quarta-feira, 13 de abril de 2011

O que é Meditação - Biografia de Swami Vivekananda, o grande meditador

Swami (mestre) Vivekananda






Biografia do mestre Vivekananda, o grande meditador indiano


"Se a gente pudesse tê-lo conhecido!" - dizemos.

A maioria de nós reconhece que poderia ser capaz de identificar um grande instrutor espiritual se pudesse encontrar algum. Seria verdade? Provavelmente estamos nos gabando. Contudo, deve-se concordar que um instrutor vivo é muito mais preferível que seu livro morto. As meras palavras impressas não podem carregar o tom de voz de quem as pronunciou e muito menos o poder espiritual que se esconde atrás daquela voz.

Mas Vivekananda é uma das raras exceções. Ao ler suas palavras impressas, podemos captar algo do tom de sua voz e mesmo experimentar algum sentido de contato com seu poder. Qual a razão disto?

Talvez porque muitos desses ensinamentos eram originalmente falados, e não escritos por ele. Tinham a informalidade e a naturalidade do falar. Além disso, Vivekananda fala uma linguagem que podemos entender, mas que é inimitavelmente sua; o inglês de Vivekananda - aquele idioma maravilhosamente forte, de frases pitorescas e explosivas exclamações. Ela recria sua personalidade para nós ainda hoje, passados três quartos de um século.

O que Swami Chetanananda fez aqui foi trazer Vivekananda em pessoa, para ensinar-nos como meditar. Esses resumidos extratos de suas obras completas dizem-nos o que é religião, porque é de interesse vital para nós e como devemos praticá-la para torná-la parte de nossas vidas. Não se apresse em ler este livro de cabo a rabo. Escolha um extrato e reflita sobre ele o dia inteiro, ou a semana inteira. Esses ensinamentos cabem em poucas palavras, mas exigem intermináveis reflexões.

A franqueza de Vivekananda é desconcertante. Ele aponta seu dedo direto para você - como o Tio Sam nos velhos cartazes de recrutamento. Você não pode fingir para si mesmo que ele está falando com qualquer outra pessoa. Ele se dirige a "você" e é melhor que você ouça.

É melhor que você escute, diz Vivekananda, porque você não sabe quem é. Você pensa que é o Sr. ou a Sra. Jones. É o seu erro fundamental e fatal. Sua opinião a respeito de si mesmo, seja boa ou ruim, é também equivocada; mas isto é de importância secundária. Você pode andar pavoneando pela vida como o Imperador Jones ou arrastar-se pelo chão como Jones, o escravo; não faz diferença. O Imperador Jones, se existisse tal criatura, teria súditos; o escravo Jones teria um capataz. Você não tem nem um nem outro. Pois você é Brahman, o Deus Eterno e, para qualquer lugar que olhe, você nada vê a não ser Brahman, utilizando os muitos milhões de disfarces que são chamados por nomes tão absurdos como o seu próprio - Jones, Juarez, Jinnah, Jung, Jocho, Janvier, Jagataí, Jablochov; nomes que significam todos a mesma coisa, "eu não sou você".



Você não sabe quem é porque vive na ignorância. Esta ignorância pode parecer agradável, em certos momentos mas, essencialmente, é um estado de escravidão e, portanto, de sofrimento. Seu sofrimento deriva do fato de que Jones, como Jones, tem de morrer - enquanto Brahman é eterno; e que Jones, como Jones, é diferente de Juarez, Jinnah e todos os outros - enquanto Brahman, dentro de todos eles, é um só. Jones, em sua ilusão de separatividade, é atormentado por sentimentos de inveja, ódio ou medo em relação a estes seres, aparentemente separados, ao seu redor. Ou, então, ele se sente atraído por alguns deles por desejo ou amor e se atormenta por não poder possuí-los e unir-se completamente a eles.

A separatividade, diz Vivekananda, é uma ilusão que pode e deve ser afastada pelo amor do Brahman Eterno dentro de nós e de todos os seres. Portanto, a prática da religião é uma negação da separatividade e uma renúncia a seus objetivos: fama, riqueza e poder sobre os outros.

