sábado, 16 de abril de 2011

Deus em Nós - O que é a Meditação Afinal? - Praticando o Espiritualismo


Bom, depois de tantas postagens, a partir de diversos autores, textos, poemas, comentários, chega um pouco de teoria não é mesmo?

O que é a Meditação afinal? Como se pratica o desapego? Desapego de que? Será vender tudo o que temos e dar aos pobres? Pois, esta foi a idéia errônea e deturpada que o Cristianismo nos legou.

Pois que, o desapego que devemos ter é precisamente das idéias. Tais idéias e pensamentos continuam fluindo o tempo todo em nossa mente, e geram, não raro, estados de ânimo diversos como pré-ocupação, ansiedade, alegria, sentimentos de culpa, indecisão, desejos, desânimo, vontades, ódios ressentidos, sentimentos de vingança, de ternura, e principalmente o medo: medo de perder o que temos, medo de não mais termos o status social de que desfrutávamos, medo de perder o nosso amor, a nossa posição dentro da empresa, medos... Medo de tentar, medo de fracassar, medo disso ou daquilo.

Não obstante, todas essas idéias e pensamentos não são reais, são apenas, idéias e pensamentos, que no entanto, nós tomamos à conta de realidade, sempre que vivenciamos emocionalmente tais idéias e pensamentos.

Uma das técnicas Zen de Meditação é, pois, nomear esses pensamentos, no afã de perscrutar e descobrir a pseudo-realidade desses pensamentos. Assim, nos ensina o Zen, "temos que nomear os pensamentos". "Ela não me quer": não é uma realidade isto, é apenas o pensamento chamado "ela não me quer". "Fulano me olha com menosprezo"; "não sei se a minha palestra ou a minha aula de amanhã será boa, não sei o que pensarão", e enfim, outros numerosos exemplos poderiam ser citados.

Todos esses pensamentos são ILUSÕES, e na Prática da Meditação é que encontramos essa constatação. Um dos métodos eficazes e muito utilizados é ficar na posição "Flor de Lótus", com as pernas cruzadas, olhos fechados e coluna ereta, observando SEM EMITIR JUÍZOS OU OBJEÇÕES sobre esses pensamentos que nos surgem.

É assim que descobrimos que o "ela não me quer", não é uma realidade constatada é apenas uma idéia, um pensamento que nos surge à mente, e que acreditamos ser real. Talvez ela não o queira mesmo, mas a questão é: Por que existe a preocupação de "ela tem que me querer"?  E o próprio Buda, através dos seus ensinamentos vem nos dizer da pseudo-realidade dessas idéias e pensamentos: trata-se do desejo, ou seja, da busca do prazer e de satisfação almejados pelo eu ou pela personalidade.

E por que então - perguntar-se-à - essas idéias sobre Felicidade e Infelicidade se nos afiguram como "estados da alma" legítimos e consumados historicamente? Esta é uma boa pergunta, cuja resposta se encontra na História do Cristianismo. Todas as nossas práticas, idéias e ideais são cristãs... O Cristianismo, ao longo de 2 mil anos, construiu a idéia dualista de que, de um lado está Deus e a perfeição, e de outro, está o ser humano - como diz o nosso amigo Marco, a escória do Universo -, idéia essa que foi trabalhada de forma perversa pelos condutores de rebanho e religionários cristãos de todas as épocas.

Friedrich Nietzsche localizou o cerne dessa problemática quando, o povo de Israel subjugado pelos persas construiu a idéia do Salvador, que iria salvar Israel de "todos os dominadores cruéis e perversos e restaurar o Estado de Israel". Mas, observa Nietszsche, o povo de Israel tem duas alternativas no cativeiro: escolhe entre Ser ou Não-ser; escolhe a primeira, mas com isso renega toda a alteridade, e com isso cria o monoteísmo no Ocidente - não confundir "Monoteísmo" com "Monismo".

Não obstante, surge um problema: essa idéia do "Salvador que virár libertar o povo de Israel do jugo de seus verdugos", é transmutada pelos sacerdotes do tempo de Jesus - fariseus, saduceus e demais sacerdotes e intelectuais religiosos - e reinterpretada em termos do "salvador que virá redimir o mundo e os homens do pecado", pois o "pecado" será, doravante, considerado o grande "subjugador" das almas.

Nesse contexto, aqueles que operam a transmutação do conceito de "Salvador", criam a ideologia - rapidamente difundida por todos, incluindo os discípulos de Jesus - de que, Jesus, o Cristo, vêm para salvar o mundo do pecado e do erro, da ignorância.

