sábado, 16 de abril de 2011

Duas Interpretações a Respeito do Ego



AS DUAS INTERPRETAÇÕES A RESPEITO DO EGO - Joseph Campbell, IN: "As Máscaras de Deus"


O termo indiano yoga deriva tia raiz verbal sânscrita yuj, "ligar, juntar ou unir", etimologicamente relacionada com "emparelhar" — uma canga de bois — e é, em certo sentido, análoga à palavra "religião" (latim re-ligio), "ligar de volta ou atar". O homem, a criatura, é ligado de volta a Deus pela religião. Entretanto, a religião, religio, refere-se a uma vinculação historicamente condicionada por meio de uma aliança, sacramento ou livro sagrado, enquanto a ioga é a vinculação psicológica da mente com o princípio superior "pelo qual a mente conhece".21 Além do mais, na ioga o que é unido é, finalmente, o Si-Próprio consigo mesmo, consciência com consciência; pois o que parecia, através da māyā, ser dois, na realidade não é assim; ao passo que na religião, o que se une são Deus e o homem, que não são a mesma coisa. Nas religiões populares do Oriente, entretanto, os deuses são adorados como se fossem exteriores a seus devotos e são observados todos os ritos e regras de uma relação convencionada.

Em outras palavras, a maturidade espiritual, conforme entendida no moderno Ocidente, requer uma diferenciação entre o ego e o id, enquanto no Oriente, ao longo de pelo menos toda a história de todas as doutrinas que provieram da Índia, o ego (aham-kāra: "a emissão do som 'Eu'") é impugnado como o princípio da ilusão libidinosa, a ser dissolvida.



Vamos lançar um olhar sobre a maravilhosa história do Buda no episódio em que alcança o propósito de todos os propósitos sob a "árvore do despertar", a árvore Bo ou Bodhi (bodhi, "despertar"). O Bem-aventurado, sozinho, acompanhado apenas de sua própria decisão, com a mente firmemente determinada, ergueu-se como um leão ao cair da noite, na hora em que as flores se fecham e, encaminhando-se para uma estrada que os deuses tinham forrado de bandeiras, apressou-se em direção à árvore Bodhi. Cobras, gnomos, pássaros, músicos divinos e muitos outros seres o veneraram com perfumes, flores e outras oferendas, enquanto os coros dos céus entoavam música celestial; de maneira que os dez mil mundos ficaram repletos de aromas agradáveis, grinaldas e brados de júbilo. Naquele momento, surgiu na direção oposta um cortador de grama chamado Sotthiya, carregando um fardo de grama; quando ele viu o Grande Ser, que era um homem santo, deu-lhe de presente oito punhados. Depois disso, chegando junto da árvore Bodhi, aquele que estava prestes a tornar-se o Buda ficou em pé no lado sul, de frente para o Norte. Imediatamente, a metade sul do mundo afundou até parecer locar o mais inicio dos infernos, enquanto a metade norte se elevou até o céu mais alto. "Parece-me", disse o futuro Buda, "que este não pode ser o lugar para a obtenção da suprema sabedoria", e caminhando em volta da árvore, com seu lado direito voltado para ela, chegou ao lado oeste e postou-se de frente para o Leste. Em seguida, a metade oeste do mundo afundou até parecer tocar o mais ínfero dos infernos, enquanto a metade leste elevou-se até o mais alto dos céus. De fato, onde quer que o Bem-aventurado parasse, a vasta terra elevava-se e afundava-se, como se fosse uma imensa roda deitada sobre seu eixo e alguém estivesse pisando em sua borda.


"Penso", disse o futuro Buda, "que este também não pode ser o lugar para a obtenção da suprema sabedoria", e continuou caminhando, com seu lado direito voltado para a árvore, até chegar ao lado norte, colocando-se de frente para o Sul. Então a metade norte do mundo afundou até parecer tocar o mais ínfero dos infernos, enquanto a metade sul se elevou até o mais alto dos céus. "Penso", disse o futuro Buda. "que este tampouco pode ser o lugar para a obtenção da suprema sabedoria", e caminhando em volta da árvore, com seu lado direito voltado para ela, chegou ao lado leste e colocou-se de frente para o Oeste. Pois bem, é do lado leste de suas árvores Bodhi que todos os Budas sentaram, de pernas cruzadas, e esse lado jamais estremeceu ou oscilou. [pag. 022] Então, o Grande Ser, dizendo para si mesmo "este é o Ponto Imóvel, no qual todos os Budas se assentaram; este é o lugar propício para destruir a rede das paixões", apanhou um tufo do grama por uma das pontas e sacudiu-o. E imediatamente as folhas da grama formaram um assento medindo catorze cúbilos [50 cm] de lado, tão simétrico que nem mesmo o mais habilidoso pintor ou escultor conseguiria desenhar.