Eu - o Sr. ou a Sra. Jones - sinto-me embaraçado com estas declarações. Trabalho para possuir bens e não quero abrir mão deles. Sinto-me orgulhoso de ser Jones e odiaria ser Jablochov; além disso, suspeito que ele esteja planejando arrebatar meus bens de mim. E então eu não sou somente um Jones qualquer, eu sou "o Jones", o famoso, e assim não estou inclinado a julgar-me uma pessoa totalmente exposta e sem personalidade. Eu aprovo totalmente a palavra "amor". Mas, para mim, "amor" significa Jane ou John, e ela ou ele é a mais preciosa de todas as minhas posses, nas quais só posso pensar em exclusiva relação para comigo.
Por outro lado, a prudência aconselha-me a não rejeitar o ensinamento de Vivekananda. Meu próprio mal estar é uma confirmação de que o que ele diz é, pelo menos em parte, verdadeiro. Fico tenso e deprimido quando penso no futuro.

Meu médico receitou-me tranqüilizantes, mas eles não me acalmam, somente fico zonzo e sonolento. Por que, então, não dedicar alguns minutos do dia para essa meditação? É, realmente, uma espécie de seguro de vida. Eu faço seguro hospitalar na esperança supersticiosa de que ele me livrará de ter de ir ao hospital. Por que não fazer o seguro Vivekananda, na esperança de que livrará Jones de morrer e perder sua identidade?

Isto é bom, diz Vivekananda com um sorriso indulgente. De qualquer maneira comece - mesmo que for por uma razão errada. Ele é de um bom humor e de uma paciência inesgotáveis. Nunca fica desesperado com a gente porque sabe - sabe com a extrema certeza da experiência direta - que Brahman, nossa natureza real, nos atrairá gradualmente até Ele:
Assim não importam essas falhas, esses pequenos deslizes. Mantenha o ideal por mil vezes e, se você falhar e, se você falhar mil vezes, faça mais um vez uma tentativa... Há uma vida infinita diante da alma. Vá com calma e cumprirá seu objetivo.

Isto soa seguro demais, demasiadamente reconfortante. Será que ele está zombando de nós? Não e sim. Ele quer dizer exatamente o que diz, mas fala nos termos da doutrina da reencarnação. Quando ele nos diz que devemos ir com calma, quer dizer que temos liberdade de ficar na escravidão da ignorância por outros milhares de vidas; liberdade para continuar morrendo e renascendo repetidamente até que nos fartemos de nossa separatividade e fiquemos firmemente decididos a acabar com ela. Se achamos que as palavras de Vivekananda renovam nossa segurança - bem, seremos a própria piada.

Mas, o que dizer a respeito desta vida? Vivekananda observou certa vez:
Ao tentar praticar a religião, oitenta por cento das pessoas são logradas e cerca de quinze por cento enlouquecem; somente os restantes cinco por cento alcançam o conhecimento imediato da Verdade Infinita.
Isto o choca? Se choca, imagine como você reagiria se o instrutor de ginástica de uma academia lhe dissesse que "ao praticar esses exercícios, oitenta por cento dos meus discípulos fracassam - por não fazerem corretamente os difíceis exercícios - e que quinze por cento fazem exercícios em excesso, como loucos, até que se machucam e têm que desistir; somente os cinco por cento restantes, realmente, transformam seus corpos físicos". Você ficaria surpreso? Certamente não, embora você pudesse ficar deprimido. Você deveria decidir-se, reconhecendo sua própria fraqueza, a não matricular-se na academia de forma alguma.

Mas não há desculpa mais miserável para a inação do que a justificativa de sermos fracos, indignos, não espirituais. Quando falamos isso, a voz de Vivekananda ressoa como um trovão dizendo que somos leões e não ovelhas; que somos Brahman e não Jones. Então ele torna-se gentil de novo e nos diz para fazer alguma coisa pelo menos, para fazer um pequeno esforço, mesmo se formos idosos, doentes, sobrecarregados de dependentes e de deveres mundanos, desesperadamente pobres ou desesperadamente ricos. Ele nos lembra que a verdadeira renúncia é mental e não necessariamente física. Não é necessário repudiarmos nossos maridos ou esposas e expulsarmos nossos filhos, porta afora. Devemos somente compreender que eles não são realmente nossos; amá-los como moradas de Brahman, não como meros indivíduos. Devemos compreender que nossas assim chamadas posses são simplesmente brinquedos que nos foram emprestados para brincarmos com eles por breve tempo. Um colar de contas pode ser bonito. Da mesma forma, um colar de diamantes. Não há perigo em usar o colar quando ignoramos sua diferença de preço.

