segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Espiritualismo Científico - A Doutrina dos Espíritos está apoiada na razão?







O que é o Espiritualismo Científico ou Novo Espiritualismo? Ele é novo em que sentido?


"Espiritualismo Científico"; "Novo Espiritualismo"; "Moderno Espiritualismo" ou "Espiritualismo Novo", foram os termos utilizados pelos americanos e ingleses - mas também Emmanuel e tantos outros Espíritos usam esse termo - para o que mais tarde foi chamado de Espiritismo, na França.


Esses termos sempre me chamaram a atenção, pelo fato de até hoje não se ter esclarecido porque o Espiritismo é "espiritualismo científico"? Ou seja, ele é um espiritualismo científico porque a existência e a imortalidade da alma foi comprovada experimentalmente por cientistas daquela época - meados do século XIX - ou ele é um espiritualismo científico, porque, como posteriormente se referiu Allan Kardec, era o único tipo de espiritualismo que poderia "encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade"?


No primeiro caso, se Allan Kardec não tivesse codificado a Doutrina dos Espíritos ou Doutrina Espírita todos esses fenômenos conhecidos como "mesas girantes", "mesas falantes", manifestações espirituais de ordem física como pancadas, sumiço e desaparição de objetos, barulhos, e também os diversos tipos de comunicações, que, posteriormente foram elencadas de maneira criteriosa por Allan Kardec, tudo teria sido inútil, já que, como sabemos, até hoje na França e em muitos países da Europa, consta que as "mesas girantes" foram apenas o resultado do "magnetismo animal", de Mesmer, que era transmitido de pessoa para pessoa tendo os dedos míninos unidos, enquanto sentados á volta de uma mesa redonda.




Teria sido, como pensam muitos até hoje, as comunicações mediúnicas, apenas o resultado do "inconsciente" das pessoas que participavam das sessões.


Então acredito hoje que, o termo "Espiritualismo Científico", pode prevalecer e ter um significado a partir das comunicações obtidas pelos médiuns, e ditadas pelos Espíritos, sobre o Mundo Espiritual e a sua relação com o mundo material.


De fato, com todo o "progresso" obtido na Revolução Industrial e na ciência do século XIX, como a unificação da Teoria do Eletromagnetismo, por Maxwell, a formulação da Teoria da Evolução ou Seleção Natural por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, e também com as descobertas como o Raio X, que foi uma descoberta acidental, por Roentgen, os Raios Crookies, a máquina fotográfica, o telégrafo, a construção dos grandes telescópios ópticos por William Herschell, a invenção do motor a combustão pelo alemão Rudolf Diesel - cuja patente é atribuída ao velhaco Henry Ford -, e, acima de tudo isso, com o "banimento de Deus" do cenário científico e filosófico, somente uma doutrina espiritualista apoiada nas idéias e conceitos nascentes no século XIX é que poderia ser levada a sério, pelo menos no ocidente cristão.


Além disso, os termos "evolução" e "progresso" que encontramos amiúde nas obras kardequianas, não foram cunhados à toa, e tampouco se pode crer ingenuamente que tais termos são uma invenção dos Espíritos: eles são termos criados pela mentalidade européia do século XIX, porque o conceito de evolução em Charles Darwin foi rapidamente apropriado pelos economistas, filósofos, cientistas, políticos e representantes da burguesia da época para justificar a organização da sociedade de então.


As idéias evolucionistas logo foram interpretadas erroneamente: enquanto a Seleção Natural proclamava a sobrevivência das espécies mais aptas, não tardou para que os grupos dominantes traduzissem essa idéia em termos de "progresso", alegando que ricos, brancos e poderosos eram o resultado da "seleção natural social" - dentro de uma mesma espécie? Digamos logo, surge o Darwinismo Social.


Essas idéias progressistas são visíveis nas obras do francês Auguste Comte, na sua Lei dos 3 Estágios. Segundo ele, a humanidade passara, mediante um processo linear e cumulativo, por 3 estágios a saber, o teológico, o metafísico e o racional. O teológico compreende a época dos mitos e do pensamento religioso; o metafísico, refere-se à Filosofia, com suas especulações racionais-lógicas, e enfim, o racional representa o triunfo da ciência moderna, com os seus primeiros esforços para se libertar do jugo da religião na Revolução Científica do Século XVII, atingindo o seu ápice na Revolução Científica de 1900.


Então Kardec, ou melhor, os Espíritos da Codificação, escrevem em uma linguagem que seja interpretada facilmente por essa mentalidade do século XIX. Ao invés de dizer que já fomos criados perfeitos por Deus e que cabe a nós tomarmos consciência dessa perfeição (concepção hinduísta, zen-budista e outras), Kardec irá dizer que "o Espírito está evoluindo", e, a cada reencarnação, ele pode ou não fazer novos progressos do ponto de vista do melhoramento pessoal.