O futuro Buda, de costas para o tronco da árvore Bodhi, colocou-se de frente para o Leste e, tomando a firme resolução: "que minha pele, nervos e ossos fiquem secos; que toda a carne e sangue do meu corpo sequem, mas eu não me moverei deste assento até atingir a sabedoria suprema e absoluta!", sentou-se de pernas cruzadas numa postura inabalável, da qual nem mesmo uma centena de raios caindo de uma só vez poderia removê-lo.25 Tendo deixado seu palácio, esposa e filho alguns anos antes, para buscar o conhecimento que deveria libertar do sofrimento todos os seres, o príncipe Gautama Śākyamuni chegara, finalmente, ao ponto central, o ponto que sustenta o universo aqui descrito em termos mitológicos, para que não seja tomado como um local físico que pudesse ser encontrado em algum lugar da terra. Sua localização é psicológica. E aquele ponto de equilíbrio na mente, do qual o universo inteiro pode ser contemplado: o ponto imóvel de desapego em torno do qual giram todas as coisas. Ao homem secular, as coisas parecem mover-se no tempo e ser, em seu caráter último, concretas. Eu estou aqui, você está lá; direito e esquerdo; em cima, embaixo; vida e morte. Os pares de opostos estão todos em volta e a roda do mundo, a roda do tempo, está sempre girando, com nossas vidas presas ao seu aro. Entretanto, há um ponto central que tudo sustenta, um centro onde os opostos convergem, como os raios de uma roda, na vacuidade. E é ali, diz-se, de frente para o Leste (a direção do novo dia) que os Budas do passado, do presente e do futuro — pertencentes a um único Estado de Buda, embora se manifeste variadamente no tempo — experimentaram a absoluta iluminação.


O príncipe Gautama Śākyamuni, com sua mente firmada naquele centro e prestes a desvendar o mistério último da existência, seria agora assaltado pelo senhor da ilusão da vida: aquele mesmo Si-Próprio-em-forma-de-um-homem que, antes do princípio do tempo, olhou em volta e não viu nada alem de si e disse "Eu", e imediatamente sentiu, primeiro medo e depois desejo. Representado mitologicamente, esse mesmo Ser de todos os seres apareceu diante do futuro Buda, primeiro como um príncipe, portando um arco florido, personificando Eros. Desejo (em sânscrito, kāma) e depois como um aterrorizante marajá de demônios, montado em um elefante guerreiro, o Rei Tanatos (em sânscrito, māra). Rei Morte.


EM uma famosa versão sânscrita da vida do Buda, escrita por Ashvaghosha (c. 100 d.C), um dos primeiros mestres do assim chamado estilo "poético" (kāvya) de composição literária, brâmane douto que se converteu à ordem budista, lemos: aquele que no mundo é chamado de Senhor Desejo, o dono das setas floridas, que também é chamado de Senhor Morte e é o inimigo último do desapego, conclamando [pag. 023] seus três filhos encantadores, ou seja, Loucura, Folia e Orgulho, e suas voluptuosas filhas, Luxúria, Prazer e Anseio, enviou-os ao Bem-aventurado. Pegando seu arco florido e suas cinco flechas que instilam paixão, chamadas, A Incitadora do Auge do Desejo, A Que dá Contentamento, A Que Cega de Paixão, A Abrasadora e A Portadora da Morte, ele acompanhou sua prole até o pé da árvore onde o Grande Ser estava sentado. Brincando com uma flecha, o deus apareceu e dirigiu-se ao tranqüilo vidente que ali estava fazendo sua travessia até a costa distante do oceano da existência. "Levante-se, levante-se, nobre príncipe!", ele ordenou em tom de divina autoridade. "Lembre-se dos deveres de sua casta e abandone esta busca dissoluta de desapego. A vida mendicante não é para aquele que nasceu numa casa nobre; mas antes, pela lealdade aos deveres de sua casta, ficará a serviço da sociedade, manterá as leis da religião revelada, combaterá a perversidade no mundo e com isso, na qualidade de um deus, merecerá uma morada no mais alto céu." O Bem-aventurado não se moveu. "Não vai levantar-se?", perguntou então o deus. E colocou uma flecha no arco. "Se for obstinado, teimoso e persistir em sua decisão, esta flecha que estou armando e que já inflamou o próprio sol será arremessada, fila já está apontando a língua em sua direção, como uma serpente." E, ameaçando sem nenhum efeito, ele disparou a flecha — sem resultado. Pois o Bem-aventurado, pelo mérito de inumeráveis atos de doação ilimitada praticados durante suas inúmeras vidas, tinha dissolvido em sua mente o conceito do "eu" (aham) e, com isso, a experiência correlata de qualquer "tu" (tvam).