Repetidamente, Vivekananda nos faz rir, quando nos pede para não perdermos tempo em arrependimentos, para não gemermos e soluçarmos sobre nossos pecados; quando nos pede para secarmos nossas lágrimas e vermos como é engraçado este mundo de farsa que vimos encarando tão seriamente. Assim, pelo menos por algum tempo, ele nos enche de coragem.

Mas Vivekananda não dedicou toda sua tremenda energia para estimular os noventa e cinco por cento de coração fraco. Ele precisava de auxiliares no seu trabalho - homens e mulheres dedicados, em quem pudesse confiar - e não os procurava entre os fracos. De vez em quando, inesperadamente, no meio de uma conferência, ele fazia um de seus emocionantes e ressoantes apelos aos fortes, os ainda incorrompidos cinco por cento:

==>Homens e mulheres de hoje! Se existir entre vocês alguma flor pura e fresca, que seja colocada no altar de Deus. Se existir entre vocês alguns que, sendo jovens, não queiram voltar para o mundo, que o abandonem! Que renunciem! Este é o único segredo da espiritualidade, a renúncia. Atrevam-se a fazer isso. Sejam bravos, o bastante, para faze-lo. São necessários esses grandes sacrifícios.
==>Vocês não podem ver a maré de morte e materialismo que está rolando sobre essas terras ocidentais? Vocês não podem ver o poder da luxúria e da perversidade que devoram as forças vitais da sociedade? Acreditem-me, vocês não deterão estas coisas pela conversa ou por movimentos de agitação pedindo reformas; mas somente pela renúncia, ficando de pé, no meio da decadência e da morte, como montanhas de retidão. Não falem, mas deixem o poder da pureza, o poder da castidade, o poder da renúncia, emanar de cada poro de seus corpos. Que este poder golpeie aqueles que lutam noite e dia pelo ouro, pois mesmo no meio de tal estado de coisas, poderá aparecer alguém para quem as riquezas perderão seu valor. Expulsem a luxúria e as riquezas. Sacrifiquem-se.Mas quem fará isto? Não os desgastados ou os velhos, esgotados e fustigados pela sociedade, mas os mais novos e os melhores da Terra, os fortes, os jovens, os belos. Sacrifiquem suas vidas. Tornem-se servos da humanidade. Sejam sermões vivos. Isto é renúncia e não palavras vazias.

Não critique os outros, pois todas as doutrinas e dogmas são bons; mas mostre a eles, através de suas vidas, que a religião não é assunto de livros e crenças, mas de realização espiritual. Somente aqueles que a viram compreenderão isto; mas tal espiritualidade pode ser dada a outros, embora fiquem inconscientes desta dádiva. Somente aqueles que atingiram este poder se colocam entre os grandes instrutores da humanidade. Eles são os poderes da luz.

Quanto mais um país produzir tais homens, mais alto se levantará. Aquela terra onde tais homens não existirem, está amaldiçoada. Nada poderá salvá-la. Portanto, a mensagem de meu Mestre para o mundo é: "Sejam todos seres espirituais! Obtenham, primeiro, a realização espiritual!" Vocês falaram tanto do amor do homem, que está perigando de tornar-se, somente, uma palavra. Chegou o tempo de agir. A ordem agora é: Faça! Pule no buraco e salve o mundo!
Certa vez, em minha vida, eu ouvi este desafio, da maneira mais simples possível. Um grupo de pessoas se juntara para discutir assuntos religiosos.

Muitos dos presentes falaram extensamente e com eloqüência sobre Deus e a vida de orações. Então, quando o último deles terminou, um menino de catorze anos exclamou repentinamente, muito excitado: "Mas, se tudo isto é verdade, por que fazemos sempre coisas diferentes?"
A pergunta nos emudeceu.

Christopher Isherwood
Julho de 1974

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