domingo, 3 de abril de 2011

A Natureza da Aparência de Mundo


Quando Shankara afirma que o mundo do pensamento e da matéria não é real, não está querendo dizer
que ele não existe. A aparência de mundo é e não é. No estado de ignorância (nossa consciência de todos
os dias) ele é vivenciado, e existe tal como nos aparece. No estado de iluminação ele não é vivenciado, e
deixa de existir. Shankara não vê nenhuma experiência como inexistente enquanto ela é vivenciada, mas
deduz naturalmente uma distinção entre as ilusões particulares do indivíduo e a ilusão universal ou ilusão
do mundo. À primeira ele chama pratibhasika (ilusória); à segunda, vyavaharika (fenomenal). Por exemplo,
os sonhos de um homem são as suas ilusões particulares; quando ele acorda, elas deixam de existir.


Mas a
ilusão universal - a ilusão do mundo fenomenal - persiste durante toda a vida de vigília do homem, a não ser
que ele se conscientize da Verdade mediante o conhecimento de Brahman. Além disso, Shankara
estabelece uma distinção entre esses dois tipos de ilusão e as idéias que são totalmente irreais e
imaginárias, que representam uma impossibilidade total ou uma flagrante contradição de termos - como o
filho de uma mulher estéril.
Estamos, pois, diante de um paradoxo - o mundo é e não é. Ele não é nem real nem inexistente. E, não
obstante, esse aparente paradoxo é simplesmente a afirmação de um fato - fato que Shankara denomina
Maya. Esse Maya, essa aparência de mundo tem sua base em Brahman, o eterno. O conceito de Maya se
aplica unicamente ao mundo fenomenal, que, segundo Shankara, consiste em nomes e formas. Ele não é
inexistente, porém difere da Realidade, Brahman, da qual depende para a sua existência. Ele não é irreal,
visto que desaparece à luz do conhecimento da sua base eterna. A aparência de inundo é Maya; só o Eu, o
Atman, é real.


Sobreposição, ou Maya

O mais difícil dentre todos os problemas filosóficos é o da relação entre o finito e o Infinito, o problema de
como este mundo finito veio a existir. Se acreditamos que o finito tem uma realidade própria absoluta e que
ele se origina do Infinito e é uma verdadeira transformação do Infinito, ou se consideramos o Infinito como
urna primeira causa transcendental do mundo fenomenal (posição sustentada pela maioria dos teólogos
cristãos), então temos de admitir que o Infinito já não é infinito. Um Deus que se transforma a Si mesmo no
universo visível está Ele próprio sujeito à transformação e à mudança - não se pode considerá-lo corno a
realidade absoluta. Um Deus que cria um mundo limita a Si mesmo pelo próprio ato da criação, e portanto
deixa de ser infinito. A pergunta "Por que Deus haveria de criar?" permanece sem resposta.
Essa dificuldade é superada, porém, se considerarmos o mundo como Maya. E esta explicação do nosso
universo está, além do mais, em perfeito acordo com as descobertas da ciência moderna - que se podem
resumir assim:
Uma bolha de sabão com irregularidades e rugas em sua superfície é talvez a melhor imagem do novo
universo que nos foi revelado pela teoria da relatividade. O universo não é o interior da bolha de sabão, mas
a sua superfície - e a substância da qual a bolha é soprada, a película de sabão, é um espaço vazio fundido
o tempo vazio. 1
Deste modo, só quando analisamos a natureza do Universo e o descobrimos como Maya - nem
absolutamente real, nem absolutamente inexistente - é que compreendemos como a superfície fenomenal
da bolha de sabão salvaguarda a eterna presença do Absoluto. Os Upanishads, é verdade, parecem
considerar Brahman como a causa primeira do universo, tanto material como eficiente. Afirmam eles que o
universo emana do Brahman absoluto, subsiste nele e, finalmente, funde-se com ele. Shankara nunca nega
diretamente os Upanishads, mas explica diferentemente essas afirmações. O universo, diz ele, é uma
sobreposição a Brahman. Brahman permanece eternamente infinito e imutável. Não está transformado
neste universo. Ele simplesmente aparece a nós como este universo, na nossa ignorância. Nós
sobrepomos o mundo aparente a Brahman do mesmo modo que às vezes sobrepomos urna cobra a um
rolo de corda.
1Essa teoria da sobreposição (vivartavada) está indissoluvelmente ligada à teoria da causalidade. A relação
causal existe no mundo da multiplicidade, que é Maya. No interior de Maya, a mente não pode funcionar
sem urna relação causal. Mas falar de causa e efeito com referência ao Absoluto é simplesmente absurdo.
Buscar saber o que causou o mundo é transcender o mundo; buscar encontrar a causa de Maya é ir além
de Maya - e, quando o fazemos, Maya desaparece, porquanto o efeito deixa de existir. Como, então, pode
haver urna causa de um efeito inexistente? Em outras palavras, a relação entre Brahman e Maya é, pela
sua própria natureza, incognoscível e indefinível por qualquer processo do intelecto humano.