Na vacuidade do Ponto Imóvel, debaixo da árvore do conhecimento
além dos pares-de-opostos, além da vida e da morte, do bem e do mal, do eu e do tu, se ele tivesse pensado no "eu" teria sentido "eles ou elas" e, vendo as voluptuosas filhas do deus que se exibiam, sedutoras, à sua frente, como objetos na esfera de um sujeito, teria precisado no mínimo, controlar-se. Entretanto, não havendo nenhum "eu" presente em sua mente, não havia tampouco nenhum "eles ou elas". Absolutamente imóvel, porque ele próprio absolutamente ausente, assentado no Ponto Imóvel na atitude inabalável de todos os Budas, o Bem-aventurado era invulnerável à flecha. E o deus, percebendo que seu ataque tinha fracassado, pensou: "Ele nem mesmo percebe a flecha que inflamou o sol! Será que é destituído de sentidos? Ele não merece nem minha flecha florida nem nenhuma das minhas filhas: vou enviar contra ele meu exército". E imediatamente, despindo-se de seu aspecto atraente como Senhor Desejo, o grande deus tornou-se o Senhor Morte e em volta dele irrompeu um exército de criaturas demoníacas, ostentando formas assustadoras e portando nas mãos arcos e flechas, dardos, maças, espadas, árvores e mesmo montanhas resplandecentes; com aparência de javalis, peixes, cavalos, camelos, asnos, tigres, ursos, leões e elefantes; com um só olho, várias caras, três cabeças, pançudos e com barrigas pintadas; munidos de garras, presas, alguns trazendo nas mãos corpos sem cabeça, muitos com [pag. 024] caras semimutiladas, bocas monstruosas, joelhos cobertos de nós e catinga de bode; vermelhos cor-de-cobre, alguns vestindo couro, outros absolutamente nada, com cabelos cor-de-fogo ou de fumaça, muitos com longas orelhas pendentes, com a metade da cara branca, outros com a metade do corpo verde; pintados de vermelho e cor-de-fumaça, amarelo e negro; com braços mais longos do que o alcance das serpentes, os cintos com sinos tilintantes; alguns tão altos quanto palmeiras, portando lanças; alguns do tamanho de uma criança, com dentes saltados; alguns com corpo de pássaro e cara de carneiro ou corpo de homem e cara de gato; com cabelos hirsutos, com topetes ou semicarecas; com expressões carrancudas ou triunfantes, consumindo forças ou fascinando mentes. Alguns divertindo-se no céu, outros no topo das árvores; muitos dançavam uns sobre os outros e muitos, ainda, pulavam desvairadamente no chão. Um deles, dançando, balançava um tridente; outro estalava sua maça; um, feito um touro, pulava de alegria; outro esparzia chamas de cada fio de cabelo. E havia alguns que se postaram à sua volta para assustá-lo com muitas línguas espichadas, muitas bocas, selvagens, dentes pontudos afiados, orelhas pontudas como pregos e olhos iguais ao disco solar. Outros, saltando para o céu, arremessavam rochas, árvores e machados, espalhando chamas tão volumosas quanto picos de montanhas, chuvas de brasas, serpentes de fogo e chuvas de pedras. E o tempo todo, uma mulher nua, com uma caveira na mão, agitava-se à volta, irrequieta, não parando em nenhum lugar, como a mente de um estudante distraído debruçado sobre os textos sagrados. Mas vejam! entre todos esses terrores, visões, sons e odores, a mente do Bem-aventurado não estava mais abalada do que o juízo de Garuda, o pássaro-sol de penas douradas, entre os corvos.


E uma voz gritou do céu: "Ó Mara, não se canse em vão! Desista dessa maldade e vá embora em paz! Pois mesmo que o fogo um dia abandone o seu calor, a água sua fluidez, a terra sua solidez, jamais este Grande Ser, que adquiriu o mérito que o trouxe até esta árvore por muitas vidas em inumeráveis eras, abandonará sua determinação". E o deus Mara, frustrado, desapareceu com seu exército. O céu, iluminado pela lua cheia, brilhou então como o sorriso de uma donzela e derramou sobre o Bem-aventurado flores, pétalas de flores, ramalhetes de flores úmidas de orvalho.


Naquela noite, ao longo da noite, no primeiro período de vigília daquela noite maravilhosa, ele adquiriu o conhecimento de sua existência anterior; no segundo período conquistou a visão divina; no último, compreendeu a Lei da Originação Dependente e, ao nascer do sol, atingiu a onisciência. A terra estremeceu de prazer, como uma mulher excitada. Os deuses desceram do todos os lados para adorar o Bem-aventurado que era agora o Buda, o Desporto. "Glória a ti, herói iluminado entre os homens", eles cantavam enquanto o circundavam movendo-se no sentido do sol. E chegaram todos os demônios da terra, mesmo os filhos e filhas de Mara, as divindades que vagam pelo céu e as que andam no chão. E depois de terem adorado o vitorioso com todas as formas de homenagens de acordo com suas posições, retornaram a suas diversas moradas, radiantes pelo novo êxtase.


Em resumo: o Buda, havendo dissolvido o senso de "eu", orientou sua consciência para além da motivação da criação — o que, entretanto, não significou que ele tivesse deixado de viver. De fato, ele permaneceria por mais meio século no mundo do tempo e do espaço, participando — oh, ironia! — da vacuidade dessa multiplicidade, percebendo a dualidade, mas sabendo que ela é ilusória, ensinando compassivamente o que não pode ser ensinado a outros que, na verdade, não eram outros. Pois não há nenhuma forma de comunicar uma experiência em palavras àqueles que ainda não viveram essa experiência — ou, pelo menos, algo que se aproxime dela, à qual só possa fazer referência por analogias. Além do mais, onde não há ego, não há "outro" a ser temido, desejado ou ensinado. Na doutrina clássica indiana das quatro finalidades para as quais se supõe que os homens vivam e lutem — amor e prazer (kāma), poder e sucesso (artha), ordem legal e virtude moral (dharma) e, finalmente, libertação da ilusão (mokṣa) — notamos que as duas primeiras são manifestações do que Freud chamou de "princípio do prazer", impulsos primários do homem natural, resumidos na fórmula "eu quero".

No adulto, de acordo com a visão oriental, esses impulsos devem ser dominados e controlados pelos princípios do dharma que, no sistema clássico indiano, são estampados no indivíduo pela instrução outorgada por sua casta. O infantil "eu quero" deve ser dominado pelo "tu deves", aplicado socialmente (não determinado individualmente), o qual se supõe ser tão inerente à ordem cósmica imutável quanto o curso do próprio sol. Agora, deve-se observar que na versão que acabamos de apresentar sobre a tentação do Buda, o Antagonista representa as três primeiras finalidades (o assim chamado trivarga: "agregado de três"); pois em sua caracterização como Senhor Desejo ele personifica a primeira; como Senhor Morte, a força agressiva da segunda; enquanto em sua intimação ao sábio meditativo a levantar-se e retornar aos deveres de sua posição na sociedade, ele promove a terceira. E, na verdade, como uma manifestação daquele Si-Próprio que não apenas criou, mas sustenta permanentemente o universo, ele é a própria encarnação dessas finalidades. Pois elas, de fato, suportam o mundo. E na maioria dos ritos de todas as religiões, esse deus, digamos, trino e uno, é o único e exclusivo deus adorado. Entretanto, no nome e na realização do Buda. "O Iluminado", é anunciada a quarta finalidade: libertação da ilusão. E para sua obtenção, as outras são impedimentos, difíceis de serem removidos, mas não insuperáveis para quem tiver propósitos firmes. Sentado no umbigo do mundo, subjugando a perfeita força criativa que surgia em seu próprio ser e através dele, o Buda, de falo, irrompeu no vazio e ironicamente — o universo de imediato vicejou. Este ato de auto-anulação é um exemplo de esforço individual.


No entanto, um observador ocidental não pode deixar de notar que não há exigência ou expectativa em qualquer parte desse sistema indiano de quatro finalidades, com relação ao amadurecimento da personalidade através de: 1º) a adaptação individual, inteligente e sempre renovada, ao mundo espaço temporal que está ao nosso redor; 2º) a experimentação criativa com [pag. 026] possibilidades inexploradas e, 3º) a aceitação de responsabilidade pessoal pela realização de atos inauditos praticados dentro do contexto da ordem social. Na tradição indiana tudo foi perfeitamente ordenado desde toda a eternidade. Não pode haver nada de novo, nada a ser aprendido, exceto o que os sábios vêm ensinando desde tempos imemoriais. E finalmente, quando o fastio desse horizonte infantil do "eu quero" contra o "tu deves" se tornou insuportável, a quarta e última finalidade é tudo o que é oferecido — a extinção total do ego infantil: desapego ou libertação (mokṣa) tanto do "eu" quanto do "tu". No Ocidente europeu, por outro lado, onde a doutrina fundamental da liberdade de escolha dissocia essencialmente o indivíduo de todos os outros, do propósito da natureza e da vontade de Deus, entrega-se a cada um a responsabilidade de chegar de modo inteligente, a partir de sua própria experiência e volição, a algum tipo de relação com (não identidade com, nem extinção no) o todo, o vazio, o que é, o absoluto, ou qualquer que seja o termo apropriado para o que está além dos termos. E na esfera secular, espera-se que um ego educado deva ter ultrapassado a mera polaridade infantil dos princípios do prazer e da obediência, dirigindo-se para uma relação pessoal, sensível e não compulsiva, com a realidade empírica, uma certa atitude audaciosa diante do imprevisível e um senso de responsabilidade pessoal pura com as decisões: o ideal na vida não é ser um bom soldado, mas um indivíduo único e desenvolvido. E podemos procurarem vão no Oriente por algo semelhante. Lá o ideal, pelo contrário, é a extinção do ego, não seu desenvolvimento. Esta é, com algumas variantes, a fórmula presente em toda sua produção literária: uma sistemática, constante e insistente desvalorização do princípio do "eu" — a função da realidade que permaneceu, em conseqüência, pouco
desenvolvido e portanto amplamente vulnerável a identificações míticas indiscriminadas.


Contudo, a realização última, que os sábios celebraram, é que o deus adorado como algo externo é, na realidade, um reflexo do mesmo mistério do Si-Próprio. Enquanto permanecer a ilusão do ego, também permanecerá a ilusão proporcional de uma divindade separada, e vice-versa: enquanto for alimentada a idéia de uma divindade separada, uma ilusão do ego relacionada com ela no amor, medo, adoração, separação e reconciliação também estará presente. Mas precisamente essa ilusão de dualidade é o ardil da māyā. "Tu és Aquilo" (tat tvam asi)22 é o pensamento adequado ao primeiro passo em direção à sabedoria. No princípio, como vimos, havia apenas o Si-Próprio; mas ele disse "Eu" (em sânscrito, aham) e imediatamente sentiu medo e depois, desejo. Deve-se observar que nesta abordagem do instante da criação (apresentada do de dentro da esfera da psique do próprio ser criador), as duas motivações básicas são Identificadas da mesma forma que as principais escolas modernas de análise profunda as indicaram na psique humana: agressão e desejo. Ambos originam-se espontaneamente da fonte profunda e obscura das energias da psique, o id, e são governados, portanto, pelo autocentrado "princípio do prazer" — Eu quero: eu tenho medo. De modo semelhante, no mito indiano, assim que o Si-Próprio disse "Eu" (aham), ele conheceu primeiro o medo e depois o desejo. Mas agora e aqui, acredito, há um ponto de importância fundamental para nossa interpretação da diferença básica entre as abordagens oriental e ocidental no cultivo do espírito — no mito indiano o princípio do ego, "Eu" (aham), é totalmente [pag. 021] identificado com o princípio do prazer, enquanto nas psicologias tanto de Freud quanto de Jung sua função específica e conhecer a realidade externa e relacionar-se com ela ("princípio da realidade" de Freud): não a realidade da esfera metafísica, mas a da física, empírica, de tempo e espaço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente esse texto