Obviamente que, aqueles que proclamam tais enunciados, rapidamente se arvoram em "representantes de Deus na Terra", pois, se Jesus veio para salvar o homem da iniqüidade e do pecado, uma vez ele estando "morto", há que se ter alguém, grupos e pessoas que "representam" Jesus-Deus na Terra, e com isso cria-se a idéia da Necessidade de Proteção.

Incrivelmente, Jesus que veio à Terra ensinar a todos como serem sí próprios e se libertarem de todos os jugos e condicionamentos sociais, é reinterpretado como o Messias que, irá salvar a humanidade de todos os problemas, dores, doenças, guerras, aflições, mas a partir da recorrência a esses grupos dominantes - leia-se Igreja Romana - que, doravante, será a única autorizada a prescrever fórmulas, meios e práticas de se combater o mal no mundo.

O Cristianismo pois, logrou incutir no imaginário social, que todos somos crianças necessitadas de proteção, e que, somente outrem - principalmente as instituições sociais como a religião, a família e a ciência entre outras - é que poderá solucionar os nossos problemas.

É assim que, quando surge a pseudo-realidade "ela não me quer", "fulano me olha com desprezo", "estou depressivo", "os negócios não vão bem na empresa", sempre recorremos a forças exteriores a nós. Num caso vamos ao tarólogo, noutro, procuramos o psiquiatra ou o pastor, o sacerdote, e até mesmo o médium cujos Espíritos manifestantes poderão nos dar as respostas e soluções que buscamos, e ainda noutro caso, procuramos bancos que nos emprestam dinheiro a juros e até mesmo conselhos de amigos, parentes, familiares, e enfim, buscamos em todos os lugares, menos dentro de nós mesmos.

Essa problemática é elucidada na comovente estória de vida de um dos mais lúcidos "gurus" e "mestres" do século XIX na Ìndia: Jiddu Krishnamurti.

Krishnamurti foi "adotado" como o grande messias ressurgido por Helena Blavatsky, através de um vidente que lobrigou uma aura muito brilhante em Krishnamurti. Ele foi educado de maneira especial, e logo foi conduzido a dar palestras e ensinamentos na Inglaterra e, posteriormente nos Estados Unidos, à conta de "o novo Messias que veio para restaurar o Reino de Deus". Devido á essa alcunha, proclamada e divulgada socialmente pelo grupo e pela escola de Blavatsky, Krishnamurti se viu ridicularizado quando chegou aos Estados Unidos, e lá então, em meio ao retiro espiritual em que vivia com seu irmão, decidiu que ele não podia aceitar esse título. Mais que isso, decidiu e ensinou às multidões mais tarde, que ninguém poderia se constituir enquanto autoridade para solucionar os problemas de outrem. Recusou o título de mestre e guru, e não permitiu que houvesse seguidores à sua pessoa e ao que ensinava, de modo que Krishnamurti não deixou à posteridade nenhum sistema de Filosofia a ser seguido.

Ele recomendou às pessoas, em suas palestras, que nínguém, nem mesmo ele, poderia fazer nada por elas; que caberia às próprias pessoas enfrentar os seus problemas sem a ajuda de instituições, pastores, mestres, gurus, psicólogos, sacerdotes e etc.

Krishnamurti prega - mais ou menos à maneira de Nietszche - que devemos nos libertar de todos os condicionamentos sociais, e cita um exemplo muito interessante sobre a questão do desapego: um monge pode estar vivendo na misantropia, mas ainda assim, "repleto das coisas da sociedade". Há até, um conto Zen, referindo-se a essa questão, em que, estando um monge sozinho na floresta, se desespera quando há um incêndio, na preocupação de que a sua tanga poderia ser queimanda junto com a sua cabana. E ele, Krishnamurti, não poupa adjetivos para mostrar como aqueles que vivem uma vida monastérica e de renúncia, o fazem apenas materialmente, mas estão "cheios, repletos das coisas da sociedade", como as preocupações a que já nos referimos no começo deste texto.

Então, o que nós estamos esperando? Será que nós estamos esperando o pastor, o "ilustre Espírito fulano de tal, através do competente médium sicrano de tal" dizer o que devemos fazer e como devemos solucionar os nossos problemas?? É isso que nós estamos esperando?? Que a benzedeira ou o xamã venha, por meio de um ritual e de aplicação de líquidos obtidos a partir de plantas terapêuticas, curar a nossa depressão, ou fazer com que o "nosso amor" volte para os nossos braços? É isso o que estamos esperando??

Será que estamos esperando o aval da sociedade para aprovar o nosso novo emprego? Para aplaudir o fato de termos abandonado o "grande emprego na multinacional" e agora termos nos tornado um pintor de quadros ou um músico de botequim?? É isso que estamos esperando?