Maya: uma declaração de fato e de princípio

Portanto, segundo Shankara, o mundo do pensamento e da matéria possui uma existência fenomenal ou
relativa e está sobreposto a Brahman, a realidade única, absoluta. Enquanto permanecermos na ignorância
(isto é, enquanto não tivermos realizado a consciência transcendental), continuaremos a experimentar este
mundo aparente, que é o efeito da sobreposição. Quando se realiza a consciência transcendental, a
sobreposição cessa.
Qual a natureza dessa sobreposição? Na introdução ao seu comentário sobre os Brahma Sutras, Shankara
nos diz que sobreposição é a apresentação aparente à consciência, pela memória, de algo que foi
anteriormente observado em alguma outra parte . Vemos uma cobra. Lembramo-nos dela. No dia seguinte,
vemos um rolo de corda. Sobrepomos a ela a lembrança da cobra e desse modo falseamos a sua natureza.
Shankara antecipa uma objeção à sua teoria e trata de refutá-la. Podemos desafiar a teoria da
sobreposição afirmando que Brahman não é um objeto de percepção. Como podemos sobrepor uma cobra
a uma corda que não percebemos? Como podemos sobrepor uma aparência de mundo a uma realidade
que não é visível aos nossos sentidos? Porque todo homem sobrepõe objetos a outros objetos conforme
estes se apresentam à sua percepção (isto é, conforme entram em contato com seus órgãos sensoriais) .-
A isso Shankara responde: Brahman não é, replicamos nós, não-objetivo no sentido absoluto. Porque
Brahman é o objeto da idéia do ego. Sabemos perfeitamente, por intuição, que o Eu profundo existe, já que
a idéia do ego é uma representação do Eu. Nem é uma regra absoluta que objetos possam ser sobrepostos
apenas a outros objetos tal como eles se nos apresentam; porque as pessoas ignorantes sobrepõem um
azul-escuro ao céu, que não é um objeto de percepção sensorial .
Esta afirmação requer alguma explicação adicional. Embora Brahman nunca seja visível à nossa percepção
sensorial do dia-a-dia, existe um modo no qual estamos cônscios da realidade: o Eu profundo. Brahman,
como ficou dito, é a existência, o conhecimento e a bem-aventurança absoluta. SÓ na consciência
transcendental podemos perceber isso plenamente. No entanto, Brahman é parcialmente visível também à
nossa consciência normal. Brahman é Existência, e todos sabemos que existimos. Neste sentido, cada um
de nós tem um conhecimento intuitivo do Eu profundo (o Atman, ou Brahman-dentro-da-criatura). Porém o
Eu profundo, a realidade, nunca é um objeto da percepção sensorial - porque na nossa ignorância,
sobrepomos a idéia de uma individualidade particular - a de ser o Sr. Smith ou a Sra. Jones - à nossa
percepção da Existência. Somos incapazes de compreender que a Existência não é nossa propriedade
particular, que ela é universal e absoluta. O Eu profundo, portanto, está presente na nossa consciência
normal como o objeto da idéia do ego tradução literal da frase de Shankara. A sobreposição da idéia do
ego à Existência constitui o nosso primeiro e mais importante ato como seres humanos. No momento em
que praticamos esse ato central de sobreposição - no momento em que dizemos eu sou eu, sou um ente
particular, sou separado, sou um indivíduo , estabelecemos uma espécie de reação em cadeia que torna
inevitáveis novas sobreposições. A reivindicação da nossa individualidade implica a presença da
individualidade em toda parte. Ela sobrepõe automaticamente um mundo múltiplo de criaturas e objetos à
realidade única, não-dividida, à Existência que é Brahman. Idéia do ego e aparência de mundo dependem
um do outro. Abandone a idéia do Ego na consciência transcendental, e a aparência de mundo deve
necessariamente desaparecer.
