reais, como “verdades” – que viu todo o resto, todo o natural, temporal, espacial e histórico apenas como símbolos, como material para parábolas. O conceito de “Filho de Deus” não designa uma pessoa concreta na história, um indivíduo isolado e definido, mas um fato “eterno”, um símbolo psicológico desvinculado da noção de tempo. O mesmo é válido, no sentido mais elevado, para o Deus desse típico simbolista, para o “reino de Deus” e para a “filiação divina”. Nada poderia ser mais acristão que as cruas noções eclesiásticas de um Deus como pessoa, de um “reino de Deus” vindouro, de um “reino dos céus” no além e de um “filho de Deus” como segunda pessoa da Trindade. Isso tudo – perdoem-me a expressão – é como soco no olho (e que olho!) do Evangelho: um desrespeito aos símbolos elevado a um cinismo histórico-mundial...

           Todavia é suficientemente óbvio o significado dos símbolos “Pai” e “Filho” – não para todos, é claro –: a palavra “Filho” expressa a entrada em um sentimento de transformação de todas as coisas (beatitude); “Pai” expressa esse próprio sentimento – a sensação da eternidade e perfeição. – Envergonho-me de lembrar o que a Igreja fez com esse simbolismo: ela não colocou uma história de Anfitrião no limiar da “fé” cristã? E um dogma da “imaculada conceição” ainda por cima?... – Com isso conseguiu apenas macular a concepção...

          O “reino dos céus” é um estado de espírito – não algo que virá “além do mundo” ou “após a morte”. Toda a idéia de morte natural está ausente nos Evangelhos: a morte não é uma ponte, não é uma passagem; está ausente porque pertence a um mundo bastante diferente, um mundo apenas aparente, apenas útil enquanto símbolo. A “hora da morte” nãoé uma idéia cristã – “horas”, tempo, a vida física e suas crises são inexistentes para o mestre da “boa-nova”...

          O “reino de Deus” não é uma coisa pela qual os homens aguardam: não teve um ontem nem terá um amanhã, não virá em um “milênio” – é uma experiência do coração, está em toda parte e não está em parte alguma...

            O “portador da boa-nova” morreu assim como viveu e ensinou  não para “salvar a humanidade”, mas para demonstrar-lhe como viver. Seu legado ao homem foi um estilo de vida: sua atitude ante os juízes, ante os oficiais, ante seus acusadores – sua atitude perante a cruz. Não resiste; não defende seus direitos; não faz qualquer esforço para evitar a maior das penalidades – ainda mais, a convida... E roga, sofre e ama com aqueles, por aqueles que o maltratam. Não se defender, não se encolerizar, não culpar... Mas igualmentenão resistir ao mal – amá-lo...


IN: "O Anticristo - Ensaio de uma Crítica ao Cristianismo" - Friedrich Nietzsche



3 comentários:

  1. adorei todos os textos que ainda não tinha lido..
    parabens RE..todos muito lúcidos...
    agora vou lá embaixo..sabe..a hora que eles me viram..balançaram as escamas...hahaha
    beijuuuu

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  2. foi uma delicia ficar por aqui...lendo..escutando musica..
    linda noite procê
    beijuuuu

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  3. Olá monstrinho, muito bem selecionado esse texto de Nietzsche.

    De fato, Nitzsche parece mostrar o verdadeiro sentido da "Boa Nova", que, segundo ele mesmo, foi deturpada pelo Judaísmo predominante, que ganha novo fôlego com o surgimento da igreja romana aliada ao Estado.

    A moral como fraqueza, nietszcheana nem sempre é aceita universalmente, porque em última instância, mesmo aqueles que se dizem livres dos liames da sociedade, num momento de perigo ou ameaça podem recorrer à moral dominante como forma de desbancar o "agressivo", o "bárbaro" - também havia sido por uma questão "moral" que o império romano resistiu tanto tempo ao ataque dos godos, nórdicos e bárbaros.

    Sempre que existir dois lados "brigando" por alguma coisa, quando um desses combatentes estiver por vencer o outro, a última arma desse
    outro é o apelo à MORAL, que, como nos mostra Nietzsche, historicamente ela serviu como último recurso para delibitar os fortes e proteger os fracos, se usam máscaras sociais para esconderem essa fraqueza.

    Sugiro ler, nesse sentido - tbm - "A Arte da Guerra".

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