Esperando que os amigos, a sociedade, os pais e a parentela, venha dar o seu parecer se a nossa namorada é bonita, bem comportada ou não? Se ela usa saia ou calça apertada, enfim... temos a namorada para nos encaixarmos dentro do quadro de exigências sociais vigentes, ou a temos porque gostamos e aceitamos ela do jeito que ela é??

"Aceite a vida como ela é", proclama uma das bases mais sólidas do Zen-budismo e de toda a Filosofia Oriental.

Mas não, nós sempre estamos à busca de "um lugar ao sol" na sociedade não é mesmo? Trocamos o nosso carro, mas logo surge o modelo novo, e, por sugestão dos "amigos", logo corremos lá a comprar o modelo novo.

A Prática da Meditação ou Desapego das Idéias Mundanas, é uma prática que faz-nos voltar ao nosso próprio interior, e, a partir da Observação dos pensamentos, conceitos e idéias que afluem à nossa mente a todo instante, podemos, a partir de uma prática constante  - diária - ver que esses pensamentos, conceitos e idéias não são nossos. São pensamentos que nos ensinaram a pensar; são idéias que existem historicamente, e que se acreditam verdadeiras; são conceitos construídos e representados simbolicamente com o fito de conferir inteligibilidade ao mundo, e às nossas relações sociais, familiares, amorosas e outras.

Na Prática da Meditação ou Desapego às Idéias Mundanas, é fácil descobrir, após a observação de pensamentos, sem se envolver EMOCIONALMENTE com eles, que tudo é ilusão! Nossas idéias não são nossas: são idéias que outros tiveram; nossos pensamentos não são nossos: são pensamentos que existem e que foram, historicamente, formulados a partir de leis, costumes, normas, condicionamentos etc; os conceitos e verdades que acreditamos ser reais, são ILUSÕES, pois que, são conceitos e idéias criadas por outrem, e que, a nós, se afiguram como um a priori inamovível.

Como eu estou escrevendo para espíritas e espiritualistas, quero dizer aqui que o Espírito é a testemunha que observa todos os nossos atos, pensamentos e ações por parte do ser humano ou Espírito Humanizado.

Não existe nenhuma Realidade Objetiva: a realidade do mundo material, como bem observada por Allan Kardec na questão no. 32 de O Livro dos Espíritos, é uma realidade fictícia, que só toma "corpo", ou aparência de realidade, devido aos órgãos dos sentidos que são destinados a percepcionar essa realidade. Do mesmo modo, os conceitos, idéias, ideologias, pensamentos e representações do real, são apenas realidades relativas apreendidas a partir dos condicionamentos da razão  que, historicamente cria inteligibilidade ao mundo e às relações sociais, sejam elas políticas, familiares ou amorosas.

O Ego é um invólucro do perispírito, e não uma entidade que coexiste com o Eu Superior, o EU SOU (Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida [Jesus]), como muitas espíritas pensam. Antes de o Espírito reencarnar, ele pede uma prova a Deus - questões 132, 265 a 268 de O Livro dos Espíritos. Quando o Espírito pede uma prova antes de reencarnar, ele exerce o seu Livre-arbítrio. Assim, o Espírito constrói uma personalidade (do grego persona = máscara), que será a personagem que ele irá representar, de modo que, enquanto o Espírito deseja uma coisa, o ser humano (esse mesmo Espírito já encarnado) deseja outra diametralmente oposta - questão 266 de O Livro dos Espíritos.

O que é a Felicidade material portanto?? É quando o ser humanizado tem os seus desejos egoísticos sastisfeitos, ou no dizer de Kardec, quando ele realiza as suas paixões. E o que é a Infelicidade? É quando o ser humanizado se vê incapacitado de realizar as suas paixões.

Então, gente, vamos demolir de uma vez, todas essas idéas terrenas que nós temos acerca de "felicidade" e "infelicidade", porque, nem Deus, nem tampouco o próprio Espírito que é uma TESTEMUNHA e que assiste aos atos/ações/pensamentos da sua personagem, estão preocupados com a felicidade ou infelicidade material.

Deus e o próprio Espírito, a testemunha que assiste a tudo, estão preocupados com o triunfar da prova do Espírito, e não se ele está sendo bem sucedido ou não do ponto de vista material, e é nisto que consiste a ILUSÃO, ou seja, tomar por realidade algo que é somente aparência: "veja como aquele homem é feliz! rico, com saúde! seus filhos são todos casados e bem sucedidos na vida, como ele é feliz". Ele não é feliz, apenas tudo o que está acontecendo "de bom" não é senão os MEIOS PROVIDOS por Deus, para aquele Espírito cumprir a sua prova, ou seja, atestar se ele é capaz ou não de AMAR INCONDICIONALMENTE, assim como o Sol, que ilumina pobres e ricos, como também "vosso Pai, que faz chover sobre justos e injustos".