Quando e como ocorreu esse ato de sobreposição? Foi no nosso nascimento individual ou numa vida
anterior? Foi num momento histórico - correspondente à história da queda de Adão - em que o mundo
fenomenal veio a existir como decorrência da idéia do ego? A futilidade de semelhantes perguntas se
evidencia por si mesma. Andamos meramente à volta de um círculo. O que é essa aparência de mundo
Maya? Quem o criou? A nossa ignorância. O que é essa ignorância? Maya, igualmente. Se houve, há e
sempre haverá uma realidade imutável, como podemos admitir que Maya teve início num momento histórico
específico? Não podemos.
10
Devemos pois concluir, como Shankara, que Maya, a exemplo de Brahman, não teve começo. A ignorância
como causa e a aparência de mundo como efeito sempre existiram e sempre existirão. São como a
semente e a árvore. A conexão entre o real e o irreal produzida pela nossa ignorância é um processo
universalmente manifesto em nossa vida diária. Shankara diz: É óbvio, e não precisa de provas, o fato de
que o objeto que é o não-ego e o sujeito que é a idéia do ego (sobreposta ao Eu) são opostos um ao outro
como a luz e as trevas. Não se pode identificá-los, e muito menos seus respectivos atributos . No entanto, é
próprio do homem (devido ao seu conhecimento errôneo) não poder diferenciar entre essas entidades
distintas e seus respectivos atributos. Ele sobrepõe a um a natureza e os atributos do outro, ligando o real
ao irreal e servindo-se de expressões como "eu sou isto , isto é meu".
Shankara fala aqui de dois estágios inerentes ao processo de sobreposição. Primeiro a idéia do ego é
sobreposta ao Eu profundo, à existência-realidade. Depois a idéia do ego, exteriorizando-se, por assim
dizer, identifica-se com o corpo e com os atributos e as ações físicas e mentais do corpo. Dizemos, como se
fosse a coisa mais natural, eu sou gordo , "eu estou cansado", "eu estou andando , eu estou sentado ,
sem nos determos para considerar o que vem a ser esse eu . E vamos mais longe. Reivindicamos como
nossos objetos e condições puramente exteriores. Declaramos que "eu sou republicano" ou que esta casa
é minha . À medida que se multiplicam as sobreposições, afirmações insólitas tomam-se possíveis e
normais - tais como "afundamos ontem três submarinos ou tenho um excelente seguro . De certo modo,
identificamos o nosso ego com cada objeto do universo. E, enquanto isso, o Eu profundo atua como
espectador, totalmente dissociado desses esgares e disposições de ânimo - mas tomando-os possíveis
pelo fato de proporcionar à mente aquela luz da consciência sem a qual Maya não poderia existir.
Que Maya não tem princípio pode ser igualmente demonstrado se retomarmos por um momento a imagem
da corda e da cobra. A sobreposição da cobra à corda só é possível se pudermos lembrar da aparência da
cobra; uma criança que nunca viu uma cobra nunca faria essa sobreposição. Como pode o recém-nascido,
então, sobrepor a cobra (aparência de mundo) à corda (Brahman)? Só poderemos responder a essa
pergunta se postularmos uma memória da cobra universal, comum a toda a humanidade e existente
desde um tempo sem princípio. Essa memória da cobra" é Maya.
Maya, diz Shankara, é não apenas o universal mas também o que não tem princípio nem fim. No entanto,
deve-se fazer uma distinção entre Maya como princípio universal e a ignorância (avidya), que é individual. A
ignorância individual não tem princípio, mas pode terminar a qualquer momento: ela desaparece quando o
homem alcança a iluminação espiritual. Desse modo, o mundo pode desaparecer da consciência de um
indivíduo e ainda assim continuar a existir para o resto da humanidade. Nisso a filosofia de Shankara difere
essencialmente do idealismo subjetivo do Ocidente.


