domingo, 3 de abril de 2011

O problema do mal


Toda religião ou sistema de filosofia deve tratar do problema do mal - mas, infelizmente, este é um problema que em geral é mais contornado do que explicado. "Por que", pergunta-se, "Deus permite o mal, se Ele Próprio é só bondade? Uma ou duas respostas costumam ser dadas a essa pergunta pelo pensamento religioso ocidental. Às vezes nos dizem que o mal é uma questão educacional e penal. Deus nos castiga pelos nossos pecados visitando-nos com a guerra, a fome, os terremotos, as calamidades e as doenças. Serve-se da tentação (quer diretamente, quer pela intervenção do Demônio) para pôr à prova e fortalecer a virtude dos homens bons. Essa é a resposta dada pelo Antigo Testamento. Na época atual, ela repugna a muitas pessoas e tomou-se antiquada - embora, como veremos logo adiante, contenha um certo grau de verdade, segundo a filosofia do Vedanta. A outra resposta - hoje mais geralmente aceita - é que o mal não existe em absoluto. Se encararmos a Vida sub specie aeternitatis, veremos que o mal carece de realidade, que ele é simplesmente uma interpretação errônea do bem. A filosofia Vedanta discorda de ambas as teses - da segunda até mais radicalmente que da primeira. Como, pergunta ela, o mal pode mudar-se em bem pelo simples fato de o considerarmos de uma maneira especial? A dor e o infortúnio podem ser suportados mais facilmente se concentrarmos nossa mente em Deus - mas, não obstante, ambos são experiências muito reais, ainda que sua duração seja limitada.


O Vedanta concorda que o mal, no sentido absoluto, é irreal. Mas lembra-nos que, desse ponto de vista, também o bem é irreal. A Realidade absoluta está além do bem e do mal, do prazer e da dor, do sucesso e do insucesso. Tanto o bem quanto o mal são aspectos de Maya. Enquanto Maya existir, eles existirão. No interior de Maya eles são efetivamente reais. Na verdade, a pergunta "Por que Deus permite o mal?" está erroneamente formulada. É tão absurda como se perguntássemos. Por que Deus permite o bem?" Ninguém hoje perguntaria por que a chuva "permitiuuma enchente catastrófica; ninguém acusaria ou louvaria o fogo porque ele queima a casa de um homem e cozinha o jantar de outro. Tampouco se pode dizer apropriadamente que Brahman é "bom" em qualquer sentido pessoal da palavra. Brahman não é "bom" no sentido em que Cristo o era porque a bondade de Cristo se encontra nos limites de Maya; sua vida expressou a luz da Realidade refletida no mundo relativo. A Realidade em si está além de todos os fenômenos, mesmo o mais nobre. Está além da pureza, da beleza, da felicidade, da glória ou do sucesso. Só podemos descrevê-la como o bem se admitirmos que a consciência absoluta é o conhecimento absoluto e que o conhecimento absoluto é a alegria absoluta. Mas pode ser que a questão não se refira absolutamente a Brahman. Pode ser que, nessa conexão, "Deus" signifique lswara, o Governante de Maya. Isto posto, pode a filosofia Vedanta concordar com a afirmação do Antigo Testamento de que Deus é o doador da lei, um pai severo e algo imprevisível, cujos caminhos não são os nossos, cujos castigos e recompensas parecem quase sempre imerecidos, um pai que permite que caiamos em tentação? A resposta é sim e não. A doutrina Vedanta do Karma é uma doutrina de justiça absoluta, automática. As circunstâncias de nossas vidas, nossas dores e nossos prazeres, são o resultado de nossas ações passadas nesta e em incontáveis existências anteriores, desde o alvorecer dos tempos. De um ponto de vista relativo, Maya é desprovida de piedade. Obtemos exatamente aquilo a que fazemos jus, nem mais nem menos. Se bradamos contra uma injustiça aparente, é unicamente porque o ato que a fez recair sobre nós está profundamente sepultado no passado, fora do alcance da nossa memória. Nascer como mendigo, rei, atleta ou como um aleijado irremediável constitui simplesmente as conseqüências compósitas das ações de outras vidas. Não devemos agradecer senão a nós mesmos por elas. Não adianta tentar barganhar com Iswara, ou propiciá-Lo, ou responsabilizá- Lo pelos nossos infortúnios. Não adianta inventar um Demônio como álibi para as nossas fraquezas. Maya é aquilo em que a transformamos - e lswara representa simplesmente o fato inexorável e solene. 13 De um ponto de vista relativo, este mundo de aparências é um lugar desolado e como tal nos leva muitas vezes ao desespero. Os videntes, com seu conhecimento mais amplo, nos dizem algo bem diverso. Assim que nos conscientizamos, ainda que vagamente, do Atman, nossa Realidade interior, o mundo assume um aspecto muito diferente. Deixa de ser um tribunal para tornar-se unia espécie de academia de ginástica. O bem e o mal, a dor e o prazer continuam a existir, mas assemelham-se mais às cordas, aos cavalos de pau e às paralelas, que podem ser usados para fortalecer nosso corpo. Maya deixa de ser uma roda de dores e prazeres a girar incessantemente para tomar-se uma escada que nos permite ascender à consciência da Realidade. Desse ponto de vista, a ventura e a desventura são ambas mercês" - vale dizer, oportunidades. Toda experiência nos oferece a oportunidade de reagir construtivamente a ela - reação essa que nos ajuda a quebrar um elo da nossa escravidão a Maya e nos leva para muito mais perto da liberdade espiritual. Assim, Shankara distingue entre dois tipos de Maya - avidya (mal ou ignorância) e vidya (bem). Avidya é aquilo que nos afasta do Eu real e encobre o nosso conhecimento da Verdade. Vidya é aquilo que nos aproxima do Eu real removendo o véu da ignorância. Tanto vidya como avidya são transcendidos quando ultrapassamos Maya e adentramos a consciência da Realidade absoluta. Já se disse que o princípio de Maya é a sobreposição da idéia do ego ao Atman, ao verdadeiro Eu. A idéia do ego representa uma falsa pretensão à individualidade, a sermos diferentes do nosso próximo. Segue-se, pois, que qualquer ato que contradiga essa pretensão nos fará adiantar um passo rumo ao correto conhecimento, à consciência da Realidade interior. Se reconhecermos a nossa fraternidade com os nossos semelhantes; se tentarmos relacionar-nos com eles sinceramente, verdadeiramente, caridosamente; se, política e economicamente, lutarmos por direitos iguais, por justiça igual e pela abolição das barreiras de raça, classe e credo, então estaremos desmentindo a idéia do ego e caminhando para a percepção da Existência universal, não-individual. Todas essas ações e motivos pertencem àquilo que é conhecido como o bem ético - do mesmo modo que os motivos e ações egoístas pertencem ao mal ético. Nesse sentido, e só nesse sentido, o bem pode ser considerado mais "real", ou mais válido, do que o mal - já que as más ações e os maus pensamentos nos enredam mais profundamente em Maya, ao passo que as boas ações e os bons pensamentos nos afastam de Maya e nos aproximam da consciência da Realidade. As palavras "pecado" e "virtude" são de certo modo alheias ao espírito da filosofia Vedanta, porque estimulam necessariamente um sentimento de possessividade com respeito ao pensamento e à ação. Quando dizemos "eu sou bom" ou "eu sou mau , estamos apenas falando a linguagem de Maya. "Eu sou Brahman" é a única afirmação que qualquer um de nós pode fazer. São Francisco de Sales escreveu que "mesmo o nosso arrependimento deve ser pacífico" - querendo dizer que o remorso excessivo, tal como a autocomplacência excessiva, simplesmente nos vincula mais fortemente à idéia do ego, à mentira de Maya. Nunca devemos esquecer que o comportamento ético é um meio, e não um fim em si mesmo. O conhecimento da Realidade impessoal é o único conhecimento válido. Fora disso, nossa mais profunda sabedoria não passa de negra ignorância e nossa mais estrita retidão é inteiramente vã.

Um comentário:

  1. Bom texto!

    A Natureza é nossa mãe, mas é fria como uma tábua de mármore. A Natureza tem perfeições porque é a imagem de Deus, e tem imperfeições porque é apenas a imagem de Deus.

    Noutro contexto, a Mônada, o Unitário, o Incognoscível, emite de si o alento, o Fohat, o Verbo. Deixa de ser o Unitário Imanifesto e torna-se o Criador Manifesto. Da Mônada vêm as mônadas.

    "Mutatis mutandis", é tudo o mesmo...

    Concordo que não tem sentido cogitar-se de pecados e virtudes quando meditamos acerca da Unidade. Mal e Bem, dê-se-lhes o sentido que se der, se desnaturam inevitavelmente quando o tema é a Unidade.

    Mas continuemos a dizer simplesmente "Mal" para facilitar as coisas.

    O Mal nos premia com os condicionamentos necessários à ascensão. Nada deixa mais evidente que é parte integrante do "Bem".

    O problema é: por que a mônada individual tem que restringir-se ao extremo na matéria (física e etérica) e, depois, ascender mitigando essa individualidade? Será que essa individualidade se mitiga realmente?

    Por isso meditei:

    "Quando estiver em um nível de consciência que me permita recordar plenamente, digamos, umas cinco encarnações, não terei dúvidas em identificar diferenças entre o comportamento assumido em cada uma delas... Nem por isso terá deixado de ser o mesmo Espírito, com todas as peculiaridades, bagagem e circunstâncias a definirem padrões diversos de conduta."

    http://esoestudos.blogspot.com/2011/02/tudo-e-ilusao-tese-do-ego-artificial.html

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