Do mesmo modo, dizemos: "Oh! Que infelicidade: aquele mãe vê todos os dias o marido chegar bêbado em casa; o filho é drogado, e a filha é prostituta!". Não se trata de infelicidade, mas esta, é a PROVA escolhida por estes Espíritos para provarem a Deus que podem ou não amar incondicionalmente.

Na Meditação podemos tranqüilizar a nossa mente, e ver a vida com EQUANIMIDADE, ou seja, ver que tudo o que nos acontece, faz parte do cronograma de provas que nós mesmos escolhemos para o nosso aperfeiçoamento ou AUTO-COMPREENSÃO enquanto Atman ou Espírito Imortal, unidos a Brahman, Deus, ou a Realidade Absoluta.

Agora quero ouvir vocês falarem um pouco...


Abçs,

Monstrinho

2 comentários:

  1. ficou ótimo RE...muito bem explicado...
    parabens...

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  2. Quando deixamos de reciclar nosso mundo íntimo..é comum fixar-nos em idéias e comportamentosque criam estilos variáveis no modo de ser...
    As certezas do homem encontram-se entorpecidas pelo materialismo..a ilusão de querer manter para sempre em suas mãos aquilo ou quem foi alvo de suas conquistas..
    Os mestres que por aqui passaram e alguns que passam tem algo para ensinar..por que descobriram potenciais e capacidades com seus próprios esforços...
    Mas o homem..iludido pelas coisas do mundo..adora criar ídolos..
    O próprio mestre jesus deixa isso claro...qdo percebemos que em todas as ajudas que ele proporcionou a alguem...ele sempre disse *vai a tua fé te salvou*...nunca disse..olha só..como eu sou bom...
    As dicas...conselhos..exemplos que recebemos de quemjá conseguiu crescer...são dicas legais que podem nos ajudar a caminhar com segurança..
    Talvez..uma das causas das ilusões..é nossa limitação em perceber a natureza dos sentimentos que criam ou determinam nosso raciocínio...
    Talvez fosse legal a gente começar..percebendo a auto-ilusão...que é quando queremos acreditar sobre nós mesmos..mas que não corresponde a realidade do que verdadeiramente somos...e sim aquilo que imaginamos que somos...por que nos sentimos assim melhor para nos apresentarmos a sociedade..
    muitas pessoas desejariam sair prontas para testemunho..após pequenos exercícios de espiritualização no centro espírita..nas igrejas..nos templos..ou outro lugar qualquer..
    Entretanto por ignorarem sua real condição espiritual..fazem desses lugares..um lugar de aquisição de angelitude imediata...
    Querem sair prontos e perfeitos das tarefas e estudos ou iniciação seja o que for...
    Quando..penso...que o objetivo de um bom mestre..é *capacitar* de valores intelectos-morais para que possamos repensar caminhos e encontrar respostas para as encruzilhadas da alma..
    E essa auto-imagem falsa ou ilusória é como se fosse uma cristalização mental...como uma irradiação que cria uma rotina escravizante nos sentimentos...
    penso que reformar é formar de novo..dar nova forma...mas ao fazer isso um conselho de jesus se adequa bem...*não se põe remendo velho..em vestido novo*.....
    Sentir o que somos..olhando apenas para o que fazemos..
    Viver a realidade do que somos com harmonia..ainda que as vezes nos cause desconfortos..
    por que..qdo nos sentimos desconfortados..é por que começa a acontecer a desilusão...e isso é positivo..começa a nos fazer cair na real..
    então..penso que o primeiro passo é nos desapegarmos da falsa auto imagem que fazemos de nós mesmos..
    *desapaixonando-se do eu*
    paulo..o apóstolo da renovação indica-nos uma recomendação bem legal:
    na segunda carta aos corintios cap.10:7
    *olhais para as coisas segundo as aparências?...se alguém confia de si mesmo que é de cristo..pense outra vez isto consigo...*
    E quem se conhece suficientemente..jamais se permite idolatrar..
    E talvez uma das maiores infelicidades é não se sentir capaz e não se esforçar em caminhar com os próprios pés...
    O problema não é querer ser feliz...é saber ser feliz com o que se é...a partir do que se tem...

    beijuuuuuuu

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