Brahman e Iswara

Em certo sentido, Brahman é a causa primordial do universo -já que, pela ação de Maya, a aparência de
mundo é sobreposta a Brahman. Brahman é a causa, Maya, o efeito. Todavia, não se pode dizer que
Brahman. se transformou no mundo ou que o criou, porque a Realidade absoluta é, por definição, incapaz
de ação ou de mudança temporal. Outra palavra, lswara, pode pois ser empregada para descrever o
princípio criativo. lswara é Brahman unido a Maya - a combinação de Brahman e seu poder que cria,
preserva e dissolve o universo num processo sem princípio e sem fim. lswara é Deus personificado, Deus
com atributos.
De acordo com o sistema de filosofia Sankhya, o universo é uma evolução da Prakriti - matéria
indiferenciada, composta de três forças chamadas gunas. A criação é uma perturbação no equilíbrio dessas
forças. As gunas começam a passar por uma enorme variedade de combinações - mais ou menos como na
teoria ocidental da estrutura atômica - e essas combinações constituem os elementos, os objetos e as
criaturas individuais. Esse conceito da Prakriti corresponde, até certo ponto, ao conceito de Maya formulado
por Shankara, mas com esta importante diferença: Prakriti é considerada distinta e independente de
Purusha (a Realidade absoluta), enquanto Maya é vista como destituída de realidade absoluta, mas como
dependente de Brahman. Portanto, é lswara, e não Prakriti, que pode ser descrita como a causa primordial
do universo.
Existem então dois Deuses - um impessoal Brahman, outro o pessoal lswara? Não - porque Brahman só
aparece como lswara quando visto pela relativa ignorância de Maya. lswara possui o mesmo grau de
realidade que Maya. Deus, a Pessoa, não é a natureza primordial de Brahman. Nas palavras de Swami
Vivekananda, o Deus Pessoal é a leitura do Impessoal pela mente humana .

2 comentários:

  1. A comida do manto


    Certa vez, fui a um banquete servido em uma aldeia próxima. Todos estavam convidados. Quando o mestre de cerimônias me viu com um manto esfarrapado colocou-me no pior lugar, longe da grande mesa onde os mais importantes convivas estavam sendo servidos com todas as regalias.

    Durante meia hora esperei calmamente. Percebi que o mestre de cerimônias nem passava perto de mim. Então resolvi dar o meu jeito. Saí, fui até minha casa e vesti o meu mais bonito manto combinando com um magnífico turbante ganho de presente de um amigo. Assim adornado, retornei à festa.

    Por causa da diferente vestimenta não fui reconhecido e logo fizeram soar as trombetas anunciando que alguém importante acabara de entrar. Após o anúncio fui conduzido pelo cerimonial a um assento ao lado do emir.

    Logo que me sentei ofereceram-me uma imensa variedade de pratos, um mais bonito que o outro. Não me fiz de rogado. Servi-me e comecei a esfregar comida pelo manto e turbante.

    Senti os olhares perplexos dos convidados. O emir então comentou:

    - Estou curioso quanto a esse seu costume à mesa. É inteiramente novo para mim.

    Respondi prontamente:

    - Não é nada demais. O manto e o turbante me fizeram chegar até aqui. O senhor não acha justo que eles ganhem a parte deles?

    Do livro: Eu, Nasrudin

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  2. Hahahahaa. Eu que não fique atento não! que esses meus leitores estão de olho em tudo, quase mais atualizados do que o próprio blog rsrs.

    Eu acho o máximo os contos e piadas "sufi" do Mulla Nasrudin.

    Essa é para descontrair:

    O contrabandista


    Volta e meia, Nasrudin atravessava a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado no lombo de um burro. Toda vez passava com dois cestos cheios de palha e voltava sem eles, arrastando-se a pé. Toda vez o guarda procurava por contrabando. Nunca o encontrou.
    - O que é que você transporta, Nasrudin?
    - Sou contrabandista."
    Anos mais tarde, com uma aparência cada vez mais próspera, Nasrudin mudou-se para o Egito. Lá encontrou um daqueles guardas de fronteira.
    - Diga-me, Mullá, agora que você está fora da jurisdição grega e persa, instalado por aqui nesta vida boa - o que é que você contrabandeava, que nunca conseguimos pegar?
    - Burros.

    Abçs, e obrigado pela participação!!

    Bjuxxx,

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