quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Eu - Paradoxo do Eu Não-substancial - A Vacuidade




O Eu


A palavra eu foi definida diferentemente por diversas religiões e filosofias do passado até nossos dias. O bön/budhismo insiste muito na doutrina do não-eu, ou vacuidade (shunyata), que é a verdade última de todos os fenômenos. Se não compreendermos a vacuidade, será difícil cortar a raiz do eu egoísta e libertar-nos dos seus limites.

Porém, nossas leituras sobre o tema da caminhada espiritual nos informam também sobre a auto-liberação e a auto-realização do eu. Parecemos certamente ter um eu. Precisamos argumentar bastante para convencer
alguém que não possuímos um eu, se nossa vida é ameaçada ou qualquer coisa nos é tomada, o eu do qual proclamamos a inexistência pode ficar verdadeiramente apavorado ou transtornado.

Para o bön/budhismo, o eu convencional existe verdadeiramente. Senão, não haveria alguém para criar carma, para sofrer e para encontrar a liberação. É o eu inerentemente existente que não tem existência. A ausência do eu inerente significa que não existe uma entidade central distinta e imutável. Embora a natureza da mente não mude, ela não deve ser confundida com uma entidade distinta, um ego, uma pequena parcela de consciência indestrutível que seria o eu . A natureza da mente não é uma possessão individual, não é um indivíduo. É a natureza da sensação em si mesma; ela é a mesma para todos os seres dotados de sensibilidade.



Retomemos o exemplo do reflexo no espelho. Se observarmos os reflexos, podemos dizer que existe tal reflexo, depois outro, mostrando dois reflexos diferentes. Eles aumentam e diminuem, vão e vem, e podemos segui-los no espelho como se tratassem de entidades independentes. Eles são como a imagens do eu convencional. Os reflexos não são entidades distintas, eles são um jogo de luz, de ilusões despidas de substância na luminosidade vazia do espelho. Eles não têm existências independentes exceto se os
concebermos como tais. Os reflexos são manifestações da natureza do espelho, como o eu convencional é uma manifestação que nasce da limpidez vazia da base da existência, kunshi, na qual reside e nela se dissolve
novamente.

O eu convencional com o qual nos identificamos habitualmente e a mente em movimento que lhe dá nascimento são ambos fluidos, dinâmicos, provisórios, despidos de substância, mutáveis, impermanentes e desprovidos de existência própria, como o reflexo no espelho. Podemos constatar isso em nossas vidas, se as examinarmos. Imaginem que preenchemos formulários dando informações nossas. Anotaríamos nosso nome, sexo, idade, endereço, atividade profissional, relações, descrição física. Faríamos testes que descreveriam nossa personalidade e nosso cotidiano intelectual. Escreveríamos nossos objetivos, sonhos, crenças, pensamentos, valores, e medos.

Suponhamos agora que anotamos tudo isso. O que é que faltou? Acrescentemos mais ainda nossos amigos, a casa, nosso país e tudo o que possuímos. Se perdermos o uso da linguagem para falar ou pensar? Se
perdermos nossas lembranças? Se perdermos nossos sentidos? Onde estará nosso eu? Esse é o nosso corpo? Quem é ele se perdermos braços e pernas, vivermos com um coração artificial e um aparelho respiratório, sofrermos lesões e perdermos nossas funções cerebrais? Em que momento cessará de ser um eu? Mesmo se continuarmos a nos despojar das camadas de identidades e os atributos sucessivos, de certo ponto de vista nada é perdido.

Não somos aqueles que éramos há um ano, ou dez anos. Não somos nem mesmo aqueles que éramos há uma hora. Não existe nada que não mude. No momento da morte, os últimos restos daquilo que parece um eu imutável desaparecem. Poderemos renascer como um ser completamente diferente, com um corpo diferente, um gênero diferente, uma capacidade mental diferente. Isso não significa que não somos um indivíduo somos um, é evidente mas isso não quer dizer que algum indivíduo tenha existência inerente, independente.

O eu convencional é radicalmente contingente. Como a maré dos pensamentos que se eleva sem fim na claridade da mente, ou as imagens que surgem indefinidamente no espelho, ele é uma sucessão de produções instantâneas.
Os pensamentos existem enquanto tais, mas quando os examinamos durante a meditação, eles se dissolvem na vacuidade da qual surgiram. É semelhante com o eu convencional: seu exame aprofundado revela que ele não é senão uma denominação atribuída a um conjunto vagamente definido de eventos mudando constantemente. Nossas identidades provisórias mudam como os pensamentos que não cessam de surgir.

Identificarmo-nos falsamente com um eu convencional e prendermo-nos a um sujeito cercado de objetos fundamenta a visão dualista e forma a dicotomia fundamental na qual repousa o sofrimento sem fim do
samsara.


Paradoxo do Eu Não-substancial 

Mas como é então possível, se a base individual é pura consciência vazia, que o eu convencional e a mente em movimento existam? Eis um exemplo baseado em experiências que todos nós já tivemos. Quando dormimos, um mundo inteiro manifesta-se, no qual podemos viver todas as espécies de aventuras. Identificamo-nos com um sujeito quando sonhamos, mas também aparecem outros seres, aparentemente separados de nós, que têm suas próprias experiências e parecem tão reais quanto o personagem que
acreditamos ser. Existe um mundo material semelhante, no qual os assoalhos nos sustentam, nosso corpo tem sensações, podemos comer e tocar.

Ao despertar-nos, percebemos que o sonho era uma projeção de nossa mente. Passava-se em nossa mente e era a energia dela que o animava. Mas estávamos mergulhados nele e reagíamos às imagens criadas pela mente como se fossem reais e exteriores a nós mesmos. Nossa mente pode criar um sonho e se identificar com um ser que ela aí instala, separando-se dos outros. Podemos mesmo nos identificar com sujeitos bem diferentes do que somos em nossa vida cotidiana.

Estamos, enquanto seres comuns, identificados da mesma maneira a um eu convencional que é também uma projeção mental. Relacionamo-nos com objetos e entidades que são, igualmente, projeções mentais. A base da existência, kunshi, tem a capacidade de manifestar tudo o que existe, mesmo os seres que estão extraviados de sua natureza própria, exatamente como nossa mente pode projetar seres que são aparentemente distintos de nós no sonho. Quando despertamos, o sonho do nosso eu convencional dissolve-se
na pura vacuidade e na claridade luminosa.

A Vacuidade

Não existindo o ator , não existe a ação. Não pode haver um eu de uma pessoa que não existe. Se você que procura a verdade, compreender a vacuidade do eu e do meu, chegará à libertação perfeita.


Estamos preenchidos da sensação de que somos independentes e auto-suficientes, e não de que somos manifestações interdependentes. Essa é a base de todos os nossos problemas e sofrimentos.

Nossa mente comum sente espontaneamente: Eu existo , Eu existo . Esse é nosso mantra no nível subconsciente. Temos uma percepção distorcida da realidade de nosso eu ou ego pois, mesmo tendo conhecimento intelectual de nossa própria morte e impermanência, sentimos nosso eu como completamente independente e permanente. Não conseguimos integrar o conhecimento intelectual de nossa morte e
impermanência em nosso coração.

Por isso, quando a realidade da impermanência invade nossa fantasia de um
mundo e um Eu permanentes, vivemos um monte de problemas e sofrimentos. Esse ego independente do qual cuidamos tanto e com o qual nos identificamos cem por cento é, na verdade, uma completa alucinação.
O Treinamento Espacial, ou a meditação na vacuidade, na sabedoria ou no espaço absoluto são métodos para nos fazer aceitar, de uma forma mais suave ou mais firme, que esse ego é uma alucinação, uma ilusão e
um terrível engano. São técnicas para dissolvermos a loucura alienada do apego a si mesmo e devolvermos nossa mente à sanidade, na qual vivemos diretamente a natureza verdadeira da realidade como espaço absoluto e manifestações interdependentes de fenômenos.

Tanto no Sutra como no Tantra, o processo de meditação na vacuidade é o mesmo. A diferença é que no Sutra usamos a mente grosseira, enquanto no Tantra usamos os níveis mentais mais profundos, o que torna a
experiência subjetiva mais poderosa. A vacuidade à qual tentamos unir nossa mente, porém, é a mesma.


Pergunta: O que é essa vacuidade de existência intrínseca que temos que compreender?

Resposta: No nível relativo, você pensa que é uma pessoa bonita, sente fome, dorme, trabalha, sente-se só, etc. Entretanto, se você tentar encontrar esse você que você acredita tão fortemente existir independentemente de todos os outros fenômenos, perceberá que não pode encontrá-lo. Você pode, por exemplo, dividir seu corpo em muitas partes. Qual dessas partes é realmente você? Não é possível encontrar o que realmente você é. Porém, dentro da relação interdependente corpo-mente, há alguém que existe. Há muito para se falar sobre esse tema. É um assunto muito profundo.

Vacuidade significa vazio de existência intrínseca ou independente. Por isso, no primeiro estágio de meditação no espaço absoluto, tentamos visualizar, imaginar ou identificar claramente como é esse estado de existência concreta. Temos que procurar esse estado para nos convencer por meio da lógica que ele não existe de verdade. Só percebemos isso quando o procuramos.

Sempre começamos esse tipo de meditação usando nossa própria sensação de si mesmo ou ego como a coisa que desejamos fazer desaparecer, pois o impacto emocional de perdermos nosso próprio ego é, ao mesmo tempo, devastador e libertador. Perceber que o ego de outra pessoa é uma fantasia ou que a montanha não existe como parece não tem o mesmo impacto e capacidade de transformar nossas distorções e negatividades mentais. Nosso ego é nosso inimigo numero um e, por isso, precisamos empreender uma guerra impiedosa contra ele.

Uma vez tendo destruído nosso próprio ego com a arma da sabedoria, toda a estrutura de nosso samsara pessoal começa a desmoronar e rapidamente colapsa. O primeiro passo é compreender o que é existência intrínseca independente.

NGELSO AUTOCURA III T.Y.S. Lama Gangchen Tulku Rimpoche




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