Restou no Movimento Espírita a idéia de que, se temos várias vidas para progredir, então podemos demandar a evolução espiritual aos poucos, ou como reza o ditado popular, "empurrar com a barriga" o trabalho que cabe fazer hoje.


Outro aspecto interessante é que, a Doutrina Espírita surge com um outro tipo de criacionismo - porque nessa época há o debate ferrenho entre Criacionismo (católico) e Evolucionismo (Seleção Natural). Claro que a igreja romana entra definivamente em declínio, com a declaração da Infalibilidade papal no Concílio de 1870, mas a mentalidade religiosa predominante é a católica, e portanto dualista.


É assim que, vemos o Espiritualismo Científico defender a "criação" divina em termos dualistas: de um lado está Deus, absoluto e perfeito, e de outro, separado Dele, está o homem, o mal, o pecado, e a "imperfeição" - termo esse também utilizado amiúde por Allan Kardec.


Ainda outro detalhe a ser ressaltado - se é para dizer mesmo que o Espiritismo tem algo de inovador - é a priorização dos trabalhos mediúnicos, em que entidades desencarnadas são atendidas e orientadas pelos encarnados, em muitos casos. Isto tem a sua lógica: segundo informação dos próprios Espíritos, a grande maioria dos Espíritos desencarnados sofrem dores morais pungentes, uma vez que desencarnaram acreditando que eram o corpo, e com isso, levando para o post-mortem todas as idéias terrenas a que se apegaram. Talvez esse seja o grande mérito do Espiritismo: fazer da mediunidade prática consumada e legitimada útil a gregos e troianos, digo, a encarnados e desencarnados.

E, reparem que não só o Livro dos Espíritos e "O Céu e o Inferno" está repleto de esclarecimentos e narrativas dos sofrimentos dos Espíritos após a morte, mas todo o chamado "pós-Kardec", não é senão um exaustivo trabalho no afã de elucidar a natureza desses padecimentos.

A menos das obras de Emmanuel, as de André Luiz, Manoel Philomeno de Miranda, Victor Hugo - para falar aqui dos mais conspícuos - são todas voltadas para essas narrativas dos Espíritos humanizados, muitas vezes padecendo no além-túmulo dores morais superlativas. Então a meu ver, esse é o grande mérito do Espiritismo: atentar para a questão da Vida Espiritual, porém, obviamente que, para isso, é necessário já "viver a vida espiritual por antecipação" (Allan Kardec), pois que, de outro modo, seria desnecessária a reencarnação.


Allan Kardec diz em "A Gênese" que o "desenvolvimento da Doutrina" também cabe aos encarnados, numa alusão clara a que, não se pretendeu - Kardec e os Espíritos - darem a palavra final.


A meu ver, a Doutrina Espírita representa apenas um conjunto de conhecimentos e práticas espiritualistas passadas pelos Espíritos, de maneira à adequar os ensinamentos à capacidade cognitiva, moral e sobretudo cultural, da mentalidade e da representação simbólica da realidade que se estruturou a partir do século XIX. Assim, como costuma dizer um amigo nosso, a Doutrina é constituída de duas partes: uma voltada à questão da disciplina dos egos, e outra voltada à parte que toca à vida espiritual.


Nesse comenos, o enaltecimento da razão por Allan Kardec, se torna perigoso, por ensejar interpretações dúbias e diversas. A razão é necessária para se entender a mensagem dos Espíritos ou os Espíritos é que utilizam da "linguagem racional" para se fazerem entendidos aos encarnados? Ou aquilo que o próprio Allan Kardec chamou de "o bom senso" é que deve ser tido como critério para se estudar o Espiritualismo? Se bem que, Allan Kardec elegeu a razão e o bom-senso no tangente à recepção e obtenção das comunicações espíritas, para que os praticantes da ciência espírita não seja enganados pelos Espíritos charlatães e impostores. Então parece óbvio que o que existe, é um processo de eleger a razão como critério central, para se comunicar com Espíritos que, no mais da vezes, e ainda que desencarnados, continuam a ser "seres racionais", ou "espíritos humanizados".


Contudo, do ponto de vista dos encarnados, eleger a razão como critério para se avaliar a veracidade, o valor e autenticidade dos enunciados históricos do Espiritualismo Universal de todos os tempos - Vedanta, Hinduísmo, Budismo, Zen-budismo e outros "ismos" - é bastante controverso, pois que, a razão está estrutura socialmente; ela não é e nem pode ser vista como um a priori inamovível, útil a gregos e troianos que, em última análise se configura como o melhor instrumento disponível ao ser humano para julgar o que é certo ou errado, bom ou mal, pois que, a própria razão está estruturada no imaginário e no simbólico, nos condicionamentos, preconceitos e costumes históricos, na sociedade.


Talvez, naquele momento de pujança das descobertas científicas, naquele contexto do surgimento de invenções, comodidades e vicissitudes sociais advindos da Revolução Industrial, a razão tenha tido a sua importância legítima, no tangente à ser elevada à conta de "instrumento fidedigno de análise de todos os processos sociais", mas hoje, está claro que a razão dualista não faz outra coisa senão gerar problemas criados por ela mesma, à medida em que ela, a razão simbólica, constrói conceitos e representações sobre o real, ou seja, ela mesma é que define e postula o que é mal e bem, feio e belo, valioso e desprezível.


O reinado da razão dualista vai enfim, chegando a termo, com as descobertas da Física Qüântica unida aos conhecimentos e práticas espiritualistas das grandes escolas e mestres do passado, para ensejar á humanidade, finalmente, o ingresso nesse novo Mundo de Regeneração tão esperado por todos.

5 comentários:

  1. No que pertine à razão, acho interessante o seguinte pensamento de Max Heindel:

    "Como o domínio do Ego era excessivamente débil e a natureza passional (de desejos) muito forte, a mente nascente uniu-se ao corpo de desejos, originando a astúcia, causa de todas as debilidades dos meados do último terço da Época Atlante.
    Na Época Ária começou a aperfeiçoar-se o pensamento e a razão, como resultado do trabalho do Ego sobre a mente, a fim de conduzir o desejo a canais que conduzem à perfeição espiritual, o objetivo da evolução." [Conceito - pág. 167]

    "A astúcia une-se ao desejo sem ter
    em conta se este é bom ou mau, ou se pode trazer alegria ou dor." [Conceito - pág. 173]

    Por esse aspecto, pensando em termos da evolução do homem, a razão constituiria fase necessária para substituir o domínio estrito da astúcia.

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  2. Olá, obrigado pelo comentário.

    Já tinha escrito algo, e sabe quando aparece aquela tela azul no computador, com contagem regressiva de 10 - 0 e parece que vai explodir tudo??

    Isto até me lembra um post que fiz uma vez no Cosmóforum, um verdadeiro artigo quase científico sobre o duelo entre Teoria Inflacionária e a Teoria do Universo Estacionário. Eu tivera um trabalhão ao escrever tudo aquilo, e o moderador foi e apagou tudo, porque via no artigo, uma tentativa de criticar a teoria vigente do Big-bang, já que os únicos motivos para a teoria inflacionária estare no poder era a descoberta da Radiação Cósmica de Fundo - RCU, por Arno Penzias e Robert Wilson, e, em 1929, a Teoria da Fuga das Galáxias por Edwin Hubble, veio "mostrar" que o Universo era inflacionário. Pois é, a gente se esquece de salvar mas a mente salva.

    Será que a mente dos animais também "salva"?? Ainda agorinha, estava assistindo uns vídeos no National Geographic e me pergunto aonde está a linha limítrofe entre razão e astúcia??

    Um macaco come um piolho de cobra somente para que este lance um veneno em sua boca, e então o macaco fica "doidão", e, fica viciado também.

    Astúcia são alguns insetos do deserto se fingirem de mortos para não serem comidos por um grande e cruel lagarto do deserto.

    Ou ainda, quando duas águias conseguem separar um jovem grou do seu bando, e, astuciosamente o golpeiam até que, enfim, consigam abatê-lo e devorá-lo.

    E os macacos de certas ilhas e cidades fronteiriças com selvas e florestas? São macacos ladrões que sabem até mesmo abrir janelas de casas para assaltar o café da amanhã.

    E a astúcia do Water Chevrotain ao se ocultar, habilmente nas águas de um rio, para escapar do ataque de uma Águia-real? http://www.youtube.com/watch?v=13GQbT2ljxs&NR=1

    Como eu dizia outrora e alhures, os animais, como o homem, estão em busca do prazer - esse é o principal objetivo do homem, a razão é só um subterfúgio para dizer que o homem está a criar coisas mais "plenas", "sentimentais" e "racionais".

    Os animais também estão em busca do prazer, quando por exemplo um bando de macacos ficam bêbados comendo amarula e depois voltam a fazer isso de forma "consciente" ou seja, com conhecimento de causa.

    Não há pois, como imaginarmos uma "evolução" no sentido de astúcia e razão serem linhas delimitadoras entre o ser auto-consciente e o animal.

    Para não me estender, direi que a razão é simbólica, ela produz representações sobre a realidade. Os animais também têm linguagem, mas não é uma linguagem simbólica que pode ser escrita em algum lugar e ser passada para as gerações futuras.

    Enfim, fomos para outro tema, e sobre o artigo criticando a idéia de Evolução e Progresso em Allan Kardec ninguém disse nada até agora.

    Vamos aguardar,

    ;)

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  3. Todas as cogitações filosóficas que possamos fazer, por certo, jamais chegarão muito perto de tudo o que realmente queremos expressar.

    "Evolução" é um conceito que traz em si a idéia de "progresso" (ao menos como resultante). "Progresso", por sua vez, nos remete à idéia de "processo": uma sequência de entes inter-relacionados.

    Uma sequência de entes inter-relacionados... Não creio que a evolução possa ser vista como uma sequência de fenômenos inter-relacionados, sob pena de ter que reconhecer a existência de uma natureza finalística e determinante.

    Ora, tudo isso são meros construtos da racionalidade.

    A Natureza não produz aperfeiçoamentos; ela produz modificações. Quando uma modificação é, no contexto das circunstâncias, favorável, será um "aperfeiçoamento"; caso contrário, será apenas o que sempre foi: o fluxo da Natureza.

    Mas "fluxo" também não merece maior consideração. É uma idéia de inter-relacionamento também. O próprio tempo, sucessão de coisas transitórias, não merece outra designação hoje em dia senão "tempo blocado".

    Tudo isso para pensarmos no seguinte: a razão é apenas e tão-somente uma forma de percepção de algo que se apresenta ao ser humano, uma forma que lhe traz a ilusória sensação de que compreende. No entanto, é uma fase de simbolismo, de subsunção a um Gabarito Sagrado (a razão), que me parece tão natural como a percepção pura de um Avatar.

    Os anjos não estão inseridos nos limites rigorosos e muito específicos da experiência humana. Nós não estamos na amplidão da sensibilidade angélica.

    Entrementes, os anjos nos intuem e os homens racionalizam. Ambos estarão comungando da Fonte consoante suas potencialidades atuais.

    Se avançarmos no tempo blocado e olharmos o que existe mais adiante, imagino que nos veremos quais anjos despreocupados com a racionalidade.

    Será???

    Creio que um anjo não pode viver a experiência material só porque o deseja. Um homem não pode viver a experiência transcendente à sua condição só porque o deseja.

    Então, como uma coisa desagua na outra?

    Acho que o Cosmos é uma ondulação que gira em torno de seu centro.

    Como você sabe, uma rolha flutuando na água não é "empurrada" pela passagem de uma onda: apenas oscila para cima e para baixo. No entanto, a onda se propaga.

    Quando a nossa Onda de Vida estiver nas rolhas dos anjos, outra Onda de Vida estará nas rolhas dos homens.

    Esse tipo de cogitação é a agonia da razão, ferida de morte, na tentativa até bizarra de descrever algo que equivaleria à manifestação do incognoscível.

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  4. Marco, obrigado pelo comentário!

    Esse post seu está perfeito, figurando até, à conta de uma "entrada" para uma discussão mais ampla.

    Mas eu vou continuar insistindo que ainda não se COMENTARAM o artigo em pauta!! rsrs

    Abçs,

    ;)

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  5. - O que é o Espiritualismo Científico ou Novo Espiritualismo? Ele é novo em que sentido?

    Não sei... Mas sinceramente acho que a Doutrina Espírita (assim entendida a Codificação), é uma síntese (eu diria: o menor denominador comum) das informações que a tradição espiritualista (tanto do Ocidente como do Oriente), restritas a uma formulação mais palatável e com vistas a uma massificação dessas informações.

    Creio que é mais ou menos isso.

    Nesse contexto, o uso da razão --- e aí eu concordo plenamente --- seria inevitável... Como expressar as idéias e conceitos da filosofia oriental de modo a formar uma cartilha fundamental para o homem do Ocidente?

    Eu sinceramente admiro e respeito (se é que isso é necessário) a Doutrina Espírita, porquanto é um avanço interessante na divulgação de informações até então praticamente restritas aos "iniciados" das ordens esotéricas (ao menos no Ocidente...).

    Mas é como um almanaque... Uma enorme abrangência com mínima profundidade.

    Heindel fez algo que eu considero mais ousado. Blavatsky também. Mas ambos não obtiveram nem de perto o sucesso de divulgação que o Espiritismo ostenta.

    Não há rigorosamente nada de novo abaixo do